História de quem escapou da morte
Passaporte de analista judiciário estava vencido e coreógrafo brigou para ir em outro voo
Rio - Faltavam pouco mais de duas horas para seguir para o Aeroporto Tom Jobim quando o analista judiciário João Marcelo Calaça, 37 anos, percebeu algo impensável para alguém prestes a embarcar para Paris: seu passaporte estava vencido. Além da própria frustração, teve de enfrentar a fúria do amigo, o americano Thomas Blair, 43. “Fiquei revoltado, chateado mesmo. Afinal, como é que alguém pode deixar o passaporte vencer e não percebe? Agora não estou mais chateado. Já perdoei ele”, afirmou o amigo, aliviado por não ter embarcado no voo 447 da Air France.

Bianca e Rodrigo desistiram de viajar domingo para descansar após festa. Antonio e Rita, aliviados: o casal adiou o voo em cima da hora e escapou. Foto divulgação e Severino Silva/Ag. O Dia
João Marcelo passou o dia de ontem dando entrevistas e falando sobre o milagre que salvou sua vida. “Agora tenho dois aniversários. Vou marcar esta data também. Mas apesar da felicidade e do alívio de estar vivo, estou me sentindo dividido pela tristeza, já que é uma tragédia muito grande”, disse.
>> FOTOGALERIA: Parentes vivem drama e tensão
A irmã do analista judiciário, Tânia, lembrou que ele poderia ter tentado embarcar, já que tinha um amigo policial federal no aeroporto: “Ele até que poderia ter insistido e tentado embarcar. Mas, de repente, desistiu. Foi um agraciado”. Os amigos só descobriram o desastre por volta das 9h, quando João Marcelo acordou e viu 25 ligações perdidas em seu celular. Ele ligou a TV e soube do desastre. “Achei que fosse piada. Imediatamente avisei à minha família”, disse Thomas.
Quem por pouco não embarcou no voo 447 foi o coreógrafo Gustavo Ciríaco. Seu irmão, Bernardo, chegou ontem ao aeroporto desesperado em busca de notícias. Após ser encaminhado ao salão nobre, onde as famílias recebiam as primeiras informações, ele voltou aliviado ao saguão do Terminal 1: por um erro da empresa, o coreógrafo foi colocado na lista de passageiros do voo 447.
“Ele tinha comprado passagem para o horário das 16h, no voo 443, e não quis esperar até mais tarde. Sorte que ele bateu o pé. Foi a briga da vida dele! Graças a Deus ele está bem e já chegou a Paris. Estou numa alegria imensa aqui dentro”, disse Bernardo.
No caso dos namorados Rita Pinheiro, 29 anos, e Antonio Lameira, 30, a família impediu a viagem no 447. Depois quase de um ano de trabalho na Coreia do Sul, o engenheiro retornou ao Rio para descansar. Na noite de domingo, os dois embarcariam no voo 330 para fazer uma conexão em Paris, porém decidiram mudar a volta para ontem. “Não há como saber sobre o que aconteceu e não ficar apreensiva. É uma viagem a trabalho e ele resolveu esticar um pouco mais para ficar com a família. Por isso, acabamos não pegando o avião ontem”, disse Rita.
Noite de núpcias impediu tragédia
Já passava de 1h da madrugada de sábado quando o casal Rodrigo Motta e Bianca Igrejas, se esbaldando na pista de dança, resolveu esticar a noite de núpcias. Naquele momento, ainda durante a festa de casamento, eles decidiram não voar na noite de domingo para poder descansar e aproveitar o dia no Copacabana Palace. “Eles estavam achando mais prudente viajar na segunda-feira, mais descansados, de modo a aproveitar a noite de núpcias e a manhã seguinte no hotel”, contou o irmão do noivo, Luiz Alexandre Motta.
Segundo ele, Rodrigo e Bianca choraram muito ao receber a notícia do acidente quando acordaram ontem de manhã. “Foi um misto de alívio e tristeza. Quando começaram a ver a TV, foi meio desesperador. Era a programação inicial eles estarem nesse voo. Não demorou muito e o telefone começou a tocar, com todos perguntando se eles tinham viajado”, disse, frisando que ontem, às 16h20, o casal seguiu para Paris.
“Amigos preocupados”
“Tínhamos como destino final a Espanha. Depois de perdoar o João Marcelo por não ter checado a validade do passaporte, ironicamente, resolvemos ir ao cinema assistir ‘Anjos e Demônios’ . No celular dele, havia 25 ligações perdidas de amigos e parentes preocupados com a possibilidade de estarmos no voo da Air France.”
THOMAS BLAIR
sobrevivente, 43 anos
SORTE E ALÍVIO
‘Papai do Céu quis assim’
Um casal de franceses não conseguiu embarcar porque o voo estava lotado. “É um milagre. Deveríamos estar naquele avião”, disse à agência France Press o professor Claude Jaffiol, que estava no Brasil para um congresso médico acompanhado da mulher, Amina.
“Estávamos em Brasília e decidimos encurtar nossa estada, voltando para Montpellier”, afirmou Claude. “Tivemos uma sorte inusitada”, completou a mulher.
A guia de turismo Vera Regina Bastos embarcou aliviada ontem com seis amigas de uma igreja. Eles vão visitar santuários no Leste Europeu. “Na hora que a excursão foi programada, sairíamos no dia 31. Mas Papai do Céu que quis assim”, repetia aliviada.
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