Sarney se defende de acusações e diz não haver motivos para renunciar
POR ANDERSON COSTOLLI, RIO DE JANEIRO
Brasília - Se defendendo das acusações que levaram o Senado Federal a uma verdadeira crise de ética, o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), subiu à tribuna na tarde desta quarta-feira e falou por aproximadamente 55 minutos. Sarney disse que fica na presidência do Senado por ter sido colocado lá pelo povo e que nenhum senador pode exigir que ele renuncie. Ele afirma estar sendo vítima de perseguição política e que não há evidências para que renuncie. "Por que mereço punição?", indagou o peemedebista.
O pronunciamento começou com atraso por causa da reunião do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado, também marcado para as 15 horas. Ao todo, 11 representações acusam Sarney de vários deslizes, entre eles quebra de decoro parlamentar e nepotismo. "Nenhuma coisa refere a desvio de dinheiro público, ou atos ilícitos", defendeu-se o parlamentar.

Na foto, o presidente da Casa durante o pronunciamento feito esta tarde no plenário em sua defesa
Sarney insiste em dizer que todas as acusações "são respaldadas por recorde de jornal". Se fazendo de vítima, ele disse ser perseguido. "Os jornais e a mídia nunca se concentraram tanto contra uma pessoa como estão fazendo comigo. E não encontrando nada, invadem minha privacidade, fazem devassa atingindo minha família inteira", disse.
Falta de respeito
O presidente do Senado criticou também métodos usados por seus adversários e diz que não quebrou decoro parlamentar. "É uma campanha pessoal, sem respeitar minha privacidade, sem respeitar 55 anos de serviços prestados a este país e ao Senado. Em nenhum momento da minha vida faltei ou faltarei ao decoro parlamentar" disse o senador. Ele pediu a volta de "uma convivência pacífica" entre os senadores. "Não favoreci neto ou neta. Não menti. Sou, isto sim, vítima de uma campanha sistemática" afirmou Sarney.
Nepotismo
Sobre nepotismo Sarney leu todos os nomes citados nas representações como sendo indicados por ele mesmo para assumirem cargos políticos no Senado. Garantindo várias vezes não conhecer os nomes, nem as pessoas citadas, Sarney assumiu ter indicado apenas uma pessoa. "Vera Portela Macieira Borges. Esta realmente é sobrinha minha. Requisitei que o senador Delcídio do Amaral a chamasse para o seu gabinete. Mas quem de nós deixaria de ajudar uma pessoa que precisa?", assumiu. E criticou os autores das representações. "Vê-se que esta lista não pode ter sido feita com seriedade. Todos sabem que não me relacionei com o João Carlos Zoghbi , pois já abri representações contra ele", argumentou.
Por que mereço punição?
José Sarney
O pronunciamento do parlamentar aconteceria nesta terça-feira, mas por sugestão da assessoria de imprensa, José Sarney preferiu adiar para esta quarta o discurso que preparou para, mais uma vez, tentar responder às acusações que são feitas contra ele. Nesta terça, manifestantes tomaram as galerias do Senado para gritar ‘Fora, Sarney!’. Os seguranças da Casa expulsaram o grupo antes do início da sessão e houve conflito. Após o bate-boca do dia anterior, entre o senador Pedro Simon (PMDB-RS), árduo defensor do afastamento de Sarney, com os alagoanos Renan Calheiros (PMDB) e Fernando Collor (PTB), o clima no plenário foi de ressaca. O adiamento do discurso de Sarney também esfriou a sessão. “Não houve renúncia nem Dia do Fico”, sintetizou o senador Tião Viana (PT-AC), para quem a crise será uma ‘longa agonia’ para Sarney e para o Senado.
Duque diz que ‘já está tudo decidido’ na Casa
Antes mesmo do pronunciamento de Sarney, Paulo Duque (PMDB-RJ) disse que já tinha uma decisão tomada sobre as acusações contra o senador. “Já está tudo decidido, está apenas em segredo. Eu estou cumprindo um dever cívico, sem medo de nada. Estou preparado para tudo. Após o anúncio, o Conselho se reúne para apreciar minha decisão”, afirmou.
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A deterioração da situação política de Sarney mostra um choque de mentalidade no Senado, na opinião de Eurico de Lima Figueiredo, coordenador do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFF. “Esse caso é exemplar do nosso atual processo político, num embate entre o ‘velho’ (fisiologismo, nepotismo e apropriação do público pelo privado) e o ‘novo’ (cidadania, república, transparência)”, disse Figueiredo. Para ele, o clamor público torna ilegítima qualquer tentativa de absolvição de Sarney.
Finalizando o discurso desta quarta, Sarney se dirigiu aos senadores presentes. "Em nenhum momento da minha vida faltei com o decorro parlamentar. Logo eu que prezo a liturgia. Nunca alguém podia me acusar disso. Não abusei da autoridade, nao menti ao dizer que sou vítima de uma campanha sistemática e agressiva. Humildemente, como é do meu feitio, peço que me julguem pela minha conduta. E não pelas mentiras, acusações levianas. Meu apelo é à volta de uma convivência pacífica entre nós. Não posso aceitar é a humilhação de fugir de minhas responsabilidades", finalizou.
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