Erros que arruinaram duas vidas
Secretaria de Saúde conclui que Central de Transplantes e dois hospitais fizeram com que rim fosse para paciente trocada
POR PÂMELA OLIVEIRA, RIO DE JANEIRO
Rio - A Central Estadual de Transplantes, o Hospital Geral de Bonsucesso (HGB) e o Hospital do Fundão erraram ao selecionar, examinar e transplantar, na paciente Maria das Graças de Jesus Araújo, 51 anos, rim que deveria ter sido recebido por Maria das Graças de Jesus, 60. Foi o que apontou sindicância interna da Secretaria Estadual de Saúde.
Como O DIA mostrou em agosto de 2008, exames indicaram que a mulher de 60 anos tinha maior compatibilidade para receber o órgão, mas a Central convocou a outra para que se apresentasse para exames e transplante. Houve erro de identificação: a única diferença entre os nomes era o sobrenome ‘Araújo’. Maria das Graças de Jesus Araújo recebeu o rim em 5 de março e morreu menos de dois meses depois. Segundo médicos, a morte não teve como causa o transplante.
“O erro começou na Central, mas o HGB recebeu a paciente para fazer exames prévios e não conferiu documentos. Depois, o Fundão transplantou a pessoa errada apesar de as duas terem tipos sanguíneos diferentes. Ou seja, todos erraram”, afirma o procurador Ricardo Levy, chefe da assessoria jurídica da secretaria, que responsabilizou três funcionárias da Central. “Duas, que eram servidoras, pediram exoneração quando receberam o resultado da sindicância. E a terceira, que era cooperativada, foi desligada.”
O procurador diz que após a conclusão, o resultado seria encaminhado à Secretaria de Planejamento, que poderia demitir as funcionárias. Mas isso não ocorreu devido aos pedidos de exoneração. “Enviamos ofício ao Ministério Público Estadual para que avalie a necessidade de ação civil ou até a existência de crime. O Ministério da Saúde e a reitoria da UFRJ (responsáveis por HGB e Fundão, respectivamente), também foram oficiados. Só podemos punir servidores do estado.” O Fundão também abriu sindicância, mas a direção não recebeu resultado.
O Ministério da Saúde aguarda as sindicâncias locais para estudar que providências tomar.
Sacrifício das sessões de hemodiálise
Há um ano e oito meses, Maria das Graças de Jesus espera por uma segunda chance. Moradora de Itaboraí, ela não perdeu a esperança mas sofre quando pensa que poderia ter sido transplantada e ter hoje uma vida menos sacrificada.
“Não sei de onde eu tiro força. É muito sacrificante fazer hemodiálise direto, três vezes por semana. Eu já podia ter passado por isso”, diz ela, que entrou na Justiça com uma ação de responsabilidade civil com reparação de danos.
No processo, a Procuradoria Geral do Estado pede que os pedidos de Maria sejam julgados improcedentes. E alega que um “transplante não oferece garantia de sucesso ou melhora na qualidade de vida e não raras vezes implica na rejeição do órgão e até mesmo no óbito”. Diz ainda que “o sofrimento da autora é decorrente única e exclusivamente da doença renal”.
Presidente da Associação de Renais Crônicos do Rio, Alfredo Duarte ficou indignado. “Transplantada, ela teria melhor qualidade de vida”.
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