Adeus a um pioneiro
Ícone da “Internet a vapor”, site de hospedagem Geocities tem morte anunciada para este ano
POR MARLOS MENDES , RIO DE JANEIRO
Rio - Em 1995, Fernando Henrique Cardoso assumiu seu primeiro mandato, Carlos Menem foi reeleito na Argentina. Timothy McVeigh explodiu um prédio em Oklahoma e terroristas lançaram gás sarin no metrô de Tóquio. Cientistas implantaram uma orelha humana nas costas de um rato. O Fluminense foi campeão carioca, o Botafogo foi campeão Brasileiro, o Flamengo fez 100 anos. Gilles Deleuze, que fazia pensar, e Costinha, que fazia rir, foram em direção à luz.
Receber as notícias e comentar todos esses fatos não era tão fácil como hoje. Não havia Orkut nem Google. Não havia blogs, Flickr, nem celulares. O sonho de consumo era um Pentium com Windows 95 e modem de 28.800 Kbps. Os reis das buscas eram Altavista e Yahoo. A Netscape dava a impressão de conquistaria o mundo online. A Internet no Brasil ainda engatinhava.
Também engatinhava, com cerca de um ano de vida, o Geocities, que se tornou um ícone da Internet “1.0”. O serviço oferecia hospedagem de páginas, templates e upload de arquivos por FTP. Hoje parece muito pouco, mas na época era topo de linha.
O serviço foi comprado pelo Yahoo! em 1999 por 4,6 bilhões de dólares, no tempo da euforia especulatória pré-bolha pontocom. E inspirou outros, como Kitnet e HPG. Pois o pioneiro da Internet está com os dias contatos. Na semana passada o Yahoo anunciou que o Geocities não aceita novas inscrições e deverá sair do ar até o fim do ano. Quem tem páginas por lá deve movê-las.
O fim do Geocities despertou uma onda de saudosismo entre internautas em blogs e no Twitter. “O Geocities foi o embrião não apenas para mim, mas para muitos blogueiros. E imagino que a maioria deve ter sentido a mesma tristeza. Sinto-me como se um velho amigo estivesse morrendo”, disse o desenvolvedor web Paulo Henrique Halkmin, o Graveheart, numa elegia ao Geocities no blog GuraveHaato (www.guravehaato.info).
O PRIMEIRO SITE
“O Geocities foi minha primeira página e onde aprendi o básico de HTML”, lembra o publicitário Arthur Muhlenberg, do Urublog, blog na Globo.com dedicado ao Flamengo. Rubro-negro fanático, Muhlenberg conta que em 1995 fez um site sobre Romário chamado Pé Sujo do Seu Edevair. “O site falava sobre Romário e seu camaradas da Vila da Penha com acompanhantes, imitando sites adultos. Dava para ver que não era oficial. Um dia me procuraram para uma reportagem sobre sites de futebol e soube que tinha mais de 50 mil visitas. Morri de medo de ser processado pelo Romário”, lembra.
O publicitário paulistano Diego Remus têm lembranças boas e ruins. Seu primeiro site no Geocities, criado em 2001, foi apagado, segundo ele, arbitrariamente, porque não vinha sendo atualizado. Ele criou outro site no Geocities, mas então serviços como Multiply e Blogspot eram mais atraentes. “Sem funcionalidades interativas e participativas, o Geocities ficou defasado”, acredita Remus.
Talvez prova de que a teoria de Darwin também funciona no universo dos bits, o Geocities não se adaptou ao princípio do conteúdo gerado pelo internauta, permaneceu como ferramenta para conteúdo estático e acabou no limbo. Tanto que muitos só lembraram que ele existia agora que sua morte foi anunciada. Valeu, Geocities. Descanse em paz.
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