Lima Duarte: 'No Brasil velho tem que morrer'
POR GABRIELA GERMANO, RIO DE JANEIRO
Rio - Lima Duarte é um apaixonado. Pela profissão, pela vida. Tanto é que, mesmo depois de 60 anos de carreira, continua fazendo novelas apesar de achar o ritmo desgastante e os estúdios repletos de atores exibicionistas. Na entrevista, o ator relembra ainda a paixão por Maitê Proença e assume que já se apaixonou por outras mulheres em sua trajetória.
O DIA — Você estava na inauguração da TV brasileira e já disse em entrevistas que tinha se cansado de fazer novelas. Por que ainda persiste?
Lima Duarte — Porque esse é meu trabalho e gosto do contato e da comunhão que tenho com os espectadores. Muita gente envelheceu comigo. Não me canso de contar histórias para essas pessoas e ser ouvido pelo público. Mas o trabalho cotidiano é bem desgastante mesmo. A rotina dos estúdios é terrível, com vários egos inflados.
— O que melhorou e o que piorou em quase 60 anos de TV brasileira?
—Hoje as imagens são belíssimas, temos câmeras maravilhosas. Mas as mudanças tecnológicas transformaram muitos atores em um bando de exibicionistas. As meninas adoram mostrar lágrimas. “Vai cair, atenção, olha o close”, diz o diretor. E aí a atriz mostra: “Olha como eu choro”. Mas o público percebe o exibicionismo, a mentira. Eu não. Vou sempre com a minha verdade, integral. Eu quero atores viscerais, eu quero a alma.

Lima vive Shankar em 'Caminho das Índias' | Foto: André Luiz Mello / Agência O Dia
— Muitos veteranos dizem que aprendem com os atores mais jovens. Isso é só uma frase bonitinha?
— É uma frase feita. Posso aprender sobre praia, surfe, sobre o que é ficar. Mas para isso tenho netos. Agora, interpretar, viver outra vida é um negócio tão grandioso, complexo. Isso poucos entendem.
— Com tantos anos de carreira, você ainda se sente desafiado? Precisa provar algo?
— Se não tenho que provar algo ao público, tenho que provar para mim todos os dias, todas as horas. A cada novela tenho que provar que ainda estou vivo, que as pessoas se interessam pelo meu trabalho. Fiz a primeira novela, ‘Sua Vida Me Pertence’, em 1951. Se eu tivesse desistido de provar coisas, de me testar, eu não estaria aqui. Depois de uma vida profissional longa e intensa, você cria cumplicidade com o espectador.
— E como tem sido a repercussão de Shankar?
— Chego na casa das pessoas todas as noites depois do jantar e conto uma história. Desta vez estou contando algo que se passa na Índia. E a estrutura do pensamento indiano é bem diferente da nossa. Através do Shankar eu estou ensinando mais ou menos o povo a descobrir como é o outro. É importante as pessoas prestarem atenção no outro. Mostro como ele sofre, como ele ama.
— Por falar em amor, Laura Cardoso acredita que não há chance para o amor de Shankar e Laksmi na novela. E você?
— Na Índia o amor é diferente. Eles se amam de verdade, sim. Mas de acordo com a visão que você e o público têm do amor, eles não têm chance. Não vão fazer amorzinho, Laksmi não vai se casar de véu e grinalda. Acho que eles não vão dar o beijinho final para fazer o ‘happy end’ porque vai ser ridículo. Mas que o amor deles é intenso, isso é.
— Acha que no Brasil as pessoas têm preconceito com relacionamentos de pessoas na terceira idade?
— É claro que aqui existe preconceito. Na Índia, os velhos são o máximo da sociedade, são um patrimônio. No Brasil, velho tem mais é que morrer porque é menos dinheiro para o INSS gastar. É considerado trambolho. Basta ver que todo mercado aqui é voltado para os mais jovens.
— Você vive sozinho em um sítio no interior de São Paulo. Por que prefere manter a sua vida lá?
— Porque eu não tenho vida. Minha vida é de meus personagens. Lá cuido dos meus cachorros e penso em um monte de coisas.
— Você não tem uma companheira. A profissão de ator atrapalha a vida pessoal?
— Não tenho mulher, namorada ou amante, mas fui casado cinco vezes.
— Falam muito da paixão que você teve por Maitê Proença. Isso o incomoda?
— De forma nenhuma. Mas é uma história velha, faz tanto tempo que nem me lembro mais da Maitê. Mas a amei muito. Adorei ela. E Maitê também me amou, do jeito dela, é claro. Maitê é mundana. A profissão de Maitê é ser linda.
— Já se apaixonou muitas vezes durante a sua carreira?
— Muitas vezes. Porque tem um momento em uma novela que é enlouquecedor. Você fica um ano naquela história e 30 milhões de pessoas começam a investir no seu amor.
— Com a Maitê foi assim?
— No caso da Maitê, 30 milhões de pessoas diziam: “Fica com ela, beija ela”. O porteiro do prédio, a caixa do supermercado. Isso não tem força? A linha divisória entre personagem e ator é muito frágil, difícil. Às vezes você cai na fantasia. É por isso que muitos se casam com atrizes. Você tem que preservar a realidade ou vai acabar embarcando na fantasia. É quase uma esquizofrenia. Você fica um ano beijando uma mulher. Tudo bem, é profissional. Mas toda mentirinha tem um fundo de verdade.
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