 |
|
Juscelino Kubitschek
Bossa Nova, Cinema Novo... Em tempos de transformações culturais, urbanas e políticas,
o brasileiro também merecia um país novo na virada da década de 50 para a de 60. Um mineiro jovial e sorridente seria o símbolo desse novo tempo: Juscelino Kubitschek
de Oliveira, ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas Gerais - onde construíra cinco hidrelétricas
em seu mandato - fora eleito por um povo esperançoso, que apostara no espírito empreendedor e no audacioso slogan de campanha, que prometia recuperar
o atraso que se acumulava ao longo de décadas. "Cinquenta
anos em cinco."
Do talento dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer
e da determinação de Juscelino, Brasília nascia, em 1960, no meio de um deserto, no Planalto Central.
A nova capital foi concebida em 41 meses, mas era a concretização de uma ideia gerada no século XIX, ainda na Monarquia, quando se percebeu, pela primeira vez, a necessidade de se transferir para um ponto central o comando
administrativo do governo. Brasília nascia num período de "libertação nacional", expressão que poderia ser traduzida como independência na política externa e uma saudável distância dos interesses norte-americanos. Outras expressões como "transformações estruturais", "reformas de base" e "nacional-desenvolvimentismo" passaram a fazer parte dos noticiários e da vida nacional. O Brasil, finalmente, começava a olhar para o futuro.
A instabilidade política e econômica era a mesma de outros tempos, mas o ânimo do povo era diferente. Impulsionado
pelo otimismo de JK, o brasileiro se sentia mais leve e ousado. O poder dos latifundiários recuava,
à medida que avançavam as ideias difundidas pelo vice-presidente João Goulart, que projetava os primeiros
passos da Reforma Agrária no País. O mesmo Jango que causara arrepios aos militares no Governo de Getúlio
Vargas, quando reajustou em 100% o salário-mínimo, consolidava a sua posição de pulga-atrás-da-orelha das Forças Armadas e dos conservadores em geral.
O Brasil voltava a sorrir, principalmente quando a imprensa abria espaço para a presença de espírito de Nonô, apelido de infância do médico de Diamantina que surpreendia até os mais experientes jornalistas. Durante uma entrevista a O Cruzeiro, em 1955, o repórter queria saber como Juscelino encarava o "problema do café". JK rebateu de primeira: "Qual deles, o vegetal ou o animal?" Como bom mineiro, alfinetava os produtores paulistas, que tentaram miná-lo na campanha presidencial.
O prestígio político da UDN soçobrava. Intrigas e articulações
que levaram Getúlio Vargas a cometer o suicídio
acabaram transformando o Pai dos Pobres num mártir.
E agora, no governo desenvolvimentista de Juscelino, o partido direitista fora literalmente barrado no baile. Dos 24 ministros civis de JK, 16 eram do PSD e seis do PTB. Isso, porém, incomodava. E como! |
| |
|
‘Como pode peixe vivo viver fora da água fria?’
O período final do Governo JK coincidiu com a eclosão da Revolução Cubana, deixando
o governo brasileiro num dilema: reconhecer
ou não o novo regime. Como o Governo
de Fidel contava com forte respaldo popular, o embaixador brasileiro em Havana,
Vasco Leitão da Cunha, recomendou o reconhecimento
do governo revolucionário.
Fidel fora ao embaixador agradecer pelo apoio que a Embaixada Brasileira dera a seus companheiros durante os embates contra as tropas do general Fulgencio Batista. Em maio de 1959, JK recebeu Fidel no Rio de Janeiro. Os dois fumaram os Havanas da paz, consolidando
as relações entre os dois países.
Naquele mesmo ano, no ato mais espetacular
de seu governo, Juscelino também
anunciava o rompimento das negociações
com o Fundo Monetário Internacional (FMI), afirmando que o Brasil não era mais "o parente pobre, relegado à cozinha". Era o início de uma política externa voltada ao distanciamento
das orientações dos EUA.
Os resultados eram mais auspiciosos do que se imaginava. O Plano de Metas - que consolidaria os "Cinquenta anos em cinco" - revelava números que extrapolavam as previsões
mais otimistas nos setores de energia, transportes, alimentos e, principalmente, na indústria automobilística. Entre 1957 e 1960, o Brasil produziu 320 mil veículos
- 90% acima da meta.
Quando JK morreu, em 1976, cogitou-
se a possibilidade de atentado.
Nada foi provado. De concreto, ficou a saudade, na voz dos mais de 300 mil cidadãos que foram ao enterro e cantaram a música
preferida de Nonô: "Como pode peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei
viver sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia?" |