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Carnaval ameaçado
Tudo começou de verdade, pra valer mesmo, em um setembro como este, setenta anos passados.
Na madrugada de 1º de setembro de 1939 a Alemanha invadia a Polônia para logo depois anexá-la. Na mesma semana a França e a Grã-Bretanha declaravam guerra à Alemanha.
Aqui na América era pelos jornais, rádios e cines-jornais que as notícias chegavam. Era um tempo em que a Europa ficava ainda muito longe de nós. Era coisa lá do "outro" lado do mundo.
Aqui a cidade e as escolas preparavam seu carnaval de 1940.
O ano anterior, carnaval de 1939, marcaria o início da arrancada triunfal da Portela. Na década seguinte a escola alcançaria a formidável marca de sete títulos consecutivos, marca que jamais deixaria apagar seu nome e suas glórias da memória do povo brasileiro: a Majestade do Samba.
O país vivia a realidade da ditadura de Vargas e seu Estado Novo.
Era o primeiro carnaval a ocorrer já com o mundo conflagrado: uma guerra que marcaria a humanidade com o maior número de vítimas de toda a história; 50 milhões de vidas.
Em toda parte ninguém duvidava que o ano de 1940 seria verdadeiramente de amargar, o ano em que o conflito tomaria dimensões mundiais.
Ao se aproximar o carnaval, Braguinha reinava nas ruas e nos bailes com suas marchinhas. Ora com Noel Rosa em "As Pastorinhas. Ora com Alberto Ribeiro em "Touradas de Madri". O samba, até há poucos anos discriminado e segregado, pegava "carona" no carnaval e avançava na conquista dos foliões de todo o Brasil. Naquele ano foi "Abre a Janela", foi "Camisa Listrada" de Assis Valente e "Não Tenho Lágrimas" do grande Babaú, fundador da gloriosa Unidos do Cabuçu.
Mas e você aí desse lado? Coloque-se naquele momento da história da humanidade. Como você reagiria diante do conflito e diante do carnaval que se aproximava? Você ali, naquele momento, naquelas circunstâncias seria favorável à suspensão do carnaval ou ficaria ao lado daqueles que em nenhum momento interromperam a confecção de suas fantasias?
Quando o carnaval chegou só deu Mangueira, com o samba Lacrimário do grande Carlos Cachaça, deixando na poeira a vice Mocidade Louca de São Cristóvão, a Azul e Branco do morro do Salgueiro, a União do Sampaio e a Portela, em sua pior classificação até ali.
O carnaval ficava para trás e a guerra avançava na Europa.
Em maio a Alemanha incentivada por vitórias isoladas lançava ataque em bloco invadindo de uma só vez a Bélgica, Holanda, Luxemburgo e ... a França.
Cada palmo da Europa caia sob o domínio alemão.
É ainda em maio que Churchill profere um dos discursos mais dramáticos da história. Ali, na Câmara dos Comuns, o grande líder advertia e preparava seu povo para os tempos que viriam: tempos "(...) de sangue, suor e lágrimas..."
A França era invadida. Paris ocupada pelas forças nazistas. Os bombardeios sobre Londres não tardariam. Era a batalha da Inglaterra. A guerra sem controle e sem previsibilidade.
Ao findar aquele ano o Estado-Maior alemão já planejava a invasão da União Soviética, rumo à vitória final.
Às vésperas do carnaval de 1941 a guerra já chegava até aqui como uma sangrenta realidade. Não dava mais para imaginar, como tantos faziam, que "aquilo lá vai acabar logo".
Mas e então? E você? De que lado ficaria? Vai haver carnaval mesmo assim? Ou vamos nos solidarizar com as forças aliadas?
Adivinha...?
Houve mesmo carnaval e a Portela emplacava seu primeiro campeonato daquela década. Era o segundo carnaval da guerra, o último carnaval de Paulo na Portela. Paulo se despedia da Portela e a Praça Onze se despedia de seus dias gloriosos: "berço de nossas fantasias...".
Já no carnaval seguinte Paulo não estaria mais lá, seria também o último carnaval da Praça Onze. Teria algum sentido, Paulo da Portela sem a Praça Onze... algum sentido a Praça Onze sem Paulo?
Mas vamos voltar para a guerra. Isso aí são lendas do carnaval...lendas da Portela...
Nas ruas um carnaval animadíssimo puxado por marchinhas cada vez mais cativantes como "Aurora", "Alah-la-ô" e sambas marcantes como "Helena, Helena", "O Trem Atrasou", "O Bonde São Januário".
Prova maior de que os ventos da guerra chegavam definitivamente para cá, é desse tempo a marcha "A Dança do Ganso", que ridicularizava as marchas do exército alemão, composta pela nunca suficientemente reconhecida dupla Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, não é mesmo Monte?
Em meados do ano claramente a nação brasileira se percebe patrulhada em suas águas territoriais, em Recife e Salvador, por cruzadores e destróieres alemães. O ano terminaria com patrulhas anti-submarinas brasileiras em plena operação de guerra defensiva.
A partir dali ao conflito conheceria dois entre seus mais dramáticos episódios. Em junho os alemães invadiam a Rússia. Em dezembro seus aliados japoneses aniquilavam a frota americana do Pacífico bombardeando Pearl Harbour. Ali os brasileiros já não tinham dúvidas: nossa hora estava chegando, a cobra ia mesmo fumar. Já no comecinho de 1942 o Brasil rompia relações diplomáticas com o eixo inimigo: Alemanha, Itália e Japão.
Aqui a rapaziada já esquentava os tamborins. O carnaval estava marcado para 15 de fevereiro. Um carnaval mais que ameaçado, você não acha?
Mas e você, mudou de idéia? Como se comportaria naquele cenário, como cidadão brasileiro? Agora a guerra estava quase aqui dentro. Suspende a festa ou vamos para a folia?
No último desfile da Praça Onze e do Largo de São Domingos uma vez mais deu Portela. Pelo menos isto.
Éramos então pouco mais de 40 milhões de brasileiros. Apenas 500 mil aparelhos de rádio. A TV só viria tempos depois. Pelas rádios, jornais e cines-jornais a nação acompanhava o afundamento aqui em águas brasileiras, no litoral da Bahia e Pernambuco, de trinta e cinco navios sendo apenas três da Marinha de Guerra. Os trinta e dois outros da Marinha Mercante. Os estudantes enfurecidos estimulam a ida do povo às ruas levando Vargas a "descer do muro". No mar foram pouco menos de 1500 vidas perdidas: "nos verdes mares de norte a sul".
Entre tantos navios estava o Itagiba, abatido no mar da Bahia em 17 de agosto de 1942 por submarinos alemães. Na lista de sobreviventes estava lá: Silas de Oliveira, este mesmo que vocês estão pensando.
Muitos desses homens integravam o 7º Grupo de Artilharia de Dorso que alistava conscritos da região de Madureira e arredores, gente que nos carnavais anteriores vestia fantasias da Portela, do Prazer da Serrinha, da Lira do Amor.
Quantos jamais voltariam a vesti-las
Todos os jornais estampavam fotos da tragédia. Pelas rádios as famílias acompanhavam desesperadas as perdas de seus filhos. No centro da cidade, na estação da Leopoldina, na Central, Cinelândia, galeria Cruzeiro oradores inflamados denunciavam tamanha covardia entre centenas de bandeiras e ao som do hino nacional cantado por milhares e milhares de vozes emocionadas.
Vargas não tinha alternativa: o Brasil declarava guerra à Alemanha e demais países do Eixo. Eram formados corpos de voluntariado de enfermeiras, clubes e fábricas transformados em abrigos de guerra. Os sambistas "caíram dentro" e Paulo da Portela pegou logo a caneta evidenciando uma democracia que não existia aqui.
E mandou:
Democracia
Palavra que nos traz felicidade
Pois lutaremos
Para honrar a nossa liberdade
Brasil, oh! Meu Brasil
Unidas nações aliadas
Para o "front" eu vou de coração
Abaixo o Eixo
Eles amolecem o queixo
A vitória está em nossa mão.
Na Europa o exército alemão chegava às portas de Stalingrado, se entrassem a guerra estaria "no papo". Hoje todo mundo sabe disso.
E um outro fevereiro não tardaria a chegar. Fevereiro de 1943.
A Europa em chamas, o mundo aterrorizado. Você vestiria sua fantasia?
Foi um carnaval muito apagado aquele.
Crise econômica, medo, a Prefeitura sequer liberara a subvenção. A imprensa ficou fora, o baile do Municipal cancelado. As grandes sociedades e os ranchos enrolaram as bandeiras e os estandartes e não desfilaram.
Parte da opinião pública não aceitava que em meio à conflagração mundial se pudesse brincar o carnaval. O Jornal do Brasil radicalizava: "Festejar o carnaval na situação em que nos encontramos seria leviandade, senão verdadeira inconsciência".
Ainda assim o carnaval aconteceu. As escolas permaneceram no esforço de mobilização nacional. A Portela fez o tri com o enredo "Carnaval de Guerra", com samba de Alvaiade, Nilson e, creiam o grande Ataulfo Alves. Era mais ou menos assim:
Brasil terra da liberdade
Brasil, nunca usou a falsidade
Hoje estamos em guerra
Em defesa de nossa terra
Se a pátria amada me chama eu vou.
E por aí ia...
Às escolas cabia apenas a composição do samba e o desenvolvimento do tema proposto pela Liga de defesa Nacional e pela UNE. Foi assim em todos os carnavais de guerra: 1943, 1944 e 1945.
A aviação brasileira só entraria na guerra em outubro de 1944, mas foi mesmo a partida dramática e numerosa dos pracinhas brasileiros para a Itália e as constantes notícias de combates sangrentos que tornava cada vez mais insustentável a idéia da realização do carnaval naquele fevereiro.
Com tanta emoção no ar, e com pouquíssima cobertura de imprensa, a Portela, super organizada e plenamente estruturada, só fez "botar o bloco na rua", com o tema "Brasil Glorioso", e levantar o tetra. O samba de José Barriga Dura aliava a energia positiva para os soldados que partiam com o sentimento doído da saudade daqueles que ficariam à espera da volta.
Foi "na veia":
Somos todos brasileiros
E por ti queremos seguir
O clarim já tocou reunir
Adeus minha querida que já vou partir
Em defesa do nosso país
É verde, amarelo e branco e azul
Cor de anil é o meu Brasil
E por aí, ia...
Nas ruas de Stalingrado os russos resistiram até morrer sem que se tenha certeza até hoje quantos milhões de jovens soldados caíram ali para sempre. Caia o mito do exército alemão imbatível. O mundo respirava aliviado.
Os alemães não passaram... a guerra mudava de rumo.
Depois vieram só boas notícias. Os aliados desembarcaram na Normandia no tal dia D, um dos mais importantes da história. Era o primeiro passo para a desocupação da França, e de toda a Europa.
Em agosto Paris era libertada, com todo o simbolismo para a vitória final. Por tudo que representava a humanidade jamais esquecerá aquele dia.
Quando chega o carnaval de 1945, mesmo sob os efeitos da economia de guerra, fevereiro iria ter o sabor que dele já não se sentia há tantos anos. Todo mundo poderia brincar o carnaval sem culpa e sem medo. As notícias que chegavam do "front" eram animadores. A vitória não só seria nossa como não tardaria muito.
Mas não foi bem assim...
Quando a carnaval chegou a imprensa não deu a menor pelota. Todos os espaços eram para as vitórias aliadas, sobretudo quanto à Força Expedicionária Brasileira. As escolas nem sabiam direito onde seria o desfile que acabou acontecendo no campo do Vasco, em São Januário, palco da mais famosa briga havida nos redutos do samba.
Em meio a tantos atropelos a vitória da Portela foi como roubar bala de criança. Com o tema "Motivos Patrióticos" e samba de Zé Barriga Dura e Batatinha.
No ano seguinte a comemoração da vitória, já com presença da imprensa e das escolas que faltaram a desfiles anteriores. Desnecessário dizer que a Portela conquistava ali, com o tema "Alvorada de Um Novo Mundo", com samba de Ventura seu hexacampeonato para repetir o feito no ano seguinte, último da série, já fora dos carnavais de guerra.
Finda a guerra e já com a presença de "nossos heróis" as notícias começavam a chegar relativas não mais ao que ocorria aqui, mas ao que ocorria em plena zona de combate no norte da Itália. Soube-se então o que fora a "Tomada do Monte Castelo", mais dramático episódio brasileiro de guerra.
Soube-se também que a conquista se deu em várias tentativas. A tentativa de dezembro a mais sangrenta, com enormes perdas. A forte nevasca fragilizava as posições ofensivas favorecendo na defesa alemã. A estratégia do comando era esperar a neve baixar deixando, assim, um período de relativa calma entre meados der dezembro e o fim de fevereiro.
Considerando que o carnaval daquele ano cairia em torno de 11 de fevereiro, ninguém precisa ser grande conhecedor de nossa gente para imaginar o que terá acontecido naqueles dias. Tudo que se poderia imaginar seria depois confirmado por correspondentes de guerra da BBC de Londres. Dezenas de marchinhas e sambas de carnaval foram compostos especialmente para aquela ocasião muitas deles gravados pelos repórteres ingleses surpresos com tanta criatividade e com a festa carnavalesca que viam.
A exemplo daqueles brasileiros que brincaram o carnaval, ao contrário daqueles que respeitaram o período de guerra, o que os repórteres ingleses incrédulos viram e gravaram ali foi um carnaval de verdade, mesmo os soldados sabendo que teriam dias depois sua mais difícil, perigosa, sangrenta e mortal missão de guerra. Ainda bem que foram os ingleses que contaram do contrário ninguém acreditaria.
Para muitos, o último carnaval de suas vidas.
Sob o fogo de cima para baixo das temidas metralhadoras "lurdinha" e dos morteiros alemães cerca de 450 brasileiros tombavam mortos ou feridos.
Era 21 de fevereiro. Desta vez com a ajuda da FAB, Monte Castelo caía em mãos brasileiras.
Como diria Lamartine: dez dias depois do carnaval
SUGESTÃO PARA OUVIR AGORA: www.anfeb.com.br/musicas_da_feb.htm: site onde podem ser encontradas as marchinhas e sambas compostos pelos pracinhas brasileiros, gravados pelos repórteres de guerra da BBC de Londres.
SUGESTÃO PARA VISITAR: www.anvfeb.com.br
Fontes:
Jornal O Dia: 70 anos da 2ª guerra no Brasil (edições de 06. 13 e 20 e 27/09/2009);
Carnavais de Guerra: o nacionalismo no samba, de Dulce Tupy, editora ASB, 1985;
As Escolas de Samba do Rio de Janeiro, de Sergio Cabral, editora Lumiar, 1996;
Silas de Oliveira; Do jongo ao samba-enredo de Marília Trindade Barboza e Arthur L. de Oliveira Filho, editora MEC-FUNARTE, 1981.
SITES CONSULTADOS:
www.anfeb.com.br/musicas_da_feb.htm
www.portelaweb.com.br
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