Aulas de História afro na Justiça
Perícia no currículo das escolas de todo o estado vai fiscalizar presença de disciplina obrigatória sobre cultura negra
POR RICARDO ALBUQUERQUE, RIO DE JANEIRO
Rio - A ‘guerra santa’ entre evangélicos e umbandistas causada pela leitura em sala de aula do livro ‘Lendas de Exu’, de Adilson Martins, está longe do fim. Medida cautelar na 2ª Vara de Fazenda Pública exige perícia no currículo das escolas públicas e privadas do Estado do Rio para saber como a disciplina ‘História e Cultura Afro-Brasileira’, obrigatória nas redes de ensino desde 2003, está sendo aplicada.

Adilson Martins já escreveu quatro livros inspirados na cultura afro. Foto Carlo Wrede/Agência O Dia
Quatro ONGs do movimento negro impetraram a ação, há um ano e quatro meses, por desconfiar que os colégios desrespeitam a Lei 10.690/03, que incluiu a matéria no currículo escolar oficial. O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa estimam que menos de 50% das escolas no Estado do Rio seguem a determinação.
A discussão sobre a inclusão da disciplina voltou depois que a professora Maria Cristina Marques usou o livro ‘Lendas de Exu’ com alunos do 7º ano da Escola Municipal Pedro Adami, em Macaé. A leitura provocou desentendimento com os diretores da escola Mery Lice da Silva Oliveira e Sebastião Carlos Menezes. Segundo a professora, ela foi impedida de dar aula.
Os vereadores Luís Sérgio (PMDB) e Ronaldo Gomes (PT do B) repudiaram, ontem, a atitude dos diretores no plenário da Câmara de Macaé. Hoje, eles se encontram com a secretária municipal de Educação, Marilene Garcia.
“Quando a cultura afro-brasileira invadir as escolas, nós teremos a redescoberta da República Brasileira, encontrando personagens que sequer foram citados em livros e não tiveram suas histórias contadas”, analisou Humberto Adami, ouvidor do Ministério da Igualdade Racial e ex-presidente da ONG Instituto Iara, uma das que impetraram a ação.
“Intolerância religiosa é inaceitável! Não vamos manter esta postura em nossas escolas”, comentou a secretária municipal de Educação do Rio, Cláudia Costin. Sua pasta informou que as 1.063 escolas da rede carioca são orientadas a abordar História e Cultura Afro-Brasileira nas aulas de História, Língua Portuguesa e Artes.
Autor do livro lamenta intolerância
Autor do livro recomendado pelo MEC ‘Lendas de Exu’, o escritor Adilson Martins, 70 anos, lamentou que a publicação esteja envolvida em questão religiosa. “Qualquer tipo de intolerância é desagradável. É apenas um trabalho infanto-juvenil que busca propagar a cultura afro-brasileira e romper a imagem de demônio de Exu”, explicou. Adilson tem mais dois livros com o aval do MEC: ‘O papagaio que não gostava de mentiras’ e ‘Erinlé, o caçador’, publicações voltadas para o público infantil.
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