Diálogos no centro da guerra
Para discutir um assassinato com presos de Bangu 3, chefe do tráfico da Vila Cruzeiro usa central de rádio da Vila Kennedy, que viveu o terceiro dia consecutivo de conflitos entre facções. Tiroteio fechou escolas e postos de saúde
Rio - Gravação telefônica interceptada pela Polícia Civil no início do mês passado revela a importância para o tráfico de drogas do controle da Vila Kennedy, favela mais próxima ao Complexo de Gericinó. No diálogo feito com radiotransmissores por meio de central instalada na comunidade, bandidos, de dentro e fora da cadeia, discutem um assassinato.

Guerra expulsa família da Vila Kennedy : ‘Nossa casa fica na linha de fogo. Não aguentamos mais’
Ontem, terceiro dia de batalhas pelo território, dominado pelo Comando Vermelho e invadido no domingo pelo Terceiro Comando Puro, moradores da região voltaram a viver momentos de pânico. Por causa dos tiroteios, três postos de saúde não abriram as portas, três linhas de ônibus deixaram de circular pela região e mais 8 mil alunos ficaram sem aulas.
A escuta telefônica, feita com autorização da Justiça, flagrou a conversa entre o chefe do tráfico da Vila Cruzeiro, Fabiano Atanásio da Silva, o FB, e uma ‘comissão’ de presos de Bangu 3. O primeiro cobra explicações de um dos detentos, Carlos Henrique dos Santos Gravini, o Rato da Cidade Alta. Preso desde fevereiro de 2008, ele teria dado a ordem para matar um comparsa de FB, identificado como Dentinho.
As conversas mostram que, além da farra de rádios dentro das cadeias, os traficantes usam outro artifício para dar e receber recados: os advogados. Revoltado com Rato, que teria dado a ordem a dois bandidos da Cidade Alta, FB pede providências à ‘comissão’ e, após perder a paciência, resolve percorrer outro caminho para resolver o caso.
O chefão da Vila Cruzeiro liga para um advogado de Rato e avisa que vai enviar mensagem, através de outro advogado, identificado como ‘Doutor F.’, para que a situação seja resolvida pela cúpula da facção, que está no presídio de segurança máxima em Catanduvas, no Paraná. “O doutor F. tá vindo aqui, vou mandar um toque pro mano lá no Paraná. Esse moleque aí já tá demais, esse tal de Rato”, berra FB.
A polícia investiga se o recado chegou a Catanduvas, onde estão Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP; e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, chefões do tráfico nos complexos do Alemão e da Penha. O fato é que Rato, desde o dia 13, pediu para sair do convívio com detentos na galeria B e está numa cela para presos ameaçados, em outra galeria de Bangu 3.
Enquanto traficantes conversam pelo rádio, a guerra na Vila Kennedy faz exilados entre moradores: família alugou um caminhão de mudança e saiu às pressas, deixando sua casa vazia. “Nossa casa fica na linha de fogo. Não aguentamos mais”, desabafou uma dona de casa, mãe de um menino de 10 anos e outro de 3.
TRÊS TRECHOS DAS CONVERSAS
FB: (Dentinho)foi visitar a família e um tal de Robinho passou fogo no moleque. Passou fogo no amigo, tá me entendendo? E falou que ia queimar o corpo.
Rato: (inaudível) me roubou...
FB: Aí, na moral... você é maior otário, não vou desenrolar nada contigo. Meu papo é esse. E vou dar meu jeito. Valeu, mano? Tu tá certo, né?! Demorô...
FB: Vocês (comissão) ‘tão ligado’ no bagulho que aconteceu. Ele (Rato)falando que o moleque derramou (roubou) lá. Tá justificando a morte do moleque...Vou dar meu jeito. Vou desenrolar com os ‘mano’...
FB: O moleque aqui responsável com nós aqui foi pra lá e mataram o moleque, o Dentinho.
Advogado: Que isso?
FB: É. O Doutor F. tá vindo aqui, vou mandar um toque pro mano, lá no Paraná. Esse moleque aí tá demais, esse tal de Rato.
Moradores acuados pelo confronto
“Homens vestidos de preto, com fuzis e pistolas, em posição de combate. Pensamos que era a polícia, mas depois gritaram que eram eles que mandavam agora e começaram a invadir casas e a agredir os moradores. Tivemos que ficar escondidos dentro do banheiro”.
O relato é de uma moradora da Vila Kennedy, descrevendo o novo ataque de bandidos do Terceiro Comando Puro, por volta de 2h20. O confronto durou até 5h30, quando moradores se preparavam para sair para trabalhar. “Só estou saindo de casa porque tenho uma consulta marcada há quatro meses e não podia perder a vez”, contou idosa.
Sem ônibus, saúde e aulas
Quando amanheceu, cerca de 100 policiais de seis batalhões reforçaram o efetivo na Vila Kennedy e também realizaram incursões no Complexo da Coreia, Vila Aliança e favelas do Rebu e da Metral — locais de onde saíram os invasores. Só com a chegada a PM, ônibus das linhas 394 (Bangu-Tiradentes), 398 (Campo Grande-Tiradentes) e 811 (Vila Kennedy-Bangu), que pararam de circular do fim da madrugada, voltaram a rodar.
O funcionamento de 16 escolas e creches da região foi afetado — cinco nem abriram —, prejudicando 8.737 alunos. Dois postos de saúde na Vila Kennedy e um na Vila Aliança ficaram fechados. “Tive que voltar com minhas três filhas. A diretora disse que os professores faltaram por causa do tiroteio”, contou um pai.
Reportagem de Bartolomeu Brito, Hélvio Lessa e Leslie Leitão
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