Sérgio Cabral defende Beltrame
Depois de dizer que o Rio não é um violento, José Mariano Beltrame se retrata com moradores da cidade, através de nota
Rio - Um dia depois de dizer que “o Rio não é violento”, o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, por meio de nota enviada ontem pela sua assessoria de imprensa, pediu desculpas aos cariocas. “O secretário lamenta que, no ardor do debate, tenha dito que o ‘Rio não é violento’ De qualquer forma, o secretário aproveita a ocasião para se retratar com os moradores do Rio de Janeiro”, diz a nota. A declaração foi dada quinta-feira em audiência pública da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, em Brasília.

Beltrame alegou que defendeu o Rio de críticas exageradas ao afirmar que cidade não é violenta
A frase criou polêmica e revoltou cariocas, mas o governador Sérgio Cabral defendeu ontem seu secretário. “Beltrame, sem dúvida, tem o apoio da população do Rio e tem autonomia para administrar a Secretaria de Segurança Pública. Os resultados estão vindo, mas eles só virão em médio e longo prazo", afirmou Cabral.
A nota diz ainda que as declarações de Beltrame foram para defender o estado de críticas exageradas, mas o texto não menciona que críticas foram feitas. “Como gestor público e responsável pela política de segurança do estado, o secretário se vê no direito de defender o Rio de Janeiro de críticas exageradas”.
Segundo a nota, apesar dos problemas do estado, as soluções estão ao alcance da Secretaria de Segurança e que a realidade é melhor do que os críticos costumam apresentar.
Presidente do movimento Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, elogiou a atitude de Beltrame em se retratar. “O que ele fez é o que se espera de um homem público quando erra: ter humildade. Ponto para ele”, afirmou Costa.
Para Sandra Cavalcante, presidente da ONG Justiça Global, o secretário não deve apenas pedir desculpas pela declaração dada, mas apresentar proposta para a segurança pública. “Esse tipo de declaração mostra o que os governantes pensam da segurança pública do estado. A polícia é responsável por 20% dos homicídios no Rio. Não é com mais operações que vamos mudar essa realidade”, avalia Sandra.
‘Áreas distantes dos conflitos são vítimas do contexto’
Segundo a nota divulgada pela secretaria ontem, José Mariano Beltrame dizia à comissão da Câmara dos Deputados que “não fosse a presença do narcotráfico armado com arsenal de guerra nos morros cariocas, a situação do Rio seria comparável com a maioria das metrópoles do país e do mundo”. Em seguida, a nota admite que “mesmo as pessoas que moram nestas áreas distantes dos conflitos também são vítimas do contexto por conta do trauma que tais eventos provocam”.
A disparidade dos números da violência na cidade do Rio de Janeiro, de fato, impressiona. Foram registrados 25 assassinatos numa área de oito bairros da Zona Sul (do Leme a São Conrado), entre janeiro e setembro de 2009. Mas somente em março e abril ocorreram 66 homicídios em Campo Grande. Somando com Bangu, em nove meses houve 298 execuções.
Em grande área da Zona Norte, englobando Penha, Vila da Penha, Vicente de Carvalho, Irajá, Colégio, Cordovil, Brás de Pina, por exemplo, foram 192 assassinatos. Ali foram registrados o maior número de assaltos, com 12.894.
Essas áreas mais violentas são locais que o secretário classificou como ‘núcleos de violência’, onde a segurança é bem menor. Em Campo Grande, há um policial militar para cada 1.473 habitantes. No ‘núcleo europeu’ da cidade, a área de Leblon, Gávea, São Conrado, Ipanema, Lagoa e Jardim Botânico, por exemplo, existe um PM para cada 297 moradores. Ainda assim, foram registrados 6.115 assaltos na região.
Reportagem de Leslie Leitão e Maria Inês Magalhães
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