Jaime Cezário analisa o resultado do Carnaval 2009
O Tambor do Salgueiro bateu mais forte
(Jaime Cezário)
Colunista do Dia na Folia
Escrevo só agora, um mês depois do carnaval, sobre o resultado do desfile das escolas de samba. Fiz isso de propósito, porque queria escrever com uma certa distância dos comentários passionais. Controladas as emoções, agora é hora de analisarmos com frieza aquilo que foi mostrado nesse espetáculo que encanta o planeta. Este ano, em minha opinião, aconteceu um resultado dos mais equilibrados e já, inclusive, esperado por todos nós apaixonado pelas escolas de samba do grupo especial.
Claro que apuração que se preste terá sempre o choro daqueles que tiram as piores notas e são penalizados com os últimos lugares; isso já faz parte do folclore do carnaval, mas acredito que é hora de os dirigentes das escolas de samba que querem brigar pelos 6 primeiro lugares começarem a pensar de maneira lógica e objetivar isso com um projeto sério e competitivo para 2010.
Claro que todos sonham com enredos patrocinados, com milhões para gastar, mas para isso acontecer precisa ser feito um belo planejamento estratégico, com um mínimo de dois anos de duração. Nada chega fácil.. Parem de querer, dirigentes, que os carnavalescos tragam cheques de milhões para assumir o comando de sua escola. Nunca se esqueçam de que carnavalesco cuida da arte e marketing cuida de patrocínios, e se for escolhido um artista errado para comandar a escola, o choro será inevitável ao final da apuração. Pensem seriamente nisso!
A avenida se coloriu de vermelho e branco este ano, uma previsão absolutamente esperada, pois como eu mesmo escrevi aqui, o Renato Lage começou a entender a personalidade “afro” do Salgueiro, visto que ele soube aliar de uma maneira bela e clara todo seu estilo high tech com aquilo que faz o Salgueiro campeão: a negritude. Eu ouvi uma entrevista do carnavalesco, seu comentário que este enredo não era afro. Bom, “O Tambor”, por aquilo que vimos na avenida, tinha muito de afro, com certeza; mas eleinseriu elementos tão característicos do seu gosto futurista, como exemplo o abre-alas, com a tradicional intrépida trupe fazendo malabarismo no seu carro. Beleza e bom gosto foram visto de início ao fim deste desfile, leitura clara, entendimento fácil, um samba que ajudou a escola a interagir com o público.
O segundo lugar coube a Beija-Flor de Nilópolis, que também podemos assumidamente dizer que foi justíssimo. A escola nilopolitana trouxe um belo enredo desenvolvido com maestria pelo carnavalesco Alexandre Louzada e sua comissão de carnaval. Não me canso em dizer que a chegada de Alexandre à escola de Nilópolis, trouxe o requinte e a sabedoria que a escola de que a escola precisava.
Ela desfilou soberana com seu enredo sobre o banho. Seu desfile conseguiu lembrar um certo “ar” daqueles tempos dos finais dos anos 70. Somou luxo com irreverência, ficamos em êxtase com o requinte do maravilhoso abre-alas que nos remetia ao Egito dos faraós, assim como a irreverência da transformista Kaika Sabatela.
O terceiro lugar para mim foi a grande surpresa deste carnaval, a Águia de Madureira com seu enredo sobre amor fez aquilo que, na minha opinião, não seria possível, conquistar um terceiro lugar, em observação a tudo aquilo que foi visto nos dois dias de desfiles do grupo especial. O enredo “Por falar de amor, onde anda você?” tentou buscar um caminho diferenciado, que segundo uma conversa com um dos seus carnavalescos, Lane Santana, tentou sair do lugar-comum.Acredito que saiu um pouquinho demais, pois elementos óbvios que nos remetem ao amor não foram visto no enredo, mas conseguimos ver as baianas de Rio Ganges que é um dos rios sagrados da Índia simplesmente porque os profetas meditam e depositam esperança em tempo de paz.
Não vimos corações, cupidos, deusas mitológicas do amor, os grandes romances de amor da história universal como exemplo de Romeu e Julieta, mas vimos a abertura inteira dedicada ao romance feitiço de Áquila que se celebrizou em filme.Enfim, como enredo num todo tinha sua fragilidade; mas vocês vão perguntar por que a Portela estar nessa posição? A Portela foi o maior show nos quesitos técnicos visto numa escola do grupo especial esse ano. Onde quase todas erraram, a escola acertou dando um banho de evolução, harmonia e conjunto. Sendo por isso então, merecedora e capacitada a este glorioso terceiro lugar!
O quarto lugar ficou com a escola do bairro de Noel Rosa, a Vila Isabel. Podemos dizer que o casamento entre Paulo Barros e Alex de Souza deu certo, pois o Paulo e o Alex não tinham conquistado no ano anterior o direito de voltar ao sábado das campeãs em suas respectivas escolas. A Vila somou o luxo e o requinte característico do estilo do Alex de Souza aos carros coreografados característico do Paulo Barros. Vimos um conjunto harmonioso de belas fantasias e alegorias com muita movimentação de entra-e-sai nos carros, com destaque para a alegoria que retrava a opera Aída, onde Paulo repetiu aquilo que ele usou no seu primeiro ano na Viradouro no seu último carro: grupos de figurantes entravam por trás da alegoria e saiam pela frente numa grande troca e movimento.
O detalhe para esse ano foi o bom gosto e requinte das fantasias que complementavam muito bem todo conjunto. O destaque que saliento dessa união é que o Paulo trouxe ao Alex justamente aquilo que ele pecava em anos anteriores, carros com movimentação e grande quantidade de pessoas. Acredito que o saldo foi bem positivo. Destaque para a fibra da comunidade de Vila Isabel, que este ano queimou a avenida de energia cantando com vigor e amor o seu samba, que não era um dos mais cotados nesse desfile. No todo, a Vila Isabel teve uma colocação de acordo com o que foi apresentado.
A quinta colocada foi a riquíssima Grande Rio, que trouxe seu enredo em homenagem à França. Um belo desfile foi visto, rico como se esperava, apenas ao termino da escola ficou aquele gostinho de que com um enredo tão rico de possibilidades se poderia ter explorado um pouquinho mais. Não sei se estava esperando que, agora com todo dinheiro e apoio, o carnavalesco Cahe Rodrigues, resolvesse nos enlouquecer de paixão com que seria apresentado. Expectativa demais?
Não sei, afinal isso foi criado pelo belo desfile feito na Portela no ano anterior, com todas as dificuldades enfrentadas pelo artista para realizá-lo. Bom, só esperamos demais daqueles que podem oferecer, então, acredito que o Cahe vai ficar nos devendo para o próximo carnaval. Temos que salientar que se não fosse a queda de um dos elementos do carro abre alas, justamente enquanto passava em frenteà cabine do jurados, que fez a escola perder preciosos pontos, ela estaria na terceira colocação. Não podemos deixar de registrar este fato!
A sexta colocada foi a escola da superação, a Estação Primeira de Mangueira, que conseguiu aquilo que a maioria duvidava uma semana antes do carnaval: terminar o projeto carnavalesco e fazer valer a mítica do manto verde-rosa. Esse problema fez a Mangueira se unir em prol de um objetivo comum, mostrar que a escola de samba fundada por Cartola, Saturnino Gonçalves e outros bambas, precisa ser respeitada sempre. Quando a verde rosa pisou na Sapucaí com aquele que era considerado o melhor samba do ano, foi algo de arrepiar.
Com um enredo em homenagem a Darci Ribeiro, baseado no seu livro “O povo brasileiro”, a Mangueira sacudiu a passarela. Uma energia mágica do tipo que somente quem está presente ao local pode observar, a verde rosa meio que nos mergulhou num transe, que fez a todos esquecer do mau acabamento dos carros e outras coisas que não tinham uma boa solução, mas que no conjunto acabou funcionando. Chega ser difícil explicar algo que somente a magia do carnaval consegue nos fazer entender. Se analisarmos friamente, veremos falhas e defeitos, sem sombra de dúvidas, mas que num momento meio que mágico faz tudo se transformar em beleza e magia.A Mangueira conseguiu ser maior que tudo e todos, emocionou e transformou a preocupação daqueles dias que antecederam ao desfile em garra e determinação para conquistar esta sexta colocação.
A sétima colocação ficou para a Imperatriz leopoldinense que fez seu enredo em homenagem ao bairro de Ramos e aoseu cinqüentenário. O desfile feito pela Imperatriz foi tecnicamente perfeito, mas este ano não emocionou como o enredo anterior. Desenvolvido com competência por sua carnavalesca Rosa Magalhães, a escola fez num todo um excelente desfile, apenas observando dois pequenos problemas, que foi a quebra da cúpula que vinha no segundo carro alegórico que representava os casarões do bairro de Ramos e uma questão estética no carro alegórico que representava o enredo “Liberdade, Liberdade!”.
A Viradouro conquistou a oitava posição com um enredo que foi bem panfletário com relação ao bio-combustível. O carnavalesco Milton Cunha não fugiu do início ao fim do desfile na associação dos orixás do candomblé com tema central do enredo que era divulgar a importância dessa nova fonte de energia. E isso foi visto com clareza no desfile. Um carnaval de propaganda é sempre um “pepino” que se coloca na mão do carnavalesco, ninguém vai à Sapucaí para querer saber de bio-combustível, isso é a grande verdade.
Na realidade queremos é esquecer todos os nossos problemas do dia a dia e mergulhar na grande ilusão do carnaval. Nesse desfile temos o destaque para a quinta alegoria que representava “Deuses em Kioto” que se Stanislaw Ponte Preta tivesse vivo, escreveria que estava ali representada uma alegoria do carnavalesco doido, vale o registro. O oitavo lugar da escola pode, com certeza, ser considerado um grande prêmio.
A nona colocação foi ocupada pela Unidos da Tijuca, que fez uma homenagem ao espaço. O desfile teve muitos problemas técnicos que acabou atrapalhando o bom desfile da escola. O seu carnavalesco Luis Carlos Bruno seguiu a linha de sucesso obtido nos últimos anos e trouxe mais um enredo conceitual com muitas alegorias coreografadas, que hoje faz parte da característica da escola. A mensagem foi bem mandada, mas os problemas com entradas dos carros, aberturas de buracos e aceleração no seu desfile acabaram prejudicando o trabalho num todo. Que acabou levando a escola a esta colocação.
O Porto da Pedra foi a décima colocada no desfile do grupo especial apresentado um belo trabalho plástico desenvolvido por seu carnavalesco Max Lopes. O trabalho apresentado em fantasias e alegorias neste enredo sobre a “curiosidade”, foi sem sombra de dúvidas, o melhor dos últimos anos na escola. Ricas alegorias e belas fantasia bem ao estilo do carnavalesco , trouxeram inicialmente a esperança da comunidade de São Gonçalo numa colocação melhor, mas devido ao número grande de tripés e carros acoplados fizeram a equipe de harmonia se atrapalhar do inicio ao fim do desfile.
Ocasionando a cada entrada de alegoria na avenida um stress enorme para toda escola, pois os acoplamentos eram difíceis , assim como, a montagem dos destaques e composições nas alegorias etamanhos dos carros. Essa foi à tônica do desfile da escola, que fez o belo trabalho plástico ir por água abaixo.Com o término do desfile muita gente esperava o pior, e a décima colocação acabou sendo um prêmio para este atrapalhado desfile.
A Mocidade Independente de Padre Miguel foi a décima-primeira colocada, uma colocação comemorada por muitos, pois ao término dos desfiles do grupo especialela foi apontada como a maior candidata para descer ao grupo A. O que foi visto no desfile foi aquilo que muitos já esperavam, uma estética de gosto duvidoso, que somadaà dificuldade do enredo que fazia uma homenagem ao Machado de Assis e Guimarães Rosa e à inexperiência do carnavalesco Cláudio Cebola em desfiles do grupo especial do Rio de Janeiro gerou um carnaval que nem de longe lembra a fase majestosa e soberana da Mocidade.
A última colocada do grupo especial foi a Império Serrano que trouxe uma reedição com o enredo “A lenda das sereias e os mistérios do mar”, desenvolvida pela carnavalesca Márcia Lage. O carnaval apresentado pela tradicional escola de Madureira e Vaz Lobo foi bonito, tinha um belo equilíbrio de cores em suas fantasias, dando um ar de elegância e refinamento ao conjunto. A escola trouxe modestas alegorias, que, sinceramente, se desfilasse no acesso A, não sei se ganharia. O trabalho foi apresentado com muita coerência e dignidade. Nós, amantes do carnaval, sabemos da importância do Império Serrano e temos o grande desejo de vê-lo novamente brigando por título para felicidade de sua imensa torcida.
O balanço positivo deste carnaval é que em 2010 teremos novamente a União da Ilha no grupo especial! A escola da Ilha do Governador, depois de longo e tenebroso inverno no grupo A, conseguiu o direito de voltar. Fico feliz, pois o grupo especial anda precisando da alegria da Ilha do Governador. Peço que os deuses do carnaval iluminem a cabeça da sua diretoria e deixem a Ilha ser novamente a Ilha no carnaval, trazendo sua energia contagiante com seus enredos alegres e necessários para todos nós, foliões apaixonados pelo carnaval!
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