Jaime Cezário: 'Cadê o patrocínio?'
Jaime Cezário
(Colunista do Dia na Folia)
O carnaval carioca e brasileiro está neste momento passando pela fase embrionária. É o período em que se especula sobre os enredos para o carnaval de 2010. Quem cuida do carnaval nas principais escolas está estudando possibilidades de enredos que permitam este reforço orçamentário na construção do carnaval.
Mas o que a maioria de nós, amantes do carnaval, pergunta é por que, entra ano e sai ano, a história vive a repetir-se. São anunciados enredos com enorme apelo de patrocínio, muitas vezes não muito interessantes e no final nenhuma verba é captada ou então, com alguma sorte, entram uns 10% do valor anunciado. Na realidade, a maioria das escolas de samba ainda não despertou para uma situação básica nesta caça ao patrocinador: o tempo que o patrocinador precisa para analisar o projeto proposto é bem maior do que o tempo que as escolas de samba podem dispor. Em outras palavras: as escolas de samba deixam para pensar e procurar possíveis patrocinadores somente após a passagem do carnaval, e isso entra em conflito com a maioria das empresas, pois o tempo fica diminuto para a analise e o parecer delas.
As empresas funcionam de forma diferente e em tempos muito diferentes. Precisam de análise criteriosa e muitas vezes demorada, pois a proposta passará por vários departamentos até chegar à situação de afirmar seu interesse em patrocinar e, com isso, encaminhá-la para ser incluído no seu orçamento de verbas. O tempo médio é de 8 a 12 meses para ter uma resposta positiva e afirmativa do patrocinador. Quer dizer: se em abril a escola iniciar os primeiros contatos com o departamento de marketing do patrocinador e preparar um projeto para encaminhá-lo para análise, ter-se-á uma resposta provavelmente em dezembro ou janeiro.
Portanto, um projeto de patrocínio que tem sua entrada nos meses de abril ou maio de 2009 só terá liberação provável das primeiras parcelas da verba em julho ou agosto de 2010. No carnaval de 2009, podemos observar que apenas a Grande Rio contou com patrocínio para o seu enredo, que falou sobre a França: R$ 2,2 milhões dados por empresas francesas e pela cidade de Nice.
Outras duas escolas contavam com patrocínios, que não vieram. Com a promessa de intermediação do governo da Bahia -tema da escola-, a Viradouro esperava o apoio de empresas instaladas no Estado, inclusive da Petrobrás Bio-combustível. Mas, usando a crise como justificativa, nenhuma companhia fechou contrato. A Beija-Flor negociou o apoio da Unilever para seu enredo sobre a história do banho, mas as conversas também não evoluíram.
Uma possibilidade real de patrocínio, neste momento, refere-se à cidade de Brasília, que comemora em 2010 seu cinqüentenário. Nesse caso, como ocorreu na cidade do Rio de Janeiro em 2008 pelos 200 anos da chegada da Família Real, uma verba já está disponível, pois foi aprovada no orçamento com antecedência necessária para ser gasta nos eventos que fazem parte da festa de comemoração. Com isso, a comissão de organização da festa poderá aprovar de forma mais rápida o melhor projeto de carnaval ou o melhor orçamento fornecido. Podemos observar, que fora isso, a maioria das escolas de samba que fez homenagens a cidades ou estados, sem que a verba estivesse garantido com antecedência, está esperando até hoje o patrocínio.
Em 2001, houve uma exceção, que foi na homenagem ao Estado de Goiás pela Caprichosos de Pilares no Grupo Especial. O carnavalesco da escola naquele ano era este escriba. Pude acompanhar de perto todos os trâmites e dificuldades para conseguir a verba. O governador Marconi Pirillo pediu a uma série de empresas do Estado que colaborassem no projeto de carnaval da Caprichosos de Pilares, investindo a verba através de doação.
Importante salientar que não teve dinheiro algum do Governo investido no carnaval da escola, ele simplesmente fez o papel de avalista e captador do projeto junto às empresas. Dessa forma, conseguiu totalizar a quantia necessária. Mas, mesmo com o apoio do governo, essa verba só chegou às mãos da escola de samba no início de dezembro de 2000, faltando três meses para o carnaval . O patrocínio do carnaval de 2001 foi o primeiro oficializado por um Estado a uma escola de samba. Tive o prazer de acompanhar, desenvolver o projeto e estar presente no dia da entrega do cheque ao presidente da escola de samba. Por isso , poder falar com propriedade no assunto.
O patrocínio é uma necessidade das escolas de samba; mas, pela falta de estruturação de um calendário que se harmonize com os tempos necessários para os tramites de aprovação do projeto, muitas escolas fracassam. Para obter sucesso com os patrocinadores, as escolas de samba, por intermédio de seus departamentos de marketing, precisam começar a semear projetos e mais projetos de carnaval com apresentação objetiva, clara e profissional em diversas empresas, estados e cidades e saber esperar o tempo necessário para colher os frutos desejados.
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