Memória da Folia: Sambas que não morrem II
Colunista: Luis Carlos Magalhães continua série especial sobre samba-enredo
Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)
É bastante sintomático que dos acréscimos feitos à minha lista muito poucos se referiam a sambas deste século ou mesmo da quadra final do século anterior. Alguns foram omitidos por falha minha, outros porque só a partir da indicação dos leitores pude a eles dar a atenção merecida.
O passo seguinte de meu levantamento foi elencar ano a ano, a partir da década 1980, aqueles sambas que estariam contribuindo para aquilo que estamos chamando de “boa safra”.
Até aqui, considerando minha avaliação, a melhor safra estava com o ano de 1969. Naquele ano não seria exagero dizer que todos os sambas contribuíram para tanto.
Enfim chega a década dos anos 1980. Se formos rigorosos vamos destacar “Sonho de Um Sonho” da Vila e “O quê que a Bahia tem”, “Bom, Bonito e Barato”, da Ilha e “Delmiro Gouveia”, da Tijuca no acesso. Nada mau para o que estava por vir.
Em 1981 “O Teu Cabelo Não Nega” levaria a Imperatriz ao título, e muito justo por sinal. A Tijuca trouxe o instigante “Macobeba” e a Ilha me deu de presente “1910-Burro na Cabeça” que considero uma pérola.
1982 foi marcado para sempre com “Bum, Bum, baticumbum...” e ainda teve “Lima Barreto” e o samba do Ratinho que levou a Caprichosos para as luzes da Sapucaí: Moça Bonita Não Paga, uma beleza.
Para o meu gosto, a distante Unidos da Ponte salvou o carnaval de 1983 com “E Eles verão a Deus”. Na estréia no Sambódromo, em 1984 além da Mangueira e da Portela, trazendo Paulo, Natal, Clara e Braguinha, ouvimos também “Quem é Você” e “P’ra Tudo se Acabar na Quarta-Feira”, do Estácio e da Vila.
De lá para cá a fonte foi secando. Um, poucas vezes dois, no máximo três bons sambas.
A década de 1990 foi de lascar.
Começou bem com Chuê, Chuê, da Mocidade, o Salgueiro ‘se amassando’ na Rua do Ouvidor, a bela homenagem da Viradouro à Dercy, a não menos bela homenagem da Ilha ao Didi, de Bar em Bar, e a outra homenagem da Portela a si mesma: Tributo à vaidade. No mais um ou outro samba espalhados pelos anos que se seguiram. Vale a pena destacar: “Muito Prazer eu sou a Vila”, “O Jegue” de Ramos, “Gosto que me Enrosco” da Portela e “O Dono da Terra” da Tijuca.
Na verdade, de lascar mesmo foram as safras da virada do século.
Surgem de todo canto temas no mínimo esquisitos, muitas vezes até acarnavalescos. Enredos comercializados por algum, nenhum, ou muito dinheiro, ou homenageando personagens vivos, o quê, cá para nós, transformam os sambas em algo no mínimo desinteressantes. Tempos dos enredos,digamos, geográficos, abordando cidades, estados e regiões e enredos , digamos, mineralizados abordando as mais diversas jazidas do nosso subsolo.
Foi assim com Araxá, Beija-Flor; Salgueiro, 400 anos de Natal, a cidade, não o sambista.. Portela, “Pelos Caminhos de Minas”. Caprichosos homenageou Pitangui. Vila Isabel preferiu João Pessoa, a cidade, não o político. A tradição cantou as glórias de Jacarepaguá, a Santa Cruz cantou a vida de “Abrahão Medina, Em Noite de Gala”, seguida pelo Império da Tijuca que cantou o Molejão. Vocês podem até duvidar, mas o Engenho da Rainha desceu com “De Cabral a Zito - Salve Caxias”. Só mais uma, juro: “Vizinha Faladeira é Paulínea na Sapucaí”.
O ano 2000 já chegou com a Caprichosos trazendo o Espírito Santo, enquanto a São Clemente trazia Sergipe. A Inocentes trouxe Petrópolis. Parei de procurar quando o Império da Tijuca, para cantar a produção de tomates de sua homenageada, mandou forte: “O Ouro Vermelho de Paty do Alferes”, achei que ‘tava bom’ para este ano, que era melhor ficar por aqui.
Pelo menos para mim 2001 passou em brancas nuvens, ao contrário que 2002 que marcava o centenário de Paulo da Portela. Pela primeira vez não lamentei que Paulo tivesse morrido. Homenagem mesmo somente o bloco MIS a MIS, de Marília Barbosa, e da Unidos de Lucas. Fora isto um festival de enredos desinteressantes com seus correspondentes sambas igualmente desinteressantes.
Beija Flor veio com a aviação: “De Ícaro a Ruben Berta”, terá sido um enredo patrocinado? Imperatriz trouxe o enredo custeado pela Prefeitura de Campos, certamente o mais polêmico de todos. Império fez homenagem a Ariano Suassuna, vivíssimo aí, felizmente. Caprichosos, para variar, escolheu Porto Alegre. Tradição resolveu mostrar os “Encantos da Costa do Sol” enquanto a São Clemente nos mostrou o paraíso ecológico de Guapimirim.
Seria muito bom, acho até que Paulo compreenderia, se tivesse ficado por aí. Doce ilusão. A Vila homenageou o grande Nilton Santos enquanto a Estácio nos brindava, com todo o respeito, cantando os 50 anos do jornal O DIA. Renascer rebateu com “500 anos de Angra”, a Vila Kennedy arrematou com na presença de Zezé Mota enquanto Delírio da Zona Oeste deu ponto final cantando que “A Seropédica Legal é o delírio neste carnaval”. E não era nenhuma homenagem a Nei Lopes.
No mais, somente um susto a mais.Foi quando vi o enredo da Alegria da Zona Sul: “O Sonho Dourado de Percy”. Mas foi só o susto. O Percy deste ano não era o Percy da Mangueira,era o outro que buscava o Eldorado, até porque o presidente da verde-rosa ainda era o Alvinho.
Mas carnaval chato p’ra caramba foi 2003. Por que terá sido tão assim? Além de enredos sem-sabor, tivemos a Grande Rio trazendo “O Nosso Brasil que VALE”. O dinheiro da Vale do Rio Doce certamente chegou, mas nem Joãozinho Trinta deu jeito. E olha que a Tradição veio com R é 9- O fenômeno Iluminado: 0 x 0, ou melhor 13° lugar.
E quem esperava melhor sorte no acesso teve que se contentar com Mangaratiba, da São Clemente. Com Cachoeiras de Macacu, da Estácio. Ao invés de ecos da folia voltou para casa se lembrando de “Cândido Mendes, Um Século de Paixão na História da Educação”. Pode até ter rimado, mas poderia ter rimado com caixão.
A Cubango só não foi parar na “poeira” porque o Boi da Ilha trouxe, uma vez mais, as Glórias de Cabo Frio, em seus 500 anos enquanto a Unidos da Ponte superou todas as expectativas com a pérola maior, símbolo destes tristes carnavais: “De Grahan Bell à Sérgio Motta-Um salto para a modernidade”.
Como vemos foi um carnaval de doer. Sorte melhor deve ter tido quem se mandou para a Intendente Magalhães. Ou será que o mau gosto, a miséria da imaginação, a escassez da alegria do carnaval também passou por lá? Vamos ver?
Até Lucas nos abandonava. A grande Lucas trouxe para a passarela nada mais, nada menos que “Bernard do Vôlei, uma jornada de sucesso”. E tirou em primeiro, imaginem os outros. A Difícil é o Nome veio com “Stepan Nercesian- de Cristalina para o sucesso”. Acadêmicos da Abolição mostrou para o público seu “Guaiá,Guapi, guarim,Guapimirim-A Nascente do Amor e a Mocidade de Santa Rita homenageou Carlinhos de Jesus deixando as belezas de São Gonçalo para a Flor da Mina do Andaraí.
E assim foi, e é assim até nossos dias. Pobres carnavais. Pobres ...? Quem saberá? Tão difícil quanto saber se certos enredos não tão explícitos são ou não patrocinados, saber se uma homenagem pessoal conta ou não com uma ajuda$inha, é saber se o retorno financeiro esperado “chega mesmo”. Há quem diga que o maior patrocinador de escolas de samba cariocas é uma empresa chamada kinonvem S.A.
Será que foram patrocinados, ou foram “efetivados” os patrocínios de enredos como Manõa, de Nilópolis, Estrada Real, da Mangueira, A Cana Que se Planta, do Salgueiro. E o incrível “Não Corra, Não Mate, Não Morra”, do DETRAN, DETRAN, não, Mocidade. E A Vila É Para Ti..., Cubango é Shopping, Estácio é Dez, Brasil é Mil e a Fome é Zero. E a Estácio, quanto recebeu, de verdade”? Mil ou zero? E o resultado, a relação custo benefício, a relação maluquice do enredo com a beleza do carnaval e o resultado ? Difícil dizer... fácil é dizer o resultado: 8° lugar no grupo de acesso.
Tudo isto aí no mesmo ano de 2004 que ainda teve várias homenagens pessoais a pessoas vivas.
Os anos seguintes foram de carnavais com muito brilho e muita beleza plástica. Mulheres belíssimas, alegorias fantásticas e belas fantasias. E daí? O quê vimos de interessante, de criativo, de emoção. Quem se lembra de algum samba? Mesmo com poucos enredos, digamos, esquisitos, patrocinados ou homenageados.
O Pináculo da Ilha, de 2005, o mico do 222 - Gilberto Gil da Vizinha Faladeira e, mais um, enredo sobre Itaguaí, da Mocidade de Vicente de Carvalho.
Em 2006, imagino, o primeiro patrocínio internacional: “Soy Loco Por Ti”, a Vila campeã. A Vila campeã sempre me deixa muito feliz. Por outro lado. Um desfile que incluo entre muitos que jamais veria novamente em vídeo, não me diz nada. A Grande Rio logo atrás com Amazonas. Patrocinado? A Caprichosos mais uma vez veio de Espírito Santo. Unidos do Cabral desceu com “Benedita da Silva - Uma História de Vida”.
A Beija-flor, com Poços de Caldas, fez um desfile que marca para mim um momento bastante significativo desses carnavais. Um desfile riquíssimo, belíssimo, tudo bem, tudo certo, mas que não me diz absolutamente nada.
Da mesma forma a Grande Rio de 2007. cantou Caxias, bem patrocinada, bem apresentada, bem desenvolvida mas...; A Imperatriz veio de Bacalhau em cima. Estava bonita? Estava...Tudo certo? Estava... mas ...; A Portela com aquela história de olimpíada, de pan...sei lá. Viabilizou seu carnaval? Sim...Estava bonita? Estava...mas ....
A Caprichosos veio falando de gáz, a Cubango de Paracambi e a Difícil é o Nome inacreditavelmente mais uma vez de Rio das Ostras. Mais difícil que o nome é acreditar em tantas vezes que cidades são homenageadas. Haja royalties...
E aí chegamos no carnaval passado. Beija-Flor veio de Macapá, ou melhor, Macababa, de dificílima leitura e de belo patrocínio. Carnaval vitorioso. Belo carnaval? A Grande Rio carnavalizou o gás de Coari, mais conhecido como “o Pum” pela garotada do Espaço Aberto. Uma beleza de luzes e cores. Um samba e um enredo incompreensíveis para as mentes medianas. Mangueira patrocinada pelo Frevo de Recife, nada de errado, super carnavalizado, no ano do centenário do Mestre. E aí vem a Santa Cruz com Itaguaí e Pilares com Itaboraí. Ou terá sido o contrário?
Que carnaval bonito, que carnaval igual. Que alegorias fantásticas, como custou a acabar... Fantasias belíssimas...quanta semelhança.
Ficou a impressão de que o carnaval poderia ter tido só cinco ou seis escolas. Estaria de bom tamanho.
Agora neste ano, pela crise ou não, vimos raríssimos patrocínios, menos ainda temas “geográficos” ou “mineralizados”. Um carnaval cheio de dúvidas de julgamento mas bonito e bom de ser visto em pelo menos cinco escolas. Um ou dois sambas... até três quilometricamente distantes daqueles dos anos anteriores, ainda que anos-luz distantes dos sambas que não morrem.
Sambas compostos – ou montados? – a partir de sinopses labirintizadas em cima de enredos, no mínimo, pouco favoráveis ao bom gosto lítero-musical.
Dá para ficar criticando compositores? Fico pensando, por exemplo, no grande Hélio turco, que está por aí acesíssimo. Criticou muito o samba da Mangueira que acabou sendo um dos poucos escapados do incêndio. Hélio Turco que bem representa uma era dourada de sambas da Mangueira que tantos momentos de encanto me trouxeram naquela quadra. Como se sairia com tais sinopses, com tais enredos. Que diria o grande Turco sobre O Esplendor e a Glória de São José Nepomuceno, sobre a Alta Octanagem da Libido da Princesinha do Atlântico, sobre O Doce Odor das Jazidas de Urânio de Paracatuba do Sul.
Mas será que é só isto? Claro que não...
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Fontes:
O Dia e Veja
www.galeriadosamba.com.br
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Sugestão para ouvir agora:
Samba: Gosto Que Me Enrosco
(um samba simples, bonito, carnavalesco e alto astral)
Autores: Noca, Colombo e Gelson
Cantor: Rixxa e Carlinhos de pilares
Disco: Portela
Direção artística: Zacarias S. de oliveira
Gravadora Escola de Samba ltda.
Faixa 10
Carnaval de 1995; 2° lugar
É carnaval
O Rio abre as portas pra folia
É tempo de sambar
Mostrar ao mundo a nossa alegria
Veio bailando pelo mar
E de lá pra cá nasceu essa magia
Samba, que me faz feliz
Em sua raiz tem arte e poesia
Bate o bumbo, lá vem Zé Pereira
E faz Madureira de novo sonhar
A Portela não é brincadeira
Sacode a poeira, faz o povo delirar
Gosto que me enrosco de você, amor
Me joga seu perfume, hoje eu tô que tô
Praça Onze, berço das nossas fantasias
Deixa Falar deixou no peito a nostalgia
Dos ranchos, blocos e cordões
Dos mascarados nos salões
Pierrot beijando a Colombina
Chuva de confete e serpentina
Dos bondes ficou a saudade
Ah! Que saudade do luxo das Sociedades
Abram alas, deixa a Portela passar
É voz que não se cala
É canto de alegria no ar
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
Email para contato: lcciata@hotmail.com
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