Luis Carlos Magalhães: A raposa e a Ilha
Luis Carlos Magalhães
(Colunista)
Estou chegando... Como vocês agora sabem, não é o Haroldo Costa nem o Milton Cunha e nem o Sérgio Cabral. Sei que a decepção é grande, mas a culpa não é minha; foi o Alberto João quem inventou esta história toda e agora eu é que pago pato. De qualquer forma estou aqui.
De tudo o que mais me importa são duas coisas. Entendo que o desfile das escolas é um misto de fundamentos do samba com a alegria do carnaval. Vou estar muito mais ao lado da "porção" samba, seus fundamentos. O carnaval já anda muito bem defendido nesses tempos modernos.
O outro ponto é permanecer, como tenho feito, dialogando com as novas gerações de sambistas: Contando histórias. Algumas vividas, outras lidas ou ouvidas. Todas de um tempo em que o carnaval deixou tantas marcas em mim...
Houve um tempo em que só dava Mangueira e Portela. Até os carnavais do pós guerra. Depois chegou o Império e deu um bico na porteira. Nos anos sessenta foi a vez do Salgueiro: meteu o pé.
Um dia, em 1976, chega a Beija-Flor e derruba tudo. E repete a dose nos anos seguintes, 1977 e 1978, arrombando de vez todas as portas, porteiras e resistências.
A aparição da Beija-Flor só não foi mais devastadora graças à genialidade de Arlindo Rodrigues que quebrou em 1979 sua sequência de títulos, deixando-a em segundo. Com Arlindo à frente, era a primeira vez que a Mocidade passava para o lado de cá do muro antes intransponível. Beija-Flor era vice, batia na trave.
A escola de Nilópolis tentaria retomar sua trajetória avassaladora sagrando-se campeã daquele embolado carnaval de 1980. E é o mesmo Arlindo Rodrigues que vai nela esbarrar, desta vez à frente da Imperatriz levando a escola de Ramos a sentir pela primeira vez o gosto da vitória, mesmo com a Portela pegando uma beirada. Três campeãs e três vice-campeãs. Pode?
No ano seguinte, 1981, só deu Lalá. Mais uma vez Imperatriz... mais uma vez Arlindo. Mais uma vez Beija-Flor em segundo para só retomar o título em 1983.
Em 1982 a premiação maior não foi de uma escola, a campeã Império Serrano. A vitória maior foi do enredo que anunciava "oficialmente" a chegada dos tempos das super escolas de samba, concebido por Pamplona e desenvolvido por Rosa Magalhães e Lícia Lacerda.
Neste mesmo ano a Ilha dizia: É Hoje!
Fico pensando se já não eram os deuses do carnaval conspirando com o Império, com a Ilha e também com a Caprichosos que chegava neste mesmo ano ao grupo principal?
Era a denúncia, o alerta, a alegria, a crítica e a irreverência ao som de Bum Bum Baticumbum Brucurundum.
Mas olhando de hoje para trás fica muito claro que os tempos, aqueles, eram mesmo de Joãozinho Trinta. Tempos que consolidavam o absoluto deslumbramento visual cuja hegemonia e preponderância tanto nos preocupam hoje.
A história das escolas, dos desfiles, naquele momento definidor dos rumos da folia, quando contada a partir das campeoníssimas é essa aí em cima.
Mas há outra história a ser lembrada, uma belíssima história que corria paralela.
Quando, repito, reclamo - e somos tantos hoje a reclamar! - da prevalência desmesurada do visual, do espetacular, do gigantismo sobre os fundamentos do samba, o que será que estou e estamos querendo? A volta do carnaval "cabeleira-capa-espada", claro que não. Muito menos trocar a Sapucaí pela Intendente Magalhães.
Mas voltemos à história paralela àquela das campeoníssimas.
Naquele mesmo tempo, exatamente naquele mesmo momento em que o carnaval seduzia pelo visual grandioso e rico, a passarela via surgir o que talvez tenha sido o momento mais carnavalesco, mais descontraído, mais momesco, mais folião, mais bonito e mais barato da nossa festa.
Uma presença fantástica de uma "escolinha" colorida que fazia a todos cantar, sorrir e dançar; uma escola que contava histórias simples, da gente mesmo, de momentos do dia a dia, das nossas esquinas, bares, das nossas farras, das nossas alegrias e fantasias.
Uma coisa tão boa, mas tão boa, que quem não torcia diretamente pela Ilha desdenhava o primeiro lugar: a festa, a alegria bastava.
Tal como a raposa, olhávamos as vencedoras como uvas inalcançáveis; e fingíamos que o mais importante não era vencer. As uvas estiveram verdes em todos aqueles anos.
Como lamento isto!
Ah! Se a Ilha tivesse vencido em alguns daqueles anos... Como estaria o carnaval, hoje?
Primeiro foi no ano de 1977, quando a Beija-Flor exuberava geral em busca do bi campeonato, com o surpreendente "Vovó e o Reino da Saturnália". A Ilha, com enredo de Maria Augusta, recebia os gritos de "já ganhou" e encantava as arquibancadas; "abria a janela" do carnaval para convidar o povo a "ver o sol nascer" e se deixar levar pelo lindo domingo que se anunciava.
"Vejam o despertar da natureza
Olha amor quanta beleza
O domingo é de alegria"
Uma nova concepção do desfile, uma nova forma de brincar o carnaval rompia o G-4, o G-5 e o G-6: a escola alcançava um inimaginável empate com a Portela ficando a um único pontinho da campeã. Aliava competitividade e alegria: a alegria do carnaval. A voz de Aroldo Melodia, tão inigualável quanto a de Jamelão, descrevia o povo desta cidade a esquecer o dia seguinte, a segunda-feira, eternizando um dos mais belos momentos dos modernos carnavais, e que tanta emoção desperta em mim e em você:
"Há os que vão pra mata
Pra cachoeira, pro mar
Mas eu que sou do samba
Vou pro terreiro sambar"
No ano seguinte Maria Augusta repetia a dose do ano anterior, enquanto a Beija-Flor barbarizava com "A Criação do Mundo na Tradição Nagô" e conquistava seu primeiro e devastador tri campeonato.
E a voz de Aroldo Melodia desta vez convidava a desvendar o futuro, a buscar... A saber se seríamos ou não felizes. Por todo o desfile estivemos envolvidos e enfeitiçados entre ciganas, mães de santo, periquitos, mal-me-queres, bolas de cristal e realejos.
O que será o amanhã, como vai ser o meu destino?
O imponderável da vida, do futuro, a busca da felicidade em meio ao imponderável do carnaval.
A escola permanecia no G-4 encantado toda a cidade.
Vencer, tirar em primeiro, quem se importava?
E que carnavais... Que tempos...
De um lado a colossal criatividade e inventiva de João Trinta aliada à máquina de ganhar carnavais de Laíla; De outro o carnaval de sonhos de Arlindo Rodrigues. Por outro lado a explosão de cores da Ilha de Maria Augusta. Era afinal a formidável "bomba carnavalesca" do Salgueiro de Pamplona que explodia. E espalharia pelas escolas estilhaços formidáveis: Rosa Magalhães, Lícia Lacerda, Max Lopes, Renato Lage, cada um a seu tempo.
Briga de cachorro grande mesmo: Julio Mattos marcando a cara da Mangueira, a crítica humorada de Luiz Fernando Reis e, se não bastasse, o delírio criativo de Fernando Pinto.
Tempos em que a queda para o acesso de carnavalescos como Max Lopes e Fernando Pinto foram absorvidas com grande naturalidade. Não foi nem uma grande safra de sambas, mas não tinha nenhum enredo maluco.
E eu assistia àquilo tudo. Como em uma roda gigante.
Já sob o comando de Adalberto Sampaio, que substituía Maria Augusta, a escola consegue manter a qualidade em 1979. Um ano depois, obtinha uma segunda colocação, atrás das campeãs empatadas: Beija-Flor de João, Imperatriz de Arlindo, Mocidade de Fernando Pinto e a Portela de Viriato Ferreira que já então se desligava da equipe de João.
"Bom, Bonito e Barato": A escola parecia estar deixando uma sentença para o futuro. Parecia prever os rumos que a festa tomaria dali a alguns anos. O enredo resumia a trajetória da escola entremeando trechos marcantes de desfiles antológicos de antigos e recentes carnavais.
E aquele samba! Que samba era aquele? A cara da escola, a cara de sua gente, de suas fantasias. A cara das ruas e da alma da Ilha do Governador.
Um samba que resumia e inventariava aquela trajetória de carnavais inesquecíveis, cabendo aqui registrar que as referências aos recentes carnavais, Domingo e O Amanhã, tão marcantes, deixava para alguns a impressão de que a escola se repetia.
Para nossos tempos de enredos confusos, de sambas que morrem na quarta-feira de cinzas, tempos em que as escolas parecem ter a preocupação predominante de exibir gastos e exuberâncias alegóricas, o samba da Ilha daquele ano soa como um brado, começando já com um primor de abertura, uma formidável síntese "...de simplicidade e beleza...":
"Colori
Com toda minha simpatia
Um visual de alegria
Cante comigo essa canção de amor"
Era Aroldo Melodia descrevendo o quanto o "meu bonito é barato" e que durante todo esse tempo o quanto "meu colorido encantou você".
A pequena escola parecia mandar o recado para o futuro. Parecia querer mostrar que o carnaval é muito mais do que ficar olhando majestosas alegorias passando em nossa frente, por mais bonitas que sejam, por maiores que sejam suas importâncias para o carnaval moderno, para o chamado "maior espetáculo da terra".
Em seu belo carnaval de 1981, mesmo com uma colocação ruim, quando deu "Burro na Cabeça", a escola registrou uma passagem histórica. A brava Nair de Teffé, primeira dama da recente república, esposa do Marechal de Ferro, tocava o "corta-jaca" de Chiquinha Gonzaga para desespero e revolta do tribuno Rui que "barboseava" no Senado dizendo barbaridades sobre a música popular brasileira.
Encerrando aquele ciclo, ainda que com algumas poucas boas colocações seguintes. a escola trouxe em 1982 o enredo "É Hoje", de Max Lopes, expondo a alegria do folião no momento do desfile.
Em mais um "samba que não morre", entre tantos de sua maravilhosa ala de compositores, ainda desta vez a história dos sambas-enredo ganharia trechos inesquecíveis, primeiro na abertura, das mais criativas:
"A minha alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da terra".
Para depois encerrar com um antológico fecho que resume com um misto de emoção e precisão aquilo que o sambista está sentindo, sobretudo o sambista da Ilha:
"É hoje o dia da alegria
E a tristeza
Nem pode pensar em chegar
Diga espelho meu
Se há na avenida
Alguém mais feliz que eu?"
Mas isto foi há muito tempo...
Depois de amargar maus resultados na década de 1990 a escola entra no novo século rebaixada. Agora volta à elite do carnaval para o desfile de 2010.
Virou lugar comum se dizer de uma escola que volta ao grupo especial: "de onde nunca devia ter saído", certo. Assim se diz da Ilha. Será?
Qual a Ilha que vem por aí? Aquela?
A escola que tanto nos emocionou, que fez de si própria a imagem, expressão e alegria do carnaval é a mesma de outros desfiles insípidos, inodoros e incolores de um passado recente.
Por sua marca, pelo caminho que apontou, pela sacudida que o carnaval tanto precisa, pela felicidade que nos trouxe, pelas lembranças de seus desfiles e sambas memoráveis a Ilha é esperada com muita expectativa, pelo menos por mim.
Que baixe com ela e sobre ela a energia que no ano perdido e isolado de 1989 a fez entrar para a história da folia com um carnaval inesquecível do carnavalesco Ney Ayan, chegando a um único ponto das campeãs Imperatriz e Beija-Flor: Festa Profana.
Que seu desfile expresse aquele samba - um samba que não morre! - que como nenhum outro expressa a magia de um carnaval cada vez mais distante.
Que todos nós cantemos afinal, como no carnaval de 1980, encontrando-a novamente altiva e colorida:
"E outra vez na passarela
Colorida e tão singela
O sangue novo faz toda gente vibrar.
Sou eu, sou eu
Trazendo felicidade
Sou eu"
SUGESTÃO PARA OUVIR
Ilha 1991 - Ilha 1991
Samba: De bar em bar, Didi, um poeta.
(Quem saberá quantos e quais sambas foram por ele compostos?).
Autor: Franco.
Voz: Aroldo Melodia
____________________________
Publicado originalmente no dia 12 de maio de 2009, no site SRZD-Carnavalesco
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