Memória da Folia: Lucinha na Mangueira, Giovanna na Portela e Marcella na Tijuca
Luis Carlos Magalhães analisa o troca-troca de profissionais do Carnaval, comenta as justificativas das notas do Grupo Especial e se despede dos leitores
Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)
Será que já acabou, ou ainda há mais águas a rolar?
Quando a gente menos espera o carnaval está aí a trazer algo novo, alguma coisa a mais a acrescentar àquela festa que só durava três dias, lembra?
Só de troca-troca e justificativas de julgamento já se vão dois meses.
Já não sei bem quando, em que carnavais, começaram estas danças de cadeiras, ou troca-troca como dizem por aí. Exceto quanto a Elcio PV e Peninha, mestre-salas mais que rodados, lembro de ter lido Nelson Andrade do Salgueiro ir parar na Portela, o passista Gargalhada ir do Salgueiro para a Mangueira. Muito pouco troca-troca.
É o preço da profissionalização.
Curioso que no futebol admitíamos que Tita fosse para o Vasco, Doval para o Fluminense. Até Romário do Vasco para o Flamengo, de lá para o Flu, nunca, porém, Zico para o Vasco, ou para qualquer outro time. Nem Dinamite, a não ser para fora do país.
Há trocas e “trocas”.
Os carnavais eram de permanência. Montar uma galeria de heróis e baluartes era coisa simples: estavam lá todos que estiveram lá. Em que medida esta dança interferirá na magia da paixão carnavalesca?
A atração do carnaval era o time certo, escalado já na quarta-feira para o outro carnaval.
O troca-troca de origem sempre esteve presente em relação aos carnavalescos. Tirando Julio Mattos, da Mangueira, que era dalí do morro do Tuiuti, todos foram ou eram artistas sem ligação original com as escolas, somente prestavam serviços a elas. Uns envolvidos somente com seus projetos, outros com algum envolvimento, outros nenhum. Alguns com grande envolvimento. Eram em geral cenógrafos, figurinistas atraídos de outras áreas para o carnaval.
A regra geral é o envolvimento com “aquele trabalho”, não com “aquela escola”.
Assim passou a ser com os puxadores. Exceto quanto a Neguinho e, digamos, Gilsinho Tinga, Luizito e Quinho, mais recentes, a dança dos puxadores só perde para a dos carnavalescos.
Agora sai Mug, entra Átila. Sai Odilon entra Ciça, deixando a impressão de que todos os setores serão atingidos.
E Daniele sai, volta para o Império, fica em Madureira. Lucinha vai para a Portela e Giovana para a Tijuca enquanto Marcella vai para Mangueira.
Será uma acomodação pontual, momentânea, ou a marca de que a ‘dança’ alcançou dois segmentos antes sagrados?
Será que Marcella depois estará na Tijuca. Lucinha na Mangueira e Giovana na Portela?
Será justo exigir delas que não seja assim, artistas maiores que são?
E quanto aos casais não profissionalizados, será justo que assim permaneçam?
Nesta transição para o profissionalismo total fico me perguntando como é que isto funciona. Sem citar nomes, será que um casal que desfilava “no amor” por sua escola foi substituída também “no amor”? Ou será que aquele casal substituto chega ganhando uma grana que o casal anterior nunca imaginou ganhar?
Como é que alguém que desfila “no amor” sustenta sua família?
O carnaval profissionalizado, tal como está, tal como ainda ficará, me assusta, mesmo que considere tal rumo irreversível.
Confesso que chego a temer que um dia eu não seja mais um Portelense; que passe a torcer por “uma escola azul e branco”. Que Miro Ribeiro deixe de ser Mangueirense e passe a torcer por uma escola “verde-rosa”. Tanto quanto não sei escalar mais o time do Fluminense, Miro Ribeiro não sabe o do Flamengo. Será que chegará um dia em que recorreremos aos jornais para saber quem desfilará “este ano” em nossa escola?
Chego a temer que tal condição, aliada a tantas outras, transforme, como já disse aqui, o desfile em uma festa ‘fácil’, ‘fast food’, tal como a ex-festa de Iemanjá, em Copacabana. Aquele ‘bundalelê’ que há lá hoje ainda é uma grande festa popular, mas perdeu suas características originalíssimas de fé, de despreocupação, de harmonia, de conjunto. Hoje... é uma festa ...
É uma festa que pode ser realizada em Cabo Frio, na Barra, em Florianópolis ou em qualquer praia onde haja gente e fogos. O pessoal do “santo” já prefere outros dias. Nos contentamos com ela tal como nos contentamos em comer um hamburguer ao invés de almoçar.
Será que o carnaval um dia será assim?
Mas lá em cima falamos de troca-troca e de justificativas, que esticam o carnaval.
Vamos retomar o rumo da prosa...
Misturando uma coisa com outra, vou misturar aqui Danielle Nascimento com Beatriz Badejo, já nossa conhecida há tantos e tantos carnavais.
Não quero, pelo menos neste momento, protestar contra esta maneira ‘fast-food’ de julgar; alguns jurados escrevendo imprecisamente suas observações, com letras ininteligíveis e formulações inconclusas, mesmo dispondo de tempo mais que suficiente para redigir meia ou uma dúzia de palavras.
Será ainda preciso ficar lendo que uma bateria que alcançou 10 em outra cabine não merece algo mais do que uma sentença seca: “faltou criatividade”? Ou que um enredo foi linear?
Até quando vamos ter paciência para ler que uma porta-bandeira, que se prepara um ano inteirinho para aquele momento, estava desanimada justamente naquele momento? Ainda mais quando tal julgamento é aniquilado pela cabine seguinte, transformando em pó todo aquele “achismo”, todo aquele exagerado subjetivismo da cabine anterior?
Não consigo entender como a direção do carnaval ainda tolera isto. Realmente é preciso muita paciência.
Mas então qual é a questão, qual a abordagem do julgamento e das justificativas?
Vamos lá ao ponto que elegi para reflexão e que considero emblemático. O ponto que me deixou desanimado e perdido, me sentindo um absoluto ignorante nesta arte de julgar.
Minha grande esperança acerca do anti-carnaval-fast-food aconteceu com o retorno (retorno?) de Daniele Nascimento à Portela.
Ali, todos sabem, um caso especial. Mais do que uma porta-bandeira, sua chegada à Portela para o carnaval de 2009 foi um retorno. A fantasia histórico-social-carnavalesca de uma porta-bandeira que voltou sem que nunca tenha sido; um retorno de quem nunca saiu.
Foi uma alegria tão grande, uma esperança enorme de um carnaval fincado em raiz secular. Uma trajetória histórica, social de uma família que deixa o Vale do Paraíba paulista, na decadência da lavoura cafeeira, e vem para o Rio.
Pela frente um mundo novo, o século do avião pela frente. Um Rio que se parte, que se urbaniza, se higieniza, que separa e que atrai trabalhadores de toda parte.
Uma família que funda a Portela e ajuda a conduzí-la a todas as suas glórias.
Mas esta história já foi contada...
O que está sendo contado agora é a história que se processa dentro das cabines de jurados. O momento que assume a importância maior da festa, pelos rumos que a ela dá, pelas tendências que imprime, pelas ‘verdades’que estabelece.
Foi assim que durante todo o ano me preocupei com ela, com Daniele.
Com o peso que carregava. O peso da mais bonita entre tantas tão bonitas histórias de nossas escolas. O peso de trazer de volta para a pista o nome de sua mãe, a mais bonita, a mais imponente, a mais soberana entre todas as tão bonitas, imponentes e soberanas porta-bandeiras brasileiras.
Fiquei uma pilha durante o desfile da Portela. Pela primeira vez esqueci Selminha, Lucia Nobre, Ruth, Giovana, Marcella e todas as outras para as quais torço tanto.
De onde estava não vi o desempenho dos casais. Não sei qual das meninas estava mais bonita em seu momento maior, mais iluminada ...
Tudo que sei é que Daniele, como era esperado, obteve excelentes notas. Importante contribuição para que sua escola alcançasse um inédito terceiro lugar neste século, sua melhor colocação nos últimos carnavais. Foram três notas máximas e uma nota 9.8, com perda, portanto, de dois décimos.
Tudo estaria muito bem “para ela” se os deuses do carnaval não tivessem conspirado para que o quesito decisivo “para sua escola” não fosse exatamente o dela.
Todos sabemos que se Daniele tivesse obtido um único décimo a mais a Portela alcançaria o empate; parecia que os deuses do carnaval conspiravam já que o quesito de desempate era também o seu.
Mas não foi o que aconteceu. De minha parte fiquei contente com o resultado e feliz por ela. Foram belíssimas notas.
Vida que segue...
Agora vejo publicadas as justificativas dos jurados. Antes de examiná-las em sua totalidade tratei de apenas satisfazer minha curiosidade: fui direto nas notas de Daniele para conhecer quais teriam sido seus pequenos “deslizes”responsáveis pelos dois décimos escapados percebidos pela julgadora Beatriz Badejo.
E aqui demonstro minha perplexidade em relação ao julgamento. Uma perplexidade em relação à função, o papel do julgador, ao foco de sua observação e análise.
E mais, também em relação ao tipo de orientação que é passada pela direção do carnaval durante os ‘cursos de jurados’.
Repito que estou aqui para demonstrar minha incompreensão confessada e assumida em ralação ao julgamento, independentemente, e não poderia ser de outra forma, de minhas relações com a história da escola.
Tomo para tanto, e portanto, a atuação de uma julgadora reconhecida, respeitada e das mais experientes em tão difícil tarefa, em uma situação emblemática.
Vamos à justificativa da nota 9.8:
“A exibição do casal foi correta mas a porta-bandeira mostrou-se muito mais graciosa e expressiva do que o mestre-sala, que pode evoluir mais com sua partner (- 0,1); Além disso, poderiam ter sido mais criativos em sua exibição, aproveitando gestos que fizessem referência ao enredo “E por falar em amor, onde anda você? (-0,1).”
Repito aqui que não vi as apresentações dos casais. Mesmo que tivesse visto não saberia julgar. Deixo isto bem claro. Fico feliz por Daniele pelo fato de uma julgadora tão rigorosa não ter punido nenhum aspecto “técnico” de sua apresentação.
Por outro lado, quero aqui declarar minha opinião: o julgamento aqui destacado deixa para mim a impressão de altíssimo, desmedido e indesejável grau de subjetividade ou o altíssimo grau de imprecisão da orientação aos jurados.
A julgadora tirou um décimo fatal de Danielle porque achou que o casal não aproveitou gestos que valorizassem o tema.
(Veja que estou desconsiderando o outro décimo. Portanto, como não estava “in loco”, como estava distante, estou considerando que todos os outros casais se equilibram, ao contrário do casal da Portela, considerado desnivelado pela julgadora)
Acho até que a utilização de tais gestos é uma bela sugestão. Concordo que teria sido muito positivo embora eu desconheça exatamente que gestos poderiam ter sido usados.
Mas considerando que a julgadora saiba quais são, acho que teria sido muito legal.
Minha discordância está no fato de isto ter sido considerado relevante o suficiente para penalizar a apresentação.
Entendo, por um lado, que o casal está ali para dançar, ela para exibir sua bandeira e ele para cortejá-la, obedecendo a um regulamento; o casal não está ali para satisfazer, ainda que bonitas, as aspirações da julgadora. Acho mesmo que a observação seria muito oportuna como contribuição, nunca como punição.
No meu entendimento a apreciação da julgadora deveria ter por objeto aquilo que o casal realizou, ou aquilo que tecnicamente deixou de realizar; jamais aquilo que ela julgadora ‘gostaria’ que o casal realizasse.
Seria razoável esperar que o casal do Salgueiro “batucasse” enquanto dançava, considerando que o tema era o tambor? Ou que o casal da Beija-Flor se “ensaboasse” ao dançar para valorizar o enredo sobre o banho?
Enfim, pergunto: será justificável creditar tal punição à compreensível, inevitável e tão falada “subjetividade”?
Parafraseando Madame Roland, diria Rei Momo: Ó subjetividade! Quantos equívocos se cometem em teu nome.
Resta-me agora desejar a Daniele que seja feliz no Império, no nosso Império.
Torcer para que Madureira volte a ser a capital do samba.
Dizer a ela que por mais que o passado tenha sido de tanta rivalidade, nossas bandeiras da Portela e do Império têm o mesmo peso e existem pela mesma razão.
SUGESTÃO PARA OUVIR:
Samba: Meu Lugar
Autor: Arlindo Cruz e Mauro Diniz
Voz: Arlindo cruz
O meu lugar
É caminho de Ogum e Iansã,
Lá tem samba até de manhã,
Uma ginga em cada andar.
O meu lugar,
É cercado de luta e suor,
Esperança num mundo melhor
E cerveja pra comemorar.
O meu lugar,
Tem seus mitos e seres de luz,
É bem perto de Oswaldo Cruz,
Cascadura, Vaz Lobo, Irajá.
O meu lugar,
É sorriso é paz e prazer
O seu nome é doce dizer,
Madureira, lá, laia.
Madureira, lá, laia.
O meu lugar,
É caminho de Ogum e Iansã,
Lá tem samba até de manhã,
Uma ginga em cada andar.
O meu lugar,
É cercado de luta e suor,
Esperança num mundo melhor,
E cerveja pra comemorar.
O meu lugar,
Tem seus mitos e seres de luz
É bem perto de Oswaldo Cruz,
Cascadura, Vaz Lobo, Irajá.
O meu lugar,
É sorriso é paz e prazer
O seu nome é doce dizer,
Madureira, lá, laia.
Madureira, lá, laiá.
Ah! Que lugar,
A saudade me faz relembrar,
Os amores que eu tive por lá,
É difícil esquecer.
Doce lugar,
Que é eterno no meu coração,
E aos poetas traz inspiração,
Pra cantar e escrever.
Ah! Meu lugar,
Quem não viu a Tia Eulália dançar,
Vó Maria o terreiro benzer,
E ainda tem jogo à luz do luar.
______________________________________________________
ATÉ A PRÓXIMA
Bem rapaziada, estou de partida...
Foram 13 meses por aqui. Comigo, com vocês, para vocês.
Durante todo esse tempo exerci prazerosamente esta tarefa de misturar o samba com o carnaval, carnaval com minha vida, vida com emoção, emoção com samba e com carnaval.
No começo achei que o melhor era escolher o tema. Tanta coisa vivida, lida, pensada, imaginada. Como era bom ficar ali deixando os temas chegarem à mente.
Depois achei que o melhor de tudo era mesmo escrever, escrever, escrever.
E passei a curtir e valorizar o reparo de trechos, inclusão de outros, buscar mais informações.
E chegou o tempo em que passei a achar que bom mesmo era ver o texto publicado.
Afinal concluí que de verdade, de verdade mesmo, o melhor de tudo eram os comentários que vocês mandavam.
Saboreá-los um a um.
Tempos depois trocamos e-mails e acho até que ficamos bons amigos, certo?
Tudo foi muito novo para mim.
Agora estou indo... espero que com vocês.
Breve poderei dizer onde estarei. Novo espaço, novos companheiros... um novo momento.
Quando Raphael Azevedo me convidou a colaborar aqui a idéia dele girava em torno de um texto dirigido às novas gerações. Algo que com elas dialogasse em meio à lembranças minhas de “tempos idos” (salve, Cartola), entremeadas com pesquisas em livros e textos.
Pois foi o que tentei fazer. Nada teria sido possível sem sua paciência e amizade.
Agradeço muito a ele, a quem tanto admiro, por quem tanto torço e de quem quero sempre estar perto.
Não conseguiria ir sem homenagear o site www.galeriadosamba.com.br por tantas vezes que por ali voei.
Meu agradecimento ao site www.odianafolia.com.br pelo espaço, pela confiança, pelo “ponto de partida”. Ao meu “vizinho” Bruno Filippo, por termos estado juntos, e à Dona História, fiel companheira dos momentos mais difíceis.
Vou dar uma volta por aí. Já, já a gente se encontra de novo.
Luis Carlos Magalhães
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
Email para contato: lcciata@hotmail.com
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