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29.06.09 às 10h27
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Bruno Filippo revela sua expectativa para o sorteio da Liesa

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)


A Liesa decidiu que, para manter o interesse do público até o raiar do dia no Sambódromo, Mangueira e Beija-Flor encerrarão o carnaval de 2010; o sorteio da ordem de desfile, que acontece nesta terça, definirá o dia em que cada uma vai desfilar. Por muitos anos, desde que, com a construção do Sambódromo, as escolas passaram a se dividir em dois dias, Mangueira e Portela não se cruzavam no mesmo dia, sem que tivessem de desfilar por último.

Dessa forma, as duas escolas mais tradicionais, com sua imensa torcida, garantiam público e audiência de tevê no domingo e na segunda. Há poucos anos essa regra deixou de existir, e o fato de a mudança ter passado quase despercebida é sintomática de mudança histórica mais profunda, que se reflete também na recente decisão da Liesa.

Já tratei deste assunto em colunas anteriores; mas, devido à sua imensa importância para a compreensão da estrutura do carnaval carioca, voltarei a fazê-lo brevemente. Por que a Mangueira se mantém como a escola que desperta tanta expectativa popular – e, por consequência, de grande importância comercial, mesmo quando a escola não atravessa grande momento? Por que a Beija-Flor ocupou o lugar da Portela como fiel da balança ao lado da Mangueira?

Não se trata mais de uma questão de número de torcedores. Portela e Mangueira continuam sendo as duas maiores torcidas do carnaval; o desempenho da Beija-Flor na última década não alterou esse quadro, não obstante lhe tenha angariado muitas simpatias. O problema – ou a solução – é que hoje , em expectativa criada, em interesse despertado, só a Beija-Flor pode se igualar à Mangueira. Para que sejamos mais corretos, devemos inverter a ordem: só a Mangueira pode se igualar à Beija-Flor.

É claro que quase todas as escolas despertam interesse; mas, verdade seja dita, algumas têm mais poder de atração do que outras. A constatação é triste, e espero que os portelenses entendam, até porque sou um deles, mas a verdade deve ser dita: a Portela há tempos deixou de ser a grande chamariz do desfile das escolas de samba. Uma série de fatores nas últimas três décadas explicam-no: má administração, brigas e cisões, desfiles burocráticos. Falo de desfile, de carnaval, de Sambódromo. Não falo de sua tradição como celeiro de bamba, de suas figuras históricas, de sua velha-guarda, de seu espaço simbólico e aglutinador da cultura do samba carioca; isso, não há desfile ruim que seja capaz de alterar.

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Quem se detiver, numa análise cuidadosa, nos resultados dos desfiles de escolas de samba observará que algumas poucas escolas tinham o privilégio de figurar nas primeiras colocações – e, à quebra dessa hegemonia, seguia-se a incorporação de uma nova escola ao grupo dominante. Nos dezesseis carnavais que compreendem os anos de 1960 a 1975, Portela e Mangueira conquistaram, cada uma, cinco títulos; o Salgueiro viveu seu maior período de glórias, com sete títulos; e o Império Serrano foi campeão duas vezes.

O Salgueiro, fundado em 1953, conquistou seu primeiro título em 1960. Até então, o grupo dominante era composto, desde 1948, por Portela, Mangueira e Império. Em 1949, 1950 e 1951, houve dois desfiles, organizados por entidades diferentes.

Em 1949 Mangueira e Portela estavam vinculadas à União Geral das Escolas de Samba do Brasil, ao passo que o Império pertencia à Federação Brasileira das Escolas de Samba. O desfile da Federação foi reconhecido como oficial – mas em 1950 Portela e Mangueira bandearam-se para a União Cívica das Escolas de Samba, retornando no ano seguinte à União Geral. Nesses dois anos os desfiles – o da Federação, com o Império, e o das duas uniões, com Portela e Mangueira – foram considerados oficiais.  De 1948 a 1959, o Império foi campeão seis vezes, a Portela cinco e a Mangueira duas. Em 1952 não houve julgamento.

Nascido, logo após o carnaval de 1947, de uma dissidência da escola de samba Prazer da Serrinha, o Império conquistou o título no primeiro desfile de que participou, interrompendo uma série vitoriosa de sete carnavais da Portela. Quando o Império surgiu, apenas as duas escolas mais tradicionais do Rio, Portela e Mangueira, travavam luta pelo primeiro lugar. De 1932, data do primeiro desfile, a 1947, foram nove campeonatos da Portela e quatro da Mangueira. Unidos da Tijuca (1936) e Vizinha Faladeira (1937) ganharam uma vez.

Em 1938 não houve resultado. Em resumo: até 1975 o ranking das escolas campeãs estava assim dividido: Portela, 19 campeonatos; Mangueira, 11; Império, 8; Salgueiro, 7; Unidos da Tijuca, Vizinha Faladeira e Unidos da Capela (que empatou com as grandes em 1960), um campeonato. A vitória da Beija-Flor em 1976 criou um novo grupo hegemônico, formado não pelas escolas que antes disputavam o primeiro lugar, e sim pelas escolas que, antes de 1976, jamais haviam conquistado um campeonato.

Depois do tricampeonato da escola de Nilópolis (1976, 1977 e 1978), foi a vez da Mocidade (1979) e da Imperatriz (1980 e 1981). No longo período entre 1976 e 2009, a Beija-Flor levantou o troféu em doze carnavais, e Imperatriz em oito, a Mocidade em cinco, a Vila Isabel em dois e a Viradouro uma única vez.

A ascensão do novo grupo fez minguar a vitória das escolas hegemônicas no período anterior a 1976. Portela e Império conquistaram um título (a Portela ganhou em 1980, empatada com Beija-Flor e Imperatriz) e o Salgueiro, dois;  mas a Mangueira conquistou cinco campeonatos. Ou seja: ao contrário dos ciclos hegemônicos anteriores, uma escola tradicional e vitoriosa é que foi incorporada a um novo grupo.

Por que houve o sucesso, estrondoso e aparentemente repentino, entre o fim dos anos 70 e início dos anos 80, das escolas emergentes? Uma das explicações é de que elas contavam com patronos que não economizavam recursos, investindo o que fosse necessário para fazê-las figurar nas primeiras colocações. A Beija-Flor tinha Anísio, a Imperatriz, Luisinho Drummond, e a Mocidade, Castor de Andrade. O aporte financeiro tornava-se primordial para um tipo de desfile que privilegiava, a cada ano com mais intensidade, a estética de Joãosinho Trinta: o luxo e a riqueza.

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Quando as escolas passaram a desfilar em dois dias, o novo ciclo já se havia iniciado. Mas Mangueira e Portela, para além do caráter estritamente econômico, mantinham grande rivalidade simbólica e despertavam grande expectativa. Essa rivalidade se diluiu; não que tenha sido extinta por completo – ainda deve estar viva em seus componentes mais antigos - , mas não tem a força formadora de torcedores. Mangueira e Portela continuam sendo populares. Mas a Mangueira, com o decorrer do tempo, manteve sua preponderância no carnaval, ao passo que da Portela sempre se espera um sopro de revigoramento.    

 
 
 

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