Em oito anos, fundador da Rio da Prata criou um império na Zona Oeste
João Antonio Barros e Thiago Prado
Rio - O cartel das vans tem um imperador: César Moraes Gouveia, o César Cabeção. Carioca, 47 anos, ele viu sua vida se transformar em conto de fadas quando trocou a serra da marcenaria pelo volante das vans, há oito anos. Não demorou muito para assumir o comando da cooperativa que ajudou a criar, em Bangu, com velhos colaboradores e policiais civis. A união fez da Rio da Prata a maior cooperativa de transporte alternativo do Rio, com movimento de R$ 600 mil por dia. E fez de César um megaempresário, com patrimônio de quase R$ 3 milhões em imóveis, carros e empresas.
Em números, a Rio da Prata faz frente às empresas de ônibus que há décadas atuam no transporte rodoviário. Seus 900 veículos cruzam as zonas Oeste e Norte levando por dia 270 mil passageiros, com arrecadação mensal de R$ 15,4 milhões em passagens, mais R$ 1,9 milhão em taxas dos cooperativados. Nem tudo, no entanto, conquistado com mãos limpas. Para o bolo crescer, César recorreu a ‘serviços’ de aliados policiais, o que lhe rendeu investigações por ameaças de morte, falsificação e tentativa de homicídio.
O ‘imperador’ traz no currículo o status de ter enfrentado o exército de Ricardo Teixeira Cruz, o Batman, numa disputa pelas linhas de Santa Cruz e Sepetiba. E não se intimidou ao ficar cara a cara no Fórum de Santa Cruz com Luciano Guinâncio Guimarães, filho do ex-vereador Jerominho Guimarães — um dos chefes da Liga da Justiça.
Para demonstrar tamanha valentia, César se ampara em uma retaguarda que impõe respeito. Até há alguns anos, fiava-se na parceria com o irmão (o traficante Pedro Moraes Gouveia, detido em Bangu). Atualmente, seu ‘braço forte’ está nos amigos e sócios policiais e na segurança pessoal que o cerca. Só nos arredores da cooperativa são 12 homens armados ostensivamente protegendo o chefe.
Serviços a topiqueiros garantem lucro extra
A César o que é da cooperativa. A expansão empresarial do rei dos topiqueiros está diretamente ligada à Rio da Prata. Suas principais empresas, fontes de lucros anuais perto dos R$ 350 mil, prestam serviço justamente à cooperativa de Bangu. São oficinas mecânicas e de recuperação de lataria.
Os topiqueiros desatentos acreditam ser parte do patrimônio da sociedade para a qual cooperam, semanalmente, com R$ 300. Na verdade, a ‘rede’ integra o patrimônio do homem que já não aparece sequer na composição societária da Rio da Prata, mas que, ao prestar depoimento na Justiça, se apresentou como “dono” da cooperativa.
Até os prédios das sedes das oficinas e da Rio da Prata são bens de César Gouveia, conforme consta nas escrituras lavradas na 2ª Circunscrição em novembro de 2007 e janeiro de 2008, nas quais o topiqueiro aparece como comprador dos imóveis das ruas Bangu e Santa Cecília, em Bangu. Sua principal empresa, a Club Car, assinou contrato com a Rio da Prata para a manutenção da frota. Ou seja: ele ganha com um serviço que o cooperativado deveria receber grátis.
Imóveis pagos sempre com ‘dinheiro vivo’
Os negócios imobiliários de César Gouveia deixam transparecer uma mania do rei dos topiqueiros: o pagamento sempre em dinheiro vivo, mesmo quando isso significa manusear e transportar somas elevadas. Uma das provas é a compra de uma mansão em Padre Miguel por R$ 600 mil. Ele levou R$ 300 mil em dinheiro para o Cartório da 2ª Circunscrição, como consta na escritura, e parcelou o restante em 10 prestações mensais de R$ 30 mil — com assinatura de notas promissórias.
A maior parte do patrimônio foi adquirida por César Gouveia a partir de 2007. Ao todo, são sete imóveis (casas, galpões e terreno), que somam hoje, com atualização, R$ 2,275 milhões. Entre eles, um apartamento em condomínio de luxo em Vila Valqueire (fotos ao lado) avaliado em R$ 450 mil. O imóvel foi comprado em junho de 2007 por R$ 270 mil, com R$ 150 mil de entrada pagos ‘cash’.
Outro destaque é a casa situada em Bangu, que, segundo a avaliação da prefeitura (feita para o pagamento do Imposto Sobre Transmissão de Bens Imóveis) vale R$ 425 mil. Ele também tem apreço por carros. E sempre chega à sede da Rio da Prata a bordo de um Toyota Hilux, modelo que custa R$ 130 mil.
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