Explorados, topiqueiros ficam com a menor fatia
Motorista arrecada em média R$ 7 mil para ficar com apenas R$ 700
João Antonio Barros e Thiago Prado
Rio - Segunda-feira, 4h30. Ainda está escuro lá fora, mas a semana começa bem cedo para Márcio (nome fictício). Ele e dezenas de companheiros se aglomeram em um ponto de vans no subúrbio em busca do mesmo objetivo: conseguir o máximo de dinheiro para fazer frente à montanha de contas típicas de um topiqueiro carioca. A matemática, no entanto, é perversa com o trabalhador. O quanto se arrecada com o transporte diário de 200 passageiros é bem diferente do que sobra efetivamente no bolso de Márcio no fim do mês.
“Consigo mais de R$ 7 mil mensais trabalhando de segunda a sábado, das 6h às 22h. Mas tenho que pagar tanta coisa, que fico só com R$ 700. Como ainda divido as viagens no meu carro com outra pessoa, resta menos ainda para mim”, conta Márcio, permissionário da prefeitura desde 2001, mas motorista de van há mais de 15 anos.
A dura jornada de um topiqueiro começa na compra do veículo. O preço da van varia de R$ 80 mil a 120 mil. Como é quase impossível adquirir o carro à vista, eles optam por longos parcelamentos. “Comprei a minha em 60 vezes, mas somos obrigados a trocar nossos carros a cada 72 meses. Ou seja, mal acabo de quitar uma dívida e tenho que entrar em outra prestação”, conta Márcio, que já tomou uma decisão para melhorar o seu orçamento: não vai mais renovar o seguro do carro, o que equivale a R$ 5 mil por ano.
Em seguida, surgem os gastos com a manutenção (combustível, óleo, pneus), impostos (IPVA e DPVAT). Mas o que dói mesmo no bolso é o pagamento feito regularmente à cooperativa. São, em média, R$ 300 semanais, fora as vezes em que os motoristas têm que arcar com despesas com o prancheteiro (responsáveis pela gestão dos terminais) e estacionamentos, como ocorre com muitos deles.
“Ninguém suporta essas taxas, mas ao mesmo tempo ninguém é louco de se recusar a pagar aos caras. É a regra do jogo”, afirma Márcio. A revolta é ainda maior quando o topiqueiro lembra dos tempos em que pagava propina para policiais. Na época, seu veículo estava irregular. “Ficava intimidado pois toda noite eles vinham pedir ‘um dinheiro para o café’. Perdia R$ 100 por mês no ‘arrego’”.
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