Feudos que rendem até R$ 30 milhões todo mês
Três grupos exploram rotas de Jacarepaguá, Campo Grande e Cascadura
João Antonio Barros e Thiago Prado
Rio - Três feudos que movimentam mais de R$ 30 milhões por mês. Comandadas a mão de ferro, cooperativas de Jacarepaguá, Campo Grande e Cascadura exploram o transporte diário de mais de 400 mil passageiros. Nas suas áreas intocáveis, ‘exércitos’ de policiais impedem invasões e mantêm os privilégios de uma casta que se perpetua no poder desde o início da década.

Foto Ernesto Carriço/Agência O DIA
Na dinastia de Rio das Pedras, o recente assassinato do presidente, Getúlio Rodrigues Gamas, em maio, não afetou os negócios dos irmãos Pereira Barbosa. O sargento reformado Dalmir e o topiqueiro Dalcemir continuam dando as cartas. Hoje, a família acumula patrimônio superior a R$ 7 milhões, de acordo com investigações da Polícia Federal. Tamanho sucesso empresarial é, em grande parte, creditado à exploração de 16 linhas principais que ligam Jacarepaguá à Zona Sul e à Barra da Tijuca, além das taxas semanais entre R$ 297 (Kombis) e R$ 300 (vans), cobradas de 400 cooperativados.
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O subúrbio também tem um soberano. A hegemonia de Valdir da Silva Sá, presidente da cooperativa Alternativa, está nas ruas de Madureira e Cascadura. São 400 carros que circulam nos melhores trajetos para o Recreio e Nova Iguaçu. A estrutura, que rende aos cofres da associação cerca de R$ 4 milhões anuais, é mantida graças ao perfil do seu líder e discípulos, sempre acompanhados de seguranças. Em um registro feito na 28ª DP (Campinho) em janeiro de 2004, o motorista Carlos Augusto Murta acusou Valdir de ameaçá-lo caso não lhe pagasse a contribuição semanal. “Você tem certeza de que vai rodar sem pagar à cooperativa? Então você vai pagar para ver!”, teria dito o presidente da Alternativa. Em outra ocasião, o vice de Valdir, Ismael Vitelbo da Silva, foi acusado de agredir um topiqueiro que não aceitou a incorporação de sua cooperativa à Alternativa.
Cooperativa ignorou recadastramento
A prosperidade no setor de vans não atrapalhou Valdir e sua aptidão por outras formas de ganhar dinheiro. A certeza de lucro com as atividades levou o topiqueiro a até ignorar o recadastramento de cooperativas na prefeitura, no ano passado. Desde então, a Alternativa não está credenciada para rodar.
Valdir aparece como sócio na Four Kings Publicidade Ltda, localizada no mesmo endereço da cooperativa, na Avenida Ernani Cardoso. Ele também é um dos proprietários da IVM Serviços e Intermediação Comercial.
Incorporações à força pela ‘Liga da Justiça’
Na terra de ninguém em que se transformou Campo Grande nos últimos anos, restou às cooperativas da região escolher entre aderir à Liga da Justiça ou pagar caro por desafiá-la. Seja tomando associações à força ou cobrando pedágios, o bando liderado por Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, chegou a ter influência sobre cerca de 1.300 Kombis e vans na Zona Oeste.
O lucrativo mercado levou Jerominho a acumular patrimônio de R$ 3 milhões, com casas na Região dos Lagos, Mangaratiba, Recreio dos Bandeirantes e Zona Oeste.
REUNIÃO SECRETA DEU ORIGEM À PARTILHA DE LINHAS DO G4
Gigantes do setor se anteciparam à licitação da prefeitura para se apropriar de rotas de maior movimento e afastar a concorrência
O novo desenho do mapa do transporte alternativo no Rio foi decidido em reuniões secretas na Zona Oeste entre César Cabeção (Rio da Prata), Valdir Sá (Alternativa) e Getúlio Gamas, representando Dalmir Barbosa (Rio das Pedras). De olho na licitação da Prefeitura do Rio para ficar com as melhores linhas, os chefões que já exploravam o setor definiram as regras que ditam o mercado até hoje. Os três, logo depois, tiveram que abrir espaço para a ambição de Jerominho em dominar parte da Zona Oeste. Silenciosamente, o G4 estava montado.
A região contemplou um acordo entre dois gigantes. Ficou acertado entre César e Jerominho que as vans de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba seriam da Liga da Justiça, enquanto todos os carros de Bangu, Realengo e Senador Camará ficariam com a Rio da Prata. A partir daí, o bando de Jerominho não perdeu tempo em seu território e fundiu pelo menos oito cooperativas na Coopervida — criada para dar ares de legalidade às ações da Liga. Uma das associações adquiridas pelo novo empreendimento foi a Cooperouro, na época dirigida por Marcelo Teixeira da Cunha, hoje presidente da própria Coopervida. Na ocasião, a Liga chegou a exigir, sem sucesso, da rival de Rio das Pedras o pedágio pelas linhas que passam por Campo Grande.
A escalada dos negócios da Rio da Prata também seguiu o modelo de aquisições, mas a relação com o G4 estremeceu com a ganância de César. Além de encampar pelo menos seis cooperativas de Bangu e Vila Valqueire, ele avançou sob as linhas de Valdir em Cascadura. A reação da Alternativa veio com a tomada de trajetos da Coopcap de Marechal Hermes.
Em 14 de abril de 2007, novo abalo. César ‘comprou’ a Coopertiba, em Santa Cruz, área de Jerominho. Em seguida, com pelo menos 20 homens armados, Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, e Luciano Guinancio invadiram a filial da Rio da Prata. A resposta veio de forma inesperada: depoimentos na polícia denunciando os principais chefes da Liga, que serviram de base para as prisões meses depois.
Ainda que a geografia do transporte alternativo já tenha os gigantes definidos, o cenário está aberto a novos personagens. Mesmo sob influência do G4, pelo menos quatro ‘emergentes’ tentam ganhar espaço. Inicialmente instalada em Bonsucesso, a Cooperfiel se estendeu para a Ilha do Governador e hoje domina a região. A boa relação do presidente da cooperativa, Adamor Júnior, com César Cabeção ajuda nos negócios. Em Santa Cruz, a Cooperoeste luta para sobreviver com 150 carros. Marechal Hermes já teve a antes poderosa Coopcap, que reduziu a frota e hoje opera com apenas 120 carros. Em Guadalupe, a Cooperisrael opera com cerca de 200 veículos.
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