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16.07.09 às 11h27 > Atualizado em 16.07.09 às 11h33
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Homenagem da Cabuçu é esquecida nas comemorações do Rei Roberto Carlos

Autor do livro 'proibido' sobre o cantor fala sobre a polêmica e analisa os 50 anos de carreira do artista

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)

 

Roberto Carlos já foi enredo de escola de samba. Em 1987, a Unidos do Cabuçu levou sua história para o Sambódromo. Intitulou-a 'Roberto Carlos na Cidade da Fantasia', no enredo desenvolvido por Ilvamar Magalhães.  Não foi um desfile memorável; e para além disso, se nenhum trecho desse desfile é relembrado nas inúmeras homenagens que lhe são dedicadas em seu cinquentenário, é porque Roberto Carlos, salvo uma ou outra gravação desimportante de que ninguém se lembra, não combina com samba, tampouco com carnaval.
 
Daí que, para uma coluna dedicada a samba e carnaval, falar de Roberto Carlos exige uma explicação. Há uns três anos, em casa de amigo comum, perguntei ao escritor e pesquisador Paulo César de Araújo se ele especulava sobre a possibilidade de Roberto Carlos processá-lo quando o livro que estava escrevendo sobre o cantor fosse publicado, o que aconteceria poucos meses depois. Disse-me em resposta que sim; mas o que nem ele nem eu imaginávamos era que o livro – rico em detalhes, fundamentado em sólida pesquisa e bem escrito – tornar-se-ia objeto de um dos casos mais escandalosos de atentado à liberdade de expressão. Proibida pela justiça sua circulação, o livro teve os exemplares apreendidos e entregues a Roberto Carlos.     

Por ocasião da polêmica, que repercutiu amplamente na imprensa, publiquei uma entrevista com Paulo César de Araújo. Não para falar sobre a biografia proibida, mas sobre outra obra sua, “Eu não sou cachorro não – Música popular cafona e ditadura militar”, um monumental retrato da música brasileira nos anos 70.  Agora volto a dar-lhe a palavra. O ensejo é a comemoração dos cinquenta anos de carreira de Roberto Carlos. Desta vez, Paulo César fala sobre a decisão da justiça, revela que vai recorrer da decisão e, fazendo jus à letra de Roberto e Erasmo que diz “sua estupidez não lhe deixa ver que te amo”, afirma: “Ele é um dos gigantes da nossa música popular.”    

Como está a luta na justiça pela liberação do livro?
Em março houve o julgamento do recurso a favor da liberação do livro na 18º Vara Civil do Rio. Os desembargadores Pedro Freire Raguenet e Claudio Dellorto votaram pela permanência da proibição. Já o desembargador Jorge Luiz Habib votou pela liberação e me deu mais argumentos jurídicos para continuar a luta. Minha advogada vai recorrer agora ao STJ em Brasília.

A intensa cobertura do cinquentenário de Roberto Carlos não toca no assunto da proibição do livro. A imprensa tem medo de magoar Roberto Carlos?
Este silêncio é absoluto por parte da TV Globo, com quem o artista tem contrato de exclusividade há mais trinta anos. Os demais veículos de comunicação se deixaram levar pela data celebrativa, mas um ou outro ainda fala da proibição.  

Que foi feito dos livros que estavam estocados e foram apreendidos pela justiça? À época, chegou-se a especular que Roberto Carlos mandaria queimá-los, o que ele negou.
Os livros foram levados para um depósito do cantor em Santo André, São Paulo. O advogado dele disse que os exemplares poderiam ser reciclados ou queimados. Não sei se isto já aconteceu ou se simplesmente continuam lá corroídos pelas traças. Aliás, esta é uma questão que eu gostaria de saber e que valeria um jornalista investigativo: o que aconteceu com os livros?

Você chegou a conversar com ele depois da proibição?
Não mais conversei com ele nem com ninguém da sua assessoria.

Uma das alegações do Roberto Carlos foi que só ele poderia escrever sua história. Aliás, ele disse que está escrevendo sua autobiografia. Como um biógrafo analisa essas declarações?
Além da tentativa de reivindicar reserva de mercado, isto é uma flagrante ameaça à liberdade de expressão. Imagine se o presidente Lula ou FHC também reivindicassem que a história deles é patrimônio exclusivo, e que caberia a eles escrevê-la como e quando quisessem? Nenhum historiador poderia contar a história do Brasil. A rigor, uma história de vida não existe isoladamente, mas em relação com outras histórias. E se valer para cada um o direito privado sobre sua história, ninguém poderá escrever uma autobiografia sem pedir permissão a outros. Por exemplo: para Roberto Carlos narrar sua história (entendida como patrimônio particular) teria que pedir permissão aos herdeiros de Carlos Imperial ou de Tim Maia, no momento em que sua história cruzar com a deles. Este caso foi tão absurdo que chamou a atenção para as brechas da lei que dão respaldo a isso. O deputado Antônio Palocci apresentou no Congresso Nacional um projeto de lei favorável a publicação de biografias não-autorizadas no Brasil. Ou seja, de precedente perigosíssimo, esta minha polêmica com Roberto Carlos poderá resultar numa mudança da lei que favoreça a liberdade de expressão e o direito à informação. 

O que Roberto Carlos representa para a música brasileira?
Ele é um dos gigantes da nossa música popular, pois contribuiu para mudar o rumo dos acontecimentos. Foi o primeiro grande ídolo pop do país e ajudou a deflagrar uma revolução nos costumes. Se hoje as meninas usam mini-saias e fazem sexo com seus namorados, parte disso se deve a Roberto Carlos; se hoje a guitarra e o baixo elétrico são instrumentos comuns na música brasileira, parte disso se deve também a Roberto Carlos. Ele foi um excelente tradutor de um estilo internacional de música popular e soube deglutir isto e contribuir com algo mais. Assim como a bossa nova foi o modo brasileiro de absorver a influência do jazz, Roberto adaptou o rock ao nosso estilo e sentimento, influenciando a nossa música que veio depois, inclusive o tropicalismo. E, além disso, há o compositor, que em parceria com Erasmo criou um punhado de canções que estão na memória coletiva nacional: “Detalhes”, “Emoções”, “Sua Estupidez”, “Café da manhã”, “Jesus Cristo”, “Amigo”, “Nossa Senhora”, “Como é grande o meu amor por você” e várias outras.

 
 
 

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