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27.07.09 às 10h33 > Atualizado em 27.07.09 às 13h26
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Jaime Cezário analisa enredos de 2010 e diz que Sapucaí verá duelo de titãs

Jaime Cezário
(Colunista de O Dia na Folia)


O carnaval de 2010 já começou a palpitar mais forte no coração dos amantes foliões de nossas escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Todos os enredos foram anunciados pelos carnavalescos e pelas comissões de carnaval, e isso nos dá um contorno muito interessante e variado daquilo que vai ser apresentado na Passarela do Samba. Acredito atéque o próximo carnaval pode reinaugurar uma nova fase de enredos que façam recuperar a magia e o encantamento de carnavais das décadas passadas. Para começar a série de análise, seguem os comentários sobre os temas do Salgueiro e da Beija-Flor.

De início, registro a minha expectativa para um duelo à parte, um verdadeiro encontro de Titãs do mundo do samba entre duas escolas que desfilarão no mesmo dia, uma seguida da outra. Falo da grande campeã de 2010, a Acadêmicos do Salgueiro, e sua vice-campeã, a Beija-Flor de Nilópolis. O desfile de domingo de carnaval está parecendo realmente como um filme eletrizante que deixa os momentos de maior expectativa para o final. Este duelo à parte com certeza causará frisson ao público presente, pois representa uma espécie de tira-teima de quem realmente foi a melhor no ano anterior. E, como em todo duelo, as armas usadas estarão ali representadas por seus enredos, seus sambas e o que seus carnavalescos poderão tirar de mágico e magistral em fantasias e alegorias.

Salgueiro: 'Enredo é oportuno e necessário aos dias de hoje'


A primeira a pisar na passarela será a vermelha e branca da Tijuca. O Salgueiro prepara um enredo por demais oportuno e necessário aos dias de hoje: 'os livros'. O livro, este objeto mágico que nos leva a viagens incríveis sem sair do lugar, através de suas páginas recheadas de histórias concebidas por escritores fantásticos, anda em baixa no atual momento de nossa sociedade globalizada. O livro anda sendo para grande maioria um objeto de ornamentação de estantes e prateleiras e não mais o fundamento básico para adquirir cultura, pesquisa e informação. Na nossa sociedade globalizada, os livros perderam a vez para a internet e para a televisão.

As ferramentas de pesquisa da internet hoje fazem parte do universo de muitos que encontram ali a rapidez desejada para obter informações, mas que nem sempre está correta. Com o enredo: 'Histórias Sem Fim...',a escola tijucana pretende mostrar a importância desse assombroso instrumento de informação criado pelo homem que se tornou uma extensão da memória e da imaginação.

Através da bela sinopse criada pelo carnavalesco Renato Lage, veremos um enredo começando na Alemanha, no sec. XV, com Gutemberg que faz aperfeiçoamento na tipografia e impressão e edita a primeira Bíblia impressa. Serão lembradasoutras ferramentas importantes que também deixaram registros desde a antiguidade, como os papiros e pergaminhos até os manuscritos copiados a mão pelos monges medievais.

Antigas civilizações, heróis, mitos e deuses

A partir daí se abre um portal mágico, iniciando-seuma viagem no tempo e nos espaço, onde passarão diante dos nossos olhos antigas civilizações com seus heróis, mitos e deuses. Dom Quixote, reis e rainhas, tramas amorosas da época medieval. A literatura luso-brasileira será também mostrada através de romances e poesias onde será visto o índio apaixonado por bela portuguesa, a dramática travessia dos navios negreiros e os nossos heróis mestiços e populares. É o momento brasileiro do enredo, onde provavelmente veremos o Salgueiro mais Salgueiro e menos o high-tech de Renato Lage.

O universo infantil do mundo do 'era uma vez' será visitado, assim como o suspense e a ficção. O grande final vai exaltar a filosofia e os caminhos do autoconhecimento, o lado esotérico do enredo onde questionará os caminhos a seguir nesse futuro que estar ainda para ser escrito, nascendo assim, quem sabe, uma obra imortal nessas muitas histórias sem fim. O Salgueiro, com esse enredo, pretende arrebatar a Sapucaí, conquistando-a não só pelo visual das fantasias e alegorias, mas também pelo fácil entendimento do que está sendo abordado; e se for somado a tudo issoum belo samba, talvez possamos assistir a uma química eletrizante entre escola, enredo, samba e público. Uma química para fazer arrepiar.

Beija-Flor: 'Enredo não é oportunista'

A próxima escola a se apresentar na passarela é ela, a Deusa da Passarela, que sempre maravilhosa e soberana é aguardada ansiosa pelas legiões de fãs apaixonados, a Beija-Flor de Nilópolis. Este ano a Beija-Flor trás um enredo de homenagem ao cinquentenário de nossa capital federal. O enredo sobre Brasília pode parecer oportunista à primeira vista, coisa que não devemos considerar. A nossa capital federal tem cacife para receber está merecimento, e que ainda vai colaborar com o carnaval da escola com um belo patrocínio.

Na batuta do Mestre Laíla e com a maestria do carnavalesco Alexandre Louzada e sua comissão de carnaval, devemos acreditar que veremos um belíssimo carnaval técnico e de grande visual plástico que gabarite a escola na disputa do primeiro lugar. Lendo a sinopse, que por sinal foi muito bem escrita, vejo que a escola vai viajar inicialmente no imaginário daslendas indígenas da região, pegando carona em lendas maias, astecas e incas. Isso possibilitará a associação da criação da nossa capital com a mística que envolve a região, desde visitas de extraterrestres até as previsões do padre salesiano italiano Dom Bosco, que previu em 1883, o 'surgimento de uma nova civilização, entre os paralelos 15 e 20, partindo do ponto onde se formava um lago'.

A sinopse faz uma comparação de Brasília com Akhetaton, atual Tel El Amarna, que foi a cidade construída para ser a nova capital do Antigo Egito, no quarto ano do reinado do faraó Amenhotep IV. Resolvendo abandonar a capital Tebas, construiu a nova capital Akhet-Aton, que significa “Horizonte de Aton”, não vejo nenhum paralelo entre as duas, até porque a cidade egípcia só durou 13 anos e foi destruída pela ira do povo devido ao caos que este faraó causou na estrutura econômica, social e religiosa do seu reino. Vejo um paralelo sim, com a criação da cidade de Versalhes pelo rei francês Luis XIV. Versalhes foi a sede do poder político, a partir de 1682 a 1789, antes de se tornar o berço da Revolução.

Conotação política


Esta idéia de tirar a capital dos grandes centros era algo que as monarquias européias tentavam implantar, justamente para afastar a população das decisões políticas e não poderem interferir com manifestações e protestos. Num paralelo ao momento atual, imagine esses inúmeros escândalos políticos que estouram em Brasília, se por acaso, fosse a capital ainda aqui no Rio de Janeiro, o povo já estaria protestando nas ruas de todos os jeitos e formas, mas como acontece lá no meio do Brasil, passamos assistir tudo isso de forma perplexa pela tv, rádio, jornal e Internet, impedindo a grande massa de manifestar sua contrariedade.

Foi baseado nesta idéia que em 09 de junho de 1823, José Bonifácio apresenta à Constituinte do Império, projeto para a mudança da capital e sugere o nome de Brasília para a nova cidade, atitude fácil de compreensão, pois o Brasil acabava se fazer independente pelas mãos de D. Pedro I, e vivia-se uma época de grande inquietação política. Mas quem acabou criando a nova capital foi o presidente Juscelino Kubitschek e sua inauguração foi em 21 de abril de 1960.

Desfile digno de campeonato

Um enredo que exaltará Brasília que é nossa capital federal, que foi tombada pela Unesco como bem cultural da humanidade, cujos os projetos arquitetônicos e urbanísticos tem a assinatura de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, que completa meio século de existência, localizada numa região que possui uma mística esotérica norteadas de boas histórias é sem sombra de dúvidas um ótimo enredo, ainda mais trazido pela Beija-Flor, que sabe apresentar com maestria enredos dessa categoria.

Talvez alguns olhem este enredo com dúvidas, devido à enxurrada de outros enredos já apresentados na Sapucaí falando de cidades e estados; a crítica é algo fácil de compreender, mas não podemos negar que é um enredo oportuno e merecedor desta grande homenagem e se for presenteado com um belíssimo samba, a altura da sinopse apresentada, com certeza teremos um desfile digno de campeonato. Nas próximas colunas, os demais enredos serão analisados.

 
 
 

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