Memória da Folia: Dona História, Castro Alves e Noel Rosa
Luis Carlos Magalhães
(Especial para o Dia na Folia)
Eu mal começava meu texto sobre o enredo da Vila Isabel quando o telefone tocou:
Trrrrriiiiimmmmmmmmm !!!!
_ Alô, pois não, dá pra me ligar depois? Estou trabalhando agora...
_ Alô. Alô.... Atende aí. Aqui é a História! Não tenho conseguido contato com você...
_ Alô, D. História, que maravilha. Claro que atendo...
_ Pôxa, você sumiu, mudou de site e nem me comunicou. O que houve?
_ Desculpe, D.História. Um milhão de desculpas, eu ainda estou de mudança. Mas eu não tenho seu e-mail; aliás, nem sei se a senhora usa essas coisas.
_Claro que não, nem preciso; imagine se a história precisasse dessas coisas para acompanhar a evolução da humanidade?
_ Mas e aí, como foi que a Senhora me achou novamente?
_ Foi por acaso. Eu estava procurando notícias sobre o enredo da Vila e, encontrei alguém que estava começando a escrever. E aí , para minha surpresa, era você. Fiquei contente.
_ Caramba, que maravilha é saber que alguém como a Senhora tenha ficado feliz em me reencontrar.
_ Menos, garoto... menos. Eu disse que fiquei contente, mas foi por ter encontrado o que procurava: saber sobre Noel e a Vila... Mas pode deixar assim mesmo, vá lá. Digamos que foi bom tê-lo reencontrado, pensei que você havia desistido, ou então que o Raphael é que havia desistido de você.
_ Pô, D. História, desculpe o mico mas eu estou mesmo muito feliz de falar com a Senhora mais uma vez. Mas quer dizer que este ano a Senhora é Vila?
_ Olha! Não começa com suas insinuações que eu vou embora.
_ Ok...Ok...digamos que neste próximo carnaval a Senhora está interessada na Vila? É isto?
_ É, meu filho. Neste carnaval vou torcer muito para a Vila. Minha expectativa é que seja o mais bonito desfile deste século, tem tudo para ser assim.
_ A Senhora acha mesmo? Há controvérsias...
_ Acho mesmo, meu filho. A começar pelo belíssimo desfile do ano passado, aquilo lá foi maravilhoso. A escola estava um deslumbramento, os passistas, as baianas. O Tinga parecia que ia estourar de tanto cantar; o Julinho e a Ruth pareciam voar pelos vitrais do Teatro e os meninos, Alex e Paulo Barros, atingiram o melhor momento de suas carreiras.
_ É! A escola perdeu em bateria e em samba enredo.
_ Você sabe que não entendo tecnicamente de baterias, mas para mim estava muito bom. Quanto ao samba, você bem sabe que não é esse o tipo de samba que me encanta. Por outro lado, acho que houve muito rigor no julgamento. Outros sambas mereceram julgamentos muito mais complacentes. Mesmo não gostando daquele samba, acho que a Vila poderia até ter vencido, foi tão bem quanto o Salgueiro.
_ E por que a Senhora está "declarando seu voto", manifestando sua preferência tão cedo? A Senhora nunca fez isto antes...
_ Mas agora, neste ano é diferente... é um momento super especial que espero inesquecível para mim e para todos.
_ Dá para explicar?
_ Bem, eu vou tentar mesmo sabendo da sua dificuldade em raciocinar historicamente, e eu relevo isto, é claro. Eu sei que para vocês que são mortais, que têm uma vida tão efêmera, é muito difícil pensar como eu que estou "na janela" há tantos séculos. É assim como se eu estivesse há séculos esperando isto acontecer. Eu não sou humana, mas também tenho emoções. Em toda história da humanidade, em todos os cantos do mundo eu tenho meus personagens preferidos.
_ Eu bem sei disto. Foi em razão disto que da última vez achei que a Senhora era Portelense. A senhora ficou brava, lembra?
_ Eu fiquei brava porque você não entendeu e ficou insinuando e querendo desvendar minha intimidade. O que eu disse é que na civilização do samba a Portela era a Grécia.
_ Depois eu entendi. Demorei mas entendi. A Senhora não estava dizendo que era a maior nem era a melhor. Que a Portela por sua magnitude, por sua majestade, pelo comportamento de seus líderes teve um papel de formatação e sustentação em um momento em que as escolas se afirmavam como grupamento cultural.
_ Ah! Tô vendo que você agora entendeu...
_ Mas retomando o fio da meada, que personagens são estes que a senhora tanto admira?
_ Bem, para começar: Castro Alves, Noel Rosa, pela ordem de nascimento.
_ Mas a Senhora estabelece alguma relação entre eles?
_ Claro que há! São dois gênios da raça. Ambos morreram ainda quase meninos, no auge de suas paixões. Foram imortalizados em tempos sem mídia; com Noel mal havia rádio, com Castro Alves nem isto havia. Ambos vítimas de suas próprias paixões e da tuberculose. Duas aparições reconhecidamente notáveis nos cenários culturais em que viveram. Ambos tanto e tanto queriam ter continuado vivendo suas paixões e suas épocas.
_ Dona História, estou começando a achar que Castro Alves nasceu em Vila Isabel, na rua do Petisco, ao lado do bar do Costa.
_ Parece um encontro marcado no tempo, o poeta dos escravos e um bairro que parece querer eternizar a luta abolicionista no nome de cada uma de suas ruas. Ah! Meu filho... nem me fala de Vila Isabel, que saudade daqueles carnavais...
_ D.História! A Senhora já brincou o carnaval em Vila Isabel? Não Acredito!
_ Ah! O Boulevard; tantas serpentinas, tantos confetes, aquelas batalhas na Rua Dona Zulmira, Dona Luiza que antecediam o carnaval. Cada vila tinha seu bloco que depois, vitoriosos, desfilavam no Boulevard. Ah! Os bondes ... quanta alegria. Foi ali que comecei a amar o Rio, o Brasil, o carnaval e o povo brasileiro.
_ Puxa, mesmo por telefone estou sentido a Senhora emocionada.
_ Não havia escolas de samba ainda. Eu ficava ali vendo aquela alegria toda como se estivesse em uma daquelas cadeiras que as famílias espalhavam pelas calçadas.
_ Agora estou entendendo D. História, porque a Senhora vai torcer tanto pela Vila.
_ É um momento muito importante para mim porque raramente consigo juntar minha missão, que é a história, e aquilo que acho mais bonito, que são as escolas de samba contando a história do povo: é o encontro marcado na avenida do povo brasileiro com sua própria história. É o momento cultural mais bonito, mais rico que vivi em todos esses longos milênios que testemunhei.
_ Como é bom ouvir isto, D. História...
_ Sabe meu filho, eu tive medo de que isto não viesse a acontecer, sabia?
_ Como assim, D.História?
_ Oh! Então você não lembra o centenário dos dois maiorais do samba? Nem no centenário do Paulo da Portela nem no centenário do Cartola suas escolas os escolheram para tema?
_ Mas a justificativa é que Cartola foi homenageado em 1983, com "Verde Que Te Quero Rosa!" e Paulo em 1984 com "Contos de Areia". Até mesmo Noel foi homenageado em 1982, com "Noel Rosa e os Poetas das Batalhas do Boulevard".
_ Mas se é assim foram homenagens equivocadas, tão próximas que foram dos centenários. Com Noel vai ser diferente, tomara que Paulo e Cartola estejam lá no desfile com ele.
_ E o samba-enredo D. História? Estão dizendo que a escola vai encomendar o samba diretamente ao Martinho, para sua alegria. A Senhora já me disse o quanto o admira.
_ Olha meu filho, eu lhe digo que não estou gostando nada dessa história por maior que seja minha admiração pelo Zé Ferreira. O samba ainda nem está pronto, mas eu já lhe digo: não ouvi e não gostei.
_ A Senhora não acha que a escola tem esse direito? Não pode querer homenagear seu maior compositor?
_ Acho até que pode se isto fosse representar uma exceção; uma homenagem ao vulto vivo maior do bairro que homenageia seu vulto maior. Você pode até argumentar que em uma peça de teatro, um filme, a produção encomenda a trilha sonora a um compositor. Foi assim em "Dona Flor e seus Dois Maridos". A produção encomendou a trilha sonora ao Chico Buarque, só para dar um exemplo inesquecível, certo?
_ Certo.
_ Mas a verdade é que o carnaval está perdendo tanto a identidade que isto corre o sério risco de virar moda e marcar o fim de um dos pilares das escolas que é sua ala de compositores. Esses artistas já tão prejudicados por enredos malucos e sinopses mirabolantes.
_ Então como a Senhora acha que deve ser?
_ Ah! Eu acho ... acho que... quer dizer... eu gostaria....
_ fala D. História!
_ Não deixa pra lá... é melhor deixar pra lá...
_ Pô, D. História, fala, pode falar ...
_ Não, não é que eu ache, que eu queira que seja assim... é o que eu gostaria que acontecesse...
_ Ihhh!!!! Será que é tanta maluquice que a Senhora não quer falar?
_ É isto mesmo, muita maluquice. Eu queria, mas queria mesmo... queria muito que todo mundo esquecesse o desfile de 1994, lembra?: Muito Prazer Eu Sou A Vila.
_ Esquecer como? Para que?
_ Sim, isto mesmo; como se aquele desfile nunca tivesse existido.
_ E aí?
_ E aí que a Vila desfilasse com aquele samba maravilhoso. Um samba que homenagearia Noel em seu centenário fazendo a mais rica e primorosa descrição que um samba pode fazer de suas ruas, de seus heróis, de suas noites e de seus carnavais; o bairro que foi por ele imortalizado e que é considerado por Sérgio Cabral o mais carioca entre todos os outros
_ Pode crer!
_ Um bairro que, enfim, é a cara dele tanto como ele é a cara do bairro.
_ Mas D. História, e o Castro Alves?
_ Castro Alves? Bem, Castro Alves só em 2047, bi-centenário, a Vila não vai me decepcionar...
SUGESTÃO PARA OUVIR:
Samba: Muito Prazer, Isabel (...) Mas Pode Me Chamar de Vila
Carnaval de 1994
Autores: Evandro Bocão, André Diniz e Bombril
Voz: Gera e Jorge Tropical
* Luis Carlos Magalhães é colunista do site Carnavalesco. A coluna acima foi publicada originalmente no dia 2/06/2009
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