Memória da Folia: O xixi dos antigos carnavais
Luis Carlos Magalhães
(Especial para o Dia na Folia)
Vendo e ouvindo toda essa polêmica em torno dos xixis dos blocos de carnaval da cidade, fico me perguntando: mudou a composição bioquímica do xixi ou mudamos nós?
Nunca é demais repetir que para a história e para a vocação foliã da cidade, para seu carnaval, nada há de mais importante, animador, representativo e comemorável do que a forte e cada vez maior presença de blocos nas ruas do Rio de Janeiro.
Em recente encontro a entidade que congrega os mais badalados blocos da cidade, zona sul e centro - a Sebastiana - organizou importante debate com a presença da Secretária de Cultura, do Presidente da RioTur e do Prefeito da cidade.
Os blocos do Rio de Janeiro experimentaram na década de 1920 o que podemos chamar de sua primeira geração: Arengueiros, Baianinhas de Oswaldo Cruz, inúmeros outros de cada morro das cidade e que tiveram depois a suprema função de se transformarem em nossas escolas de samba.
O "Arengueiros" deu na Mangueira, O "Baianinhas" deu na Portela e assim por diante.
A segunda geração chega lá pelos idos da virada da década dos anos 1960/1970 quando as avenidas centrais da cidade se tornavam estreitas para tantos índios do "Cacique" e para tantas onças do "Bafo". Depois para os "Bohemios" que vinham de Irajá.
Se os da primeira geração tiveram fim glorioso o mesmo não podemos dizer daqueles da segunda geração. Se é verdade que viveram dias de glórias hoje resistem, ou melhor, sobrevivem do heroísmo de seus comandantes, sobretudo Bira Presidente, do Cacique, e Capilé, do Bafo da Onça. O "Bohemios" deu uma morridinha de dez anos e depois voltou.
Dias de glória em que a televisão não parecia ser uma alternativa mesmo para o folião mais acomodado. Os desfiles das escolas mal começavam a atrair a classe media e as emissoras de TV.
O carnaval, meu irmão, era na rua.
Ao contrário do que ocorre atualmente, com os blocos de terceira geração, os sambas do Cacique e do Bafo saíam de suas quadras, em Ramos e no Catumbi, incendiavam seu colossais desfiles pela Rio Branco e ainda invadiam os bailes das cidades, mesmo os mais requintados.
O Bafo foi o pioneiro, e isso faz tanto tempo que nem sei. Só me lembro que ninguém da minha rua dava muita pelota para a televisão. Naquele tempo, meu irmão, as crianças brincavam era na rua.
Já mais para o finzinho da tarde havia um programa que ninguém, jovens e adolescentes, perdia: "Musicas na Passarela", na Rádio Tamoyo.
Era assim: de 16 hs. até 17 hs. desfilavam alternadamente músicas brasileiras e estrangeiras. Cada uma era identificada por uma cor: música azul, música rosa, música ciclâmen, esta última até hoje não consegui identificar.
Às 17 hs. parava tudo para que as campeãs do dia fossem apuradas pelos telefonemas-votos que recebiam nos trinta minutos seguintes. Das 17, 30 às 18 hs. desfilavam as preferidas. Quem gostava de música - tocava muitíssimo pouco samba - ficava "colado".
Ali foi a primeira vez que um samba "de morro" furou o bloqueio daquele programa. Os poucos sambas que tocavam já eram estilizados, com arranjos com alguma sofisticação e com intérpretes.
Naquele dia, não.
Era um samba de morro mesmo. Contava a história de um "malandro" que queria "encontrar alguém", mudar de vida, deixar a malandragem. Capilé, Presidente do bafo, conta hoje que este samba antecede a fundação do bloco. Era um samba que já era muito cantado ali pelo Catumbi e que depois foi com seu autor para o Bafo:
Quero ser feliz
Construir um lar
Mas o destino não quis.
Quero ter alguém
Que me compreenda bem
E que me faça um dia feliz.
Teremos crianças
Seremos carinhosos
Nas horas de alegria e da dor
Eu hei de ser um chefe de família exemplar
Amor, amor, amor.
Seu autor foi um moreno conhecido por 'Mistura' e o intérprete foi Oswaldo Nunes ambos de perfil muito distante daqueles autores e cantores que freqüentavam o "Músicas na Passarela". Neste mesmo samba já chamavam a atenção daqueles que achavam ser isto impossível:
Não tem razão
Quem assim diz
Que o malandro não casa
Que o malandro não é feliz..
Depois até Elizeth gravou, ela que era a mulata maior. Beth Carvalho também gravou. Muito antes delas, a partir da gravação de Oswaldo Nunes e do "Músicas na Passarela", o Bafo se torna conhecido do grande público e seus sambas passam a ser cantados em outra escala, culminando com o samba Ôba , do mesmo Oswaldo que aí, já para todo o país pelo mesmo programa, anunciava:
Esse é o Bafo da Onça
Que eu trago guardado no meu coração
É o bom, é o bom, é o bom
Nessa onda que eu vou (...)
Assim foi o Cacique de Ramos.
Entraram em nossas casas, em nossos coretos, em nossos bailes sambas inesquecíveis como Água na Boca, aquele outro do Noca que deixava todos "Caciqueando na avenida". Ou Vou festejar, do Jorge Aragão, Chinelo Novo, de João nogueira e Niltinho Tristeza e tantos outros.
Era universo da folia, povoado ainda, e não menos, pelo lendário Chave de Ouro do Engenho de Dentro, pelo Bola Preta e por tantos outros dos bairros. Na minha memória de menino ficaram o "Coração das Meninas", Canarinho das Laranjeiras, Vai se quiser, Vai Quem Quer, Foliões de Botafogo e Arranco.
Até que um dia passou um furacão.
Podem dizer o que quiserem, mas para mim foi a televisão.
É claro que a abertura do Túnel Santa Bárbara acertou em cheio a alma do Bafo. Dividiu o bairro do Catumbi em dois e, além disto, tornou muito difícil para o bloco atravessar a pista de alta velocidade.
Eu vivi bem este momento.
Era um tempo em que era muito difícil assistir o desfile, No meu caso, em termos de escolas de samba, o carnaval acabava no último ensaio, o ensaio geral. Para se comprar ingresso era preciso dose inimaginável de paciência e resignação. Desfiles que se alongavam até tarde do dia seguinte sob sol impiedoso de verão.
Com a chegada da TV, muita gente boa, folião da antiga, ia para casa assistir sua escola tomando cervejinha. Nada contra, era muito bom, pura novidade, mas os blocos minguavam.
Depois veio o Clube do samba, da turma do João Nogueira e a banda de Ipanema. no embalo retumbante da aura de humor e resistência trazida pelo jornal o Pasquim .
Filhos desse clima , dessa atmosfera, surge a nova geração de blocos a partir do Simpatia è Quase Amor, Barbas, e Suvaco do Cristo.
Agora, todos sabemos: a impressão que fica é a de que a cada minuto, a cada esquina um bloco. É assim por toda a cidade, mas a avalanche vem da zona sul carioca dando às autoridades públicas o que pensar, a cada ano.
Sendo a parte da cidade mais adensada não é de estranhar que parta dali a maior reação. Uns reclamam do trânsito, outros do barulho e outros do xixi.
Considerando que o bloco "anda" e os banheiros "não andam", este é o mais difícil problema a resolver. E aí me vem a lembrança de situação semelhante vivida por quem, como minha avó, que morava em uma rua com feira livre semanal.
Pois saibam vocês aí que sou desse tempo. Dia de feira era absolutamente insuportável. Lixo de toda sorte mais aquele cheiro de peixe inconfundível. Pois hoje podemos tranquilamente passar ou morar em uma rua com feira, com atropelos mínimos. A Comlurb passa por ali, lava, joga alguma coisa química e ...tá pronto: lavou, tá limpo.
Será que dá para fazer isto com os blocos?
Tá certo que ninguém fazia xixi na feira, mas também ninguém limpa peixe enquanto o bloco desfila. O que quero dizer é que só acredito em solução química, com muito jato d'água e muitíssima boa vontade municipal.
Mas e quanto aos antigos carnavais?
Como era o xixi nos antigos carnavais? Fico lembrando minha recente leitura do tão saboroso quanto surpreendente "Inventando Carnavais" de Felipe Ferreira que nos faz viajar ao tempo em que a folia carioca era originalissimamente inventada.
Coisas de fim de século. O Entrudo, então senhor absoluto de nossas acanhadas ruas, era combatido pela elite carioca que queria seu carnaval à moda parisiense: bailes de máscara e passeios de préstitos, coisa finíssima.
Em 1855 a cidade assistia o primeiro desses passeios das Sociedades dançantes da época: O Congresso das Sumidades Carnavalescas saia dos salões e tomava as ruas.
E assim, com a força policial a seu favor, as "Sociedades" empurravam o "entrudo" para a periferia do centro colonial e desfilava soberana.
Soberana? Será? Que nada!
Os desfiles eram seguidos de bailes que começavam à meia -noite. Na segunda feira "ninguém era de ferro" e descansava. Enquanto isto a galera voltava ás ruas inventando seu próprio carnaval, inventando novas formas de brincar não tanto à entrudo, não tanto à "Grandes Sociedades".
Em seus desfiles grandiosos os chamados préstitos organizavam roteiros selecionando ruas por onde passar, deixando outras e outras, inclusive na periferia do centro, para que cada uma tivesse seu espaço de exibição.
Segundo Felipe, cada sociedade partia de sua sede e desfilava até um teatro onde os sócios passavam a se divertir nos bailes. O roteiro era de livre escolha e só era alterado pelo alto grau de interesse demonstrado pelos moradores em receber os desfiles em suas ruas. Era comum naqueles dias moradores alugarem as janelas e as sacadas coloniais de suas casas como se fossem camarotes privilegiados com belíssima vista para o desfile.
Era assim que ruas inteiras do velho centro eram decoradas para atrair os préstitos com custos rateados entre moradores e comerciantes. Arcos superiores a 35 palmos eram exigidos para a boa passagem dos carros triunfantes. Na largura outros tantos.
E janelas eram anunciadas no Jornal do Comércio daquele dia 9 de fevereiro de 1875, conta Felipe Ferreira. Pode ? E não para por aí. Com o passar do tempo o simples desfile continuado não bastava. Era exigida uma permanência naquele local propiciando homenagens as mais diversas e criativas.
No livro são selecionados e mostrados dez roteiros.
Mas e o xixi?
Que mistério, ou que composição tinham os xixis daqueles carnavais que não incomodavam os moradores?
Por que razão, ao invés de evitar e até execrar os blocos como hoje, os moradores da cidade procuravam atraí-los para perto e homenageá-los. Mais do que isto, disputá-los a cada carnaval, a cada terça ou quinta a partir das dezessete ou dezoito horas?
Mudou o xixi ou mudamos nós? Com a palavra a Sebastiana ...
Sugestão para ouvira:
Samba ama - Samba ama
Samba: Amor, amor, amor
Autor: Mistura
Bloco: Bafo da Onça
Voz: Marly
Disco: Bafo da Onça- Ontem e Hoje
Referência bibliográfica:
Inventando Carnavais; o surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas. Felipe Ferreira; Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.
* Luis Carlos Magalhães é colunista do site Carnavalesco. A coluna acima foi publicada originalmente no dia 21/05/2009
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