Na mira de milicianos, em busca de socorro
Ameaçada pela Liga da Justiça, testemunha relata chacina e pede ajuda para não morrer
POR LESLIE LEITÃO, RIO DE JANEIRO
Rio - No pátio de uma delegacia da Zona Norte do Rio, V. chega assustado. Boné encravado na cabeça, ele olha para os lados a todo instante. Nem ali dentro se sente seguro. São 15h de quinta-feira e a principal testemunha de uma das maiores chacinas cometidas pela Liga da Justiça, milícia que atua na Zona Oeste, enfim, aceita falar sobre o que aconteceu em 19 de agosto de 2008.

V. presenciou morte de sete moradores da Favela do Barbante, em Campo Grande, e passou a viver escondido, para fugir de paramilitares. Foto Severino Silva/Agência O DIA
Seu depoimento havia sido tomado uma única vez, na 35ª DP (Campo Grande), quatro dias após a matança. E foi com base nele que a Justiça decretou a prisão de parte da quadrilha. O que V. não imaginava é que sua identidade havia sido descoberta pelos paramilitares. Disso ele só teve noção — e certeza — na terça-feira à noite, quando seu pai e três parentes sumiram, deixando apenas rastros de sangue na casa.
No dia da chacina, V. passava de bicicleta pela Rua Esmeralda quando viu um dos chefes da milícia da Favela do Barbante, em Campo Grande, conhecido como Reinaldo Sprinter, executar o comerciante Ariovaldo da Silva Nunes. Alguns metros adiante, outro assassinato. No total, sete pessoas foram mortas: “Fugi da favela na mesma hora. E não contei para ninguém o que tinha acontecido”, lembrou.
Quatro dias depois, V. resolveu relatar tudo à polícia. Os depoimentos dele e do primo, Leonardo Baring Rodrigues, desmentiram a primeira versão levantada pela polícia, de que se tratava de uma tentativa de invasão do Comando Vermelho: “Eles resolveram matar as pessoas sem motivo para culpar o tráfico. Com isso, queriam impor a aceitação da milícia dentro do Barbante”.
Da delegacia, V. e o primo foram encaminhados, por intermédio do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias, ao Ministério Público Federal, que os incluiu no Programa de Proteção à Testemunha. Após três semanas, eles desistiram.
Depois de um tempo no anonimato, V. voltou a encarar a morte. “Não tinha como alguém saber meus dados. Não contei a ninguém. Nem meu pai sabia que eu tinha testemunhado a chacina. Agora todos dizem que sou o culpado pelo que aconteceu, que traí minha família”, desabafou o rapaz, pai de quatro filhos. “Confiei na Justiça, agora alguém precisa me ajudar. Já até avisei à família da outra testemunha sobre isso”, completou, referindo-se a Leonardo. Uma hora após a entrevista, ele soube que Leo tinha acabado de ser executado no endereço em que acreditava estar seguro, em Cosmos.
Estrutura precária para proteção
V. diz ter abandonado o Programa de Proteção à Testemunha por falta de confiança e por causa da péssima estrutura. “Além da saudade dos meus filhos, tivemos problemas onde ficamos. A mulher que tomava conta de lá era meio racista e sabia que éramos testemunhas. Uma vez ela disse: ‘Não adianta, neguinho, que vocês não têm pra onde ir mesmo’”, lembrou.
Segundo ele, no local não havia água potável nem remédios. A testemunha contou que, nesse período, só recebeu uma vez R$ 30 de um funcionário do programa, para comprar material de higiene pessoal. Sexta-feira, V. voltou ao Programa de Proteção à Testemunha. “Agora não tenho outra opção, senão vou morrer”.
Core escolta irmão de vítima da Liga
Eram 11h13 quando dois carros da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) chegaram ao Cemitério de Campo Grande, ontem. Cinco agentes e o delegado Fábio Barucki traziam o irmão de Leonardo, que escapou da emboscada da última quinta-feira. Com um colete à prova de balas, ele teve o último pedido atendido, de enterrar o irmão, antes de ingressar no Programa de Proteção a Testemunhas.
A polícia tinha a informação de que um Polo preto suspeito estava rondando o cemitério e revistou um veículo semelhante quando passou.
L. participou do velório com apenas 34 pessoas. Com medo, muitos amigos não foram ao cemitério. “Eles calaram a voz dele, mas não vão calar a minha. Isso vai ter justiça”, repetia V., que foi escoltado pela tropa de elite da Polícia Civil depois de ser ameaçado pela milícia, que queria matá-lo no funeral.
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