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14.08.09 às 02h56
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Um investimento para poucos

Fundo criado pela Associação Solidariedade Justiça e Paz, do ex-arcebispo e do ex-ecônomo da Arquidiocese, e que serviria para financiar obras sociais, teve apenas dois cotistas em 22 meses. Aplicação mínima era de R$ 300 mil

POR THIAGO PRADO, RIO DE JANEIRO

Rio - O fundo de investimentos da Associação Solidariedade Justiça e Paz (ASJP) — criado pelo ex-arcebispo do Rio Dom Eusébio Scheid e o padre Edvino Steckel, ex-ecônomo da entidade — só teve dois cotistas desde a sua criação, em junho de 2007. Com o compromisso de financiar obras sociais, o fundo, que chegou a ter R$ 2,6 milhões de patrimônio, foi extinto em maio após a dupla de investidores resgatar o valor em três saques nos últimos nove meses. Ontem, o padre Edvino foi procurado por O DIA na Paróquia Nossa Senhora do Parto, no Centro, mas preferiu não se pronunciar.

Há dois anos, a ASJP criou o fundo, administrado pela Sul América, afirmando que 60% da taxa de administração (equivalente a 1% das aplicações) seriam destinados a ações de caridade. Outra forma de arrecadação da associação advém de um cartão de crédito lançado em dezembro de 2006 em parceria com o Bradesco: 30% da anuidade também iriam para projetos sociais.

Para prestar contas, a associação criou um site, mas nunca publicou qualquer relatório das suas atividades. A troca de comando na Arquidiocese do Rio, em abril, e as revelações, em maio, de gastança de recursos da entidade coincidiram com o fechamento do fundo e a saída do ar da página na Internet. Atualmente, o novo arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, não reconhece a ASJP, mas a associação de Dom Eusébio e Edvino continua existindo perante a Receita Federal. Os cartões de crédito dos fiéis também seguem ativos, apesar de não haver mais propaganda em missas nas paróquias.

O regulamento para os cotistas do fundo mostra que não era qualquer fiel que poderia aplicar recursos. O investimento inicial mínimo era de R$ 300 mil. Apenas duas pessoas mostraram interesse na aplicação em 22 meses. O primeiro aporte feito foi de R$ 350 mil em 12 de de julho de 2007. Quase um ano depois — em 30 de junho de 2008 —, um segundo cotista entrou na sociedade, com R$ 2,3 milhões. Por ser de renda fixa, a rentabilidade para a dupla de cotistas foi sempre conservadora. Em agosto de 2008, começaram os saques. No dia 27, um dos investidores retirou R$ 2 milhões. Em 19 de dezembro do ano passado, a retirada foi de R$ 349.519,46. O fundo foi zerado no último dia 22 de maio com o saque de R$ 390.426,34.

A Comissão de Valores Mobiliários e a Sul América afirmaram que não têm como informar se o dinheiro sacado foi aplicado em outros fundos.

Apartamento de 400 m² e sofás de grife no gabinete

O DIA já mostrou que Edvino, quando era ecônomo da Arquidiocese, comprou um apartamento de 400 m² no Flamengo por R$ 2,2 milhões. O imóvel, que seria usado por Dom Eusébio, deverá ser vendido pela Mitra, atual proprietária. Para seu gabinete, Edvino comprou móveis de grife: dois sofás, no valor de R$ 21.300 e R$ 17.200, e duas cadeiras, por R$ 6.800 cada. Edvino também usava carro Jetta Sedan, cujo modelo novo está avaliado em cerca de R$ 85 mil.

O DIA também mostrou que a ASJP faturou milhares de reais em 2007 com doações e a anuidade do cartão de crédito. Em 2007, passaram pelo cofre da associação R$ 466 mil e acumulou-se um patrimônio de R$ 400 mil. O salto financeiro em relação ao ano anterior, quando foi criada a ASJP, é expressivo. Em 2006, a receita registrada foi de apenas R$ 500, e o patrimônio, de R$ 120. Apesar de padre Edvino e Dom Eusébio aparecerem desde o início como diretor e presidente vitalícios da ASJP, respectivamente, quem responde pelas contas da associação é Adalmir Leite de Castro, responsável pela contabilidade da Rádio Catedral.

 
 
 

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