Cemitério da milícia: Parentes ainda sofrem intimidações
POR LESLIE LEITÃO, RIO DE JANEIRO
Rio - Além de V., duas testemunhas estiveram no enterro. Um deles, P., é irmão de Leonardo Baring, morto dois dias depois da família de V.. Ele contou que, há algumas semanas, sua mãe teve de abandonar o emprego com medo de morrer.
“Ela estava no Calçadão de Bangu, onde entregava panfletos, quando dois homens chegaram procurando por ela. Não tem mais condições de aparecer por lá”, disse.
No mês passado, um homem e uma mulher chegaram à casa de uma irmã de V. apresentando-se como oficiais de Justiça e procurando o rapaz. Como a própria Z. não sabia dele, a dupla foi embora num carro preto.
Enterro sob proteção policial
O laudo cadavérico do IML revela que o sargento reformado do Exército Vicente de Souza, de 90 anos, pai da testemunha de uma chacina praticada por milicianos da Liga da Justiça, em Campo Grande, foi assassinado com um tiro na testa. Apesar das algemas encontradas prendendo os braços — que estavam no corpo encontrado no cemitério clandestino descoberto anteontem —, não há sinais de tortura. Ontem, com a presença de apenas 16 parentes, já que a maioria continua com medo dos paramilitares, o aposentado foi enterrado no Cemitério de Campo Grande sob escolta policial.
Dez agentes da Polícia Civil, armados com fuzis e pistolas, estiveram no local para garantir a segurança de três jovens que continuam ameaçados de morte, entre eles V., filho de Vicente. Seu pai foi capturado dentro de casa, na Favela do Barbante, em Inhoaíba, com outros três familiares e um vizinho. Todos foram assassinados, segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Zona Oeste (DH-Oeste).
“É triste esta situação. Pareço uma alma penada, que nem a minha própria família quer ver por perto, porque tem medo de morrer”, desabafou V., durante o cortejo simples, que durou apenas seis minutos.
Além do corpo do sargento, foram encontrados um crânio e um outro corpo, este já em estado avançado de decomposição. Os parentes acreditam que este seja o do estudante de Medicina Denílson Cardoso de Paula, enteado de Vicente. Mas como não foi possível o reconhecimento, o delegado Antônio Ricardo pediu a realização de exame de DNA.

Dez agentes da Polícia Civil fizeram a segurança de testemunhas e familiares no enterro idoso encontrado em cemitério da milícia no Barbante | Foto: André Mourão / Agência O Dia
Ontem, as buscas no cemitério clandestino não tiveram continuidade, pois os agentes esperavam por uma retroescavadeira que não chegou a ser usada. A máquina foi levada para Campo Grande durante a tarde, mas o operador dela se recusou a fazer o serviço por medo de represálias futuras. Hoje, com outra retroescavadeira e outro motorista, a Polícia Civil deve retomar as buscas no local pela manhã.
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