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5/7/2008 01:00:00

‘Vencemos a morte. Vamos vencer todas as dificuldades’

Baleado por bandidos na noite do Ano Novo, com a mulher, Lidio Toledo Filho quer voltar a operar

Andréa Uchôa


Foto Ag. O Dia

Rio - O Ano Novo que era para ser de festa e alegria teve início com uma tragédia. A noite de 31 de dezembro de 2007 mudou radicalmente a vida do cirurgião ortopedista Lidio Toledo Filho, 34 anos, e da mulher, Maria Silene Trajano, 35. Por sorte ou proteção divina, o casal sobreviveu ao ataque a tiros sofrido na subida do Alto da Boa Vista, mas a violência deixou cicatrizes e memórias que jamais vão desaparecer. Ontem, seis meses após o crime, Lidio e Silene receberam O DIA para a primeira entrevista à imprensa desde o assalto do qual foram vítimas no Réveillon.

“Eu era um médico que trabalhava 15 horas por dia e agora estou paraplégico, sem poder trabalhar e em estado depressivo. É muito difícil acordar e ver que as pernas não mexem”, desabafa Lidinho, como o filho do ex-médico da Seleção Brasileira Lidio Toledo é chamado por parentes e amigos. Para os médicos, não há chances de Lidio voltar a andar. Mas para ele e a família, a crença em Deus e no avanço da medicina trazem esperanças na retomada da vida normal.

“A minha esperança são as células-tronco”, afirma ele, que hoje passa a maior parte do tempo deitado de lado ou de bruços devido a uma escara (ferimento) na região do cóccix. Apesar disso, a força e a determinação de Lidinho o fizeram atender a quatro pacientes em sua própria casa.

Os três tiros que atingiram Lidio — no pescoço, mandíbula e ombro direito — também fizeram com que ele perdesse o movimento da mão esquerda, que já está sendo recuperado com fisioterapia. “Quando recuperar o movimento e me curar da escara, volto a trabalhar. Poderei até operar de novo, mesmo na cadeira de rodas”, diz, triste por ter fechado, semana passada, a clínica da família na Barra da Tijuca.

A luta para retomar a normalidade é hoje a razão de viver do casal. “Já vencemos a morte e também vamos vencer todas as dificuldades”, afirma Silene.

“Meu filho nasceu de novo. Teve que reaprender tudo de novo. Até a falar, comer e beber água. A primeira coisa que ele falou foi: ‘Minha mãe me entende’”, recordou, emocionada, a estilista Eliete Cappelli Toledo de Araújo, 60.

Mãe e filho são tão apegados que ele, momentos após ser baleado, já no Hospital do Andaraí, escreveu bilhete para tranqüilizá-la. “Mamãe, estou melhorando”, dizia o recado, que ele nem lembra ter escrito. Na recuperação, Lidio conta com o amor incondicional da mãe e da mulher, Silene, que se atirou sobre o marido para impedir que o assaltante Allan de Assis Mendes, o Filhote, 26, preso terça-feira, o matasse com um tiro na cabeça. Com isso, a pedagoga foi atingida por três disparos no braço, seio e costela. Bala ficou alojada num dos pulmões.

Bandidos teriam procurado casal no hospital

O assaltante que disparou contra o casal, Allan, chegou a ser atendido com o primo, Rafael Silva de Oliveira, 23 anos, no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, na Usina, onde Silene, mulher do médico, era operada. “Minha irmã ouviu eles falando: ‘A mulher do Lidio Toledo está aqui, temos que achá-la’. Mas não me encontraram. Tive que contratar segurança e ir para outro hospital”, conta.

Foi Allan quem voltou ao carro para tentar matar o casal. Além dele e de Rafael, foram presos Diego Antunes de Souza e o menor M., de 15 anos, que recebeu três anos de punição como medida socioeducativa.

Segundo a polícia, Allan e Rafael caíram da moto no Morro do Borel e foram atendidos no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, na Usina. A mulher de Lidio Toledo afirma que eles roubaram uniformes de uma loja de eletroeletrônicos e tentaram entrar na unidade atrás dela.

"NÃO VEJO SAÍDA’

Acostumado a lidar com vítimas da violência, Lidio, que trabalhou de 2001 a 2007 na Emergência do Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, se revolta ao constatar que casos como o seu se repetem diariamente. “Dá uma raiva muito grande porque você sente na carne e aquilo não vai servir para nada”, diz ele, que passou por quatro cirurgias e ficou 82 dias internado.

Para o médico, a única solução para a violência está na educação. “O problema é falta de educação. Se não educar, não adianta maquiar as favelas”, alerta o médico.

O medo da violência não motiva o casal a deixar o Rio — como fez o irmão mais novo dele, que foi viver em Florianópolis —, mas é tão grande que fez com que ele desistisse de ter filhos biológicos. “Infelizmente, não vejo saída para o Brasil. Estamos vivendo numa selva. Não quero ter um filho em um mundo desses. Para quê? Se quisermos ter filho, adotaremos. Tem tantas crianças precisando de uma família”, afirma Silene.

Ela conta que, quando reconheceu o adolescente na 19ª DP (Tijuca), ficou triste ao ver que era um menino de 15 anos. “Ele tem idade para ser nosso filho. Tinha que estar em casa com a família no Réveillon”, lamenta.

‘A VIDA PAROU, MAS ESTAMOS VIVOS’

“O Allan atirou de maldade, com a maior frieza. Depois de Lidio jogar o carro em cima da moto para tentar fugir, ele veio calmamente, parou na janela do motorista, mostrou a arma na cintura e deu o primeiro tiro. Quando vi o fogo saindo da pistola, me joguei em cima do Lidio porque ele ia atirar na cabeça do meu marido. Então, ele descarregou a pistola na gente e saiu tranqüilamente.

Lidio desmaiou e eu saí desesperada para buscar ajuda porque meu marido estava morrendo. Ficamos uns 15 minutos naquela rua escura, sem policiamento algum. Eles voltaram para buscar a moto, mas por sorte não viram que estávamos vivos, senão teriam nos fuzilado. Foi o manto de Nossa Senhora que nos protegeu.

Um taxista — meu anjo da guarda — apareceu e nos ajudou. Acredito que tudo isso estava traçado e que eu estava ali só para ajudar meu marido. Nossa vida parou, mas estamos vivos.”

Maria Silene Trajano - Pedagoga, mulher de Lidio

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