Rio - A reação da população ao baile funk que tomou Copacabana nos primeiros minutos de 2008 arrepiava ainda ontem o comandante da festa. Ao ver a multidão cair na dança na areia, sob um calor de verão exagerado, o DJ Marlboro sentiu o trabalho de toda a sua vida recompensado. “O pancadão foi a trilha sonora do maior Réveillon do mundo. É a consagração do funk”, disse.
Apesar das falhas evidentes no sistema de som — em baixo volume e que não foi direcionado ao calçadão e às pistas da Avenida Atlântica, no trecho ao lado do palco —, a enxurrada de sucessos populares do ritmo colocou o povo cantando e se sacudindo na madrugada do dia 1º. O movimento era grande em direção à areia, local onde o som chegava melhor e com boa visão do telão. Não faltaram ‘trenzinhos’ de jovens e moças com muita pouca roupa ou de biquíni e usando anteninhas brancas na cabeça — acessório que bombou na festa — executando coreografias sensuais.
Ao redor do palco suspenso, que lembrava um trio elétrico, diversos dançarinos e dançarinas realizavam passos típicos de programas de televisão. O DJ estreou seu projeto Marlboro Live, com naipe de metais, guitarristas e percussionistas, em apresentação de uma hora e 15 minutos. O DJ condensou sucessos da história do funk carioca, desde a década de 90, do ‘batidão’ ao ‘melody’, de artistas das favelas a estrelas recentes, como Perlla e MC Leozinho.
Mostrando de onde vem o público original do funk, quem mais se esbaldava eram jovens de locais no subúrbio e Baixada Fluminense. Esse é o caso das irmãs Marina, 22, e Gabriela, 24, de Nilópolis, cujas primas moram em Copacabana. Coladas na grade de hotel, pedindo para ir ao banheiro, engataram conversa com dois ingleses e partiram com seus pares estrangeiros para dançar funk na areia. “A comunicação está ruim, mas hoje isso não tem nenhuma importância”, disse Marina, com naturalidade, diante dos gringos, que nada entendiam.
Marlboro traduziu: “O funk é multicultural, é um ritmo que o mundo inteiro já conhece e gosta”. Prova de que o ritmo garantiu o calor da festa, o público começou a deixar a praia assim que o baile terminou. Ao se despedir, o pancadão deu lugar às baterias das escolas Beija-Flor, Grande Rio, Mangueira e Unidos da Tijuca, que encerraram com o hino ‘Cidade Maravilhosa’.
‘SE PENSASSE NA HORA, IA TREMER’
No dia seguinte ao Réveillon de Copacabana, o DJ Marlboro ainda vibrava com o que chamou de “consagração do funk”.
1—Você ficou nervoso de tocar para dois milhões de pessoas?
—Só hoje senti o peso da responsabilidade. Se pensasse na hora, as pernas iam tremer. Fiquei repetindo: é um baile normal.
2—O que este baile representou para o funk?
—Foi a oficialização do funk como um movimento musical legítimo. O funk provou que é parte da cultura carioca e merece respeito.
3—E a reação do povo?
—Cantaram tudo com euforia, dançaram, fizeram trenzinho. Acho que nenhum outro estilo seria recebido com tanta alegria no Ano Novo. Foi a consagração do funk.
4—Sua nova banda, a Marlboro Live, seguirá em atividade?
—Planejamos fazer uns 10 shows este ano. Queremos mostrar o funk para outros públicos.
5—E como terminou sua noite de Réveillon?
—Saí de Copacabana e toquei numa festa no MAM. Depois, fui ver os amigos na casa do Romário. Só dormi às sete da manhã.