Rio - São 18h, horário de Amsterdam, na sede do principal jornal holandês. O dia? Um qualquer em julho de 2002. A editora de Internacional responsável por América Latina seleciona as principais reportagens do dia e vê um informe sobre a morte de um jornalista na Favela Vila Cruzeiro, na cidade do Rio de Janeiro. Até então, Patricia Maresch, filha de indonésios, não sabia que a paisagem azul das praias e o verde do Corcovado também tinham sangue e cinza da periferia. Naqueles meses, tudo o que chegaria da Vila Cruzeiro era pesadelo.
São 14h de um domingo em fevereiro de 2007. Patricia pisa na Vila Cruzeiro pela primeira vez. O pesadelo, à medida que vai conhecendo pessoas — principalmente os amigos Eduardo, Diogo, Mayra e Luiz —, vai se tornando um sonho: o de fazer um documentário mostrando que os jovens da favela também pensam em futuro.
INTIMIDADE
As duas cenas não estão entre as diversas que integram o documentário ‘Cruzeiro’, de uma hora de duração — mas fazem parte da história do filme. “Já havia visto filmes, lido jornais e as notícias eram só sobre violência. Quando cheguei, a primeira visão foi da Igreja da Penha, brilhando sob o sol. Pude ver o que a maioria das pessoas de fora não vêem. Afinal, sempre que a TV e os jornais vêm ao Cruzeiro, as ruas estão vazias, os moradores estão recolhidos com medo dos tiroteios”, diz Patricia, com sua mania de omitir o “Vila” e dizer só “Cruzeiro”. Demonstrando intimidade, do mesmo jeito que os meninos, que a chamam de “Pat Carioca” — até comunidade no Orkut eles já criaram para a holandesa: “Pat, a mais carioca das cariocas!”.
O filme gira em torno de quatro jovens da favela com sonhos diferentes. Eduardo Queiroz, Luiz Senuin, Diogo Nascimento e Mayra Avellar são mostrados também fora da comunidade, onde a vida, segundo Diogo, acaba ficando mais difícil. “É comum a pessoa que mora aqui dizer que mora em Olaria apenas na hora de procurar emprego. Se disser que é da Vila Cruzeiro, nada feito”, conta Diogo, filho de funcionários públicos, jovem de 23 anos que já tem uma filha, o que para ele significa responsabilidade. “Trabalho muito para alcançar meus objetivos.”
HISTÓRIAS DE MUITO ESFORÇO
Grande parte da estrutura para o trabalho de Patricia Maresch vem das instalações do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social, o Ibiss. Há piscina, creche, quadra, sala para jogos, sala de edição, refeitório, dentistas, tudo com apoio do instituto, que tem um holandês — Nanko Van Buuren — entre seus diretores. “O espaço onde se instalou o Ibiss é onde funcionava o projeto Criança Esperança, que saiu de lá depois da morte do (jornalista) Tim Lopes”, conta Diogo, que, além de freqüentar o Ibiss e trabalhar com montagem de estantes, faz mais dois cursos de teatro.
Já Luiz Senuin é bailarino, Eduardo — ex-‘soldado’ do tráfico — administra uma pensão e Mayra, de apenas 16 anos, já fará vestibular para História, seu grande tema de fascínio. Os quatro contam tudo isto e muito mais em ‘Cruzeiro’. Que, pela esperança que sentem, poderia se chamar utopia.
‘Corta, lá vem o Caveirão!’
As filmagens de ‘Cruzeiro’ tiveram vários momentos emocionantes. Para Patricia, que mora em Botafogo durante sua temporada carioca, o mais chocante, porém, é o abismo entre os dois mundos, o da favela e o do ‘asfalto’. “O que me perturba é que muitas vezes eu saía da favela depois de tumulto, correria, de muito choro, com uma pessoa internada no Hospital Getúlio Vargas e, quando chegava na Zona Sul, era um mundo completamente diferente. Nenhuma das pessoas tinha idéia do que estava se passando, da guerra e dos feridos”, lembra Patricia.
Para a jornalista holandesa, o veículo blindado — equipamento de proteção dos policiais — é o que dá mais medo. “Sim, sei que é para proteção. Mas só me inspirava medo, tínhamos de parar de filmar. Quando passa o Caveirão, as ruas do Cruzeiro ficam vazias, completamente vazias”, espanta-se.