Alfredo Junqueira e Vania Cunha
Rio - O corregedor-geral da Assembléia Legislativa (Alerj), Luiz Paulo (PSDB), confirmou que já há indícios suficientes para abertura de processo disciplinar por quebra de decoro parlamentar contra o deputado Natalino Guimarães (DEM), que deverá ser expulso do partido. A medida é o primeiro passo para uma eventual cassação de mandato. Preso em flagrante na noite de segunda-feira com outros cinco integrantes da milícia ‘Liga da Justiça’, Natalino foi indiciado por tentativa de homicídio, porte ilegal de arma, formação de quadrilha e favorecimento pessoal no inquérito da 35ª DP (Campo Grande).
“Ainda vou ler os documentos, mas os indícios de participação na troca de tiros com a polícia e de que havia um foragido da Justiça lotado no gabinete dele já são suficientes”, disse Luiz Paulo, referindo-se ao fato de que Fábio Pereira de Oliveira, o Fábio Gordo, também preso na ação, ter sido lotado no gabinete de Natalino entre março de 2007 e janeiro deste ano.
O processo contra Natalino, no entanto, só será aberto após o recesso, que termina dia 31. Ontem, a Mesa Diretora lavou as mãos e decidiu não fazer convocação extraordinária para analisar a prisão de Natalino. A decisão sobre a legalidade do procedimento também ficou para depois do recesso.
Por ser deputado, Natalino tem prerrogativas especiais. Sua prisão pode ser anulada pela Alerj, caso os deputados entendam que houve irregularidade — em maio, a Casa libertou Álvaro Lins (PMDB), no dia seguinte à sua prisão em flagrante pela Polícia Federal, acusado de lavagem de dinheiro. A decisão da Alerj será dia 5.
Ontem, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Paulo Melo (PMDB), e os deputados Domingos Brazão (PMDB) e Coronel Jairo (PSC) estiveram em Bangu 8 para verificar as condições em que Natalino está detido.
TRÊS MESES PARA O FIM
Para o delegado-adjunto da 35ª DP, Eduardo Soares, a ‘Liga da Justiça’ pode estar perto do fim. “Se as investigações continuarem nesse ritmo, em três meses estará extinta. Há vontade política de acabar com isso”, disse.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, endossou a avaliação: “As investigações correm num nível muito bom. Os delegados Marcus Neves (titular da 35ª DP) e Cláudio Ferraz (da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas, Draco) estão próximos de atingir resultados que sacramentem a atuação da milícia. E a gente já sabe que está reverberando em outras áreas, que tinham milícia também e começam a se retirar”.
Soares acredita que a prisão de Natalino foi um golpe fatal na milícia. “A segunda torre do castelo desabou. Agora, só tem ‘pé inchado”. Segundo ele, Luciano Guinancio Guimarães, filho do vereador Jerominho, não tem liderança para comandar o grupo. Na hierarquia da milícia, os dois principais foragidos são Luciano e o ex-PM Leandro Paixão Viegas, o Leandrinho Quebra-Ossos.
O delegado afirma que a Liga da Justiça pretendia controlar toda a Zona Oeste e se expandir para a Baixada Fluminense. “Há informações de que, antes de ser preso, Jerominho pretendia se lançar candidato a prefeito em Seropédica”, disse. Quarenta e três milicianos investigados pela 35ª DP deverá ter a prisão pedida.
EXCLUSÃO
O partido de Natalino, o DEM, anunciou ontem que o deputado deverá ser sumariamente expulso na primeira semana de agosto. O procedimento disciplinar aberto contra ele no partido foi enviado ontem ao diretório nacional. “Os fatos que levaram à prisão em flagrante também o impedem de continuar no partido”, afirmou o presidente nacional do DEM, Rodrigo Maia. Segundo ele, pelos regimentos do partido, o diretório nacional não precisa cumprir prazos regimentais em processos disciplinares e pode promover expulsões sumárias. O senador Demóstenes Torres (GO) será o relator do processo.
Policial dono de arma pode ser preso
O delegado Eduardo Soares disse ontem que vai pedir a prisão do policial civil Leonardo Moreira Dias, lotado na Alerj, por formação de quadrilha. A arma dele, uma pistola calibre 40, foi apreendida na casa de Natalino, na operação que culminou na prisão do parlamentar.
“Isso indica que Leonardo poderia estar na reunião com o pessoal da milícia. Ele terá que esclarecer ainda por que sua arma estava lá”, disse o delegado. O armamento apreendido foi enviado ontem para a perícia.
Requisitado para trabalhar na Alerj em fevereiro de 2007, Leonardo passou a ser lotado na vice-liderança do DEM — cargo ocupado atualmente por Natalino — três meses depois. Na função, o policial começou a receber gratificação CAI-16, no valor de R$ 2,5 mil.
Colaboraram Bartolomeu Brito e Christina Nascimento