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5/7/2008 01:02:00

Ameaças contra militares

Sargento afirma que traficantes oferecem R$ 10 mil pela morte de acusados de entregar jovens a rivais

Vânia Cunha


Rio - Em um depoimento tenso, o sargento do Exército Renato de Oliveira Alves afirmou ontem, na Justiça Federal, que ele e os outros 10 militares presos sob acusação de entregar três jovens do Morro da Providência a traficantes, no dia 14, estão ameaçados de morte. Segundo o sargento, bandidos da facção criminosa Comando Vermelho (CV) ofereceram R$ 10 mil ‘pela cabeça’ de cada militar.

“Soube da ameaça antes de chegar para depor. Colegas que moram na Providência contaram. Nossos familiares também correm risco. Esse fato acabou com a minha vida e com carreira militar. O senhor não sabe como me sinto aqui”, disse ao juiz Marcelo Granado. A procuradora Patrícia Nuñez prometeu tomar providências.

Renato foi o primeiro dos sete militares que seriam ouvidos ontem, segundo dia de relatos. Ele contou que ouviu o tenente Vinícius Ghidetti dizer que escreveria CV na testa dos garotos. “Mas isso não aconteceu. Achei, então, que o tenente daria um trote nos garotos, deixando-os a pé no Sambódromo. Quando virei sargento, apanhei de coturno. É normal trote entre militares, mas não em civis. Foi ilegal, mas estava cumprindo ordens.”

O sargento afirmou ainda ter tentado alertar os oficiais após a saída do Complexo de São Carlos, onde viu as agressões aos jovens. “Falei: ‘Sargento, isso vai dar m.’. Ele disse que mandou os traficantes liberarem os garotos. Apelei ao tenente, mas ele respondeu: ‘Não vai dar em nada’. Pensei até em dar voz de prisão ao tenente, mas isso poderia provocar tiroteio”, disse, ressaltando que os traficantes estavam com pistolas, pistol Uzi e armas longas.

O soldado Júlio Almeida Ré confirmou ter ouvido o capitão Laerte Ferrari mandar liberar os jovens ainda no quartel, mas que não estranhou a saída. “Não posso questionar a ordem do tenente. Sou apenas soldado e cumpro ordens. Fiquei com medo de relatar aos superiores o que houve. Se fizeram isso com os garotos, imagina comigo?”.

Em seu relato, o soldado Rafael Cunha da Costa Sá fez ressalva importante ao depoimento anterior. “Um dos garotos gritou: ‘Pelo amor de Deus, vão nos matar’. Viramos as costas e o tenente mandou a gente descer com pressa”, contou, informando que Vinícius riu em dois momentos da ação.

Chefões do São Carlos fugiram para Rocinha

Agentes da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) e da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) fizeram ontem a primeira operação policial para tentar prender os traficantes que teriam torturado e executado os três jovens da Providência. A incursão aconteceria pela manhã, mas só começou às 15h, por causa do temporal, que impediu a decolagem do helicóptero.

Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, e Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, que controlam o tráfico no Complexo de São Carlos, não foram encontrados. Segundo a polícia, ambos estariam escondidos na Rocinha. Dois homens foram detidos, mas um acabou liberado. José Carlos Lopes da Silva, o Chacal, ficou preso em virtude de um mandado de prisão por tentativa de homicídio, em 2002, em São Paulo.

PENAS DEVERÃO SER DIFERENTES

Segundo a procuradora Patrícia, é provável que algum acusado seja pronunciado e vá a júri popular. “Estabelecemos que tem uma hierarquia diferenciada, cada um fez alguma coisa. Ocorreu um fato grave e queremos punição justa. A gente sabe que, em juízo, as pessoas podem mentir, fazer choro falso, como já ocorreu, e se lastimar. Pena que não se lastimaram quando as vítimas morreram”, afirmou. Na quinta-feira, o tenente chorou ao prestar depoimento.
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