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15/08/2008 01:25:00

Atropelador indiciado

Rapaz que deixou jovem em coma responderá por lesão dolosa

Carol Medeiros


Júlia já respira sem aparelhos e começa a se comunicar. Reprodução

Rio - Depois de atropelar e deixar em coma por quase um mês a adolescente Júlia de Aquino Borges, 14 anos, José Setton, 19, foi indiciado por lesão corporal gravíssima dolosa (com intenção) e pode pegar de dois a oito anos de cadeia. O inquérito policial foi concluído ontem e será enviado hoje ao Ministério Público. Setton, que se recusou a fazer o teste do bafômetro mas admitiu aos policiais que havia consumido bebida alcoólica na noite de 12 de julho, fugiu do local do acidente, na Av. Afrânio de Melo Franco, no Leblon, sem prestar socorro. Testemunhas disseram que ele dirigia em alta velocidade e na contramão.

Além de enfrentar a Justiça criminal, o motorista pode ter o direito de dirigir temporariamente suspenso pelo Detran-RJ. O órgão já abriu um processo e notificou o condutor, que tem 15 dias para apresentar sua defesa, antes que o caso seja levado à Comissão Cidadã.

Se for considerado culpado pelo atropelamento, Setton pode ser condenado a refazer exames teóricos e práticos, realizados por quem tira a primeira habilitação, ou a participar de curso de reciclagem. Em ambos os casos, sua carteira fica retida. “Nesse primeiro momento, ele está sendo julgado pelo crime de trânsito. Se for condenado, sua habilitação ficará acautelada até a conclusão do curso de reciclagem. Enquanto estiver sem carteira ele não pode dirigir”, explicou o coordenador da Comissão de Julgamento de Condutores, Flávio Horta.

A notícia do indiciamento de José Setton deixou a família de Júlia aliviada. “Nossa preocupação maior é com a recuperação de nossa filha. Mas queremos que se faça justiça e que ele responda por seus atos”, disse o pai da jovem, José Nono.

RECUPERAÇÃO SURPREENDENTE

Além dos depoimentos de José Setton e de testemunhas que viram quando Júlia e duas amigas atravessavam a rua, próximas ao Shopping Leblon, a Polícia Civil anexou ao inquérito o laudo do Instituto Médico-Legal. Nele, os médicos-peritos descrevem as diversas lesões que a jovem sofreu em decorrência do atropelamento: politraumatismo com escoriações graves no abdômen, ombro, joelho e perna; fratura extensa no lado direito e no lado posterior do crânio; fratura da clavícula; contusão pulmonar grave e trombose profunda no membro inferior direito. O laudo descreve ainda a evolução negativa nas primeiras horas de atendimento a Júlia, que teve parada respiratória e foi submetida a duas cirurgias para retirada de edema cerebral.

O prognóstico dos legistas indica que o acidente deve causar seqüelas irreversíveis, com enfermidade incurável e debilidade permanente de funções neurológicas. Mas Júlia tem surpreendido a equipe médica: internada no Hospital Copa D’Or, ela saiu do coma no início da semana, já não usa o respirador, consegue balbuciar palavras, escreve, está com a memória perfeita e já deu passos na fisioterapia.

Força de vontade a toda prova

A família de Júlia tem se revezado no CTI do Copa D’Or desde que a adolescente acordou. A irmã, Letícia, veio de Belo Horizonte, onde mora, para ficar 10 dias com a caçula. A mãe, Mariza de Aquino Vidal, passa as noites sentada em um banquinho ao lado da cama, segurando a mão da filha e dando água de 15 em 15 minutos. “Ela só pode beber bem devagarinho, de gole em gole, então fica com muita sede”, conta.

Segundo a família, a rapidez da recuperação de Júlia é vista pelos médicos com entusiasmo e surpresa. Os parentes e amigos chamam de milagre. “Há um mês, ela deu entrada no hospital praticamente morta. Agora, já fala e escreve e está dando passos na fisioterapia”, comemora o pai, José Nono.

Se continuar nesse ritmo, a adolescente deve deixar o CTI nos próximos dias. “Tem sido uma batalha para todos nós, mas estou orgulhoso da minha filha. Ela é corajosa e guerreira.
Tem demonstrado muita força. Ela é muito doce e nunca reclama dos milhares de remédios, exames e exercícios que tem que fazer durante todo o dia. Outro dia, acordou uma e meia da manhã pedindo para fazer fono. Ela quer fazer fisioterapia o tempo todo, porque quer ficar boa e ir logo para casa. No primeiro dia, a fisioterapeuta me contou que ela conseguiu dar dois passos. Ela, na mesma hora, corrigiu: ‘Dois não, três’. Cada passo é uma vitória que não pode ser subestimada”, diz Nono.
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