Cena de faroeste na porta de uma delegacia
Ladrão desarma PM e atira no policial, que recupera pistola e também dispara. Os dois morreram em frente à 25ª DP
Paula Sarapu
Rio - A prisão bem sucedida de dois assaltantes acabou em tragédia na porta da 25ª DP (Engenho Novo), ontem de manhã, quando um dos bandidos conseguiu se desvencilhar das algemas de plástico e roubou a arma de um policial do 3º BPM (Méier). Mesmo baleado, o cabo Rodrigo Caetano da Silva, 34 anos, conseguiu recuperar sua pistola. Os dois se atracaram e, depois de dez disparos, eles acabaram morrendo. O cabo levou três tiros no peito e na barriga, foi levado para o Hospital Salgado Filho, mas não resistiu. O bandido foi atingido quatro vezes.
A ação da dupla de menores, moradores do Morro da Mangueira, começou às 9h, em Madureira. Na Rua Firmino Fragoso, em frente ao Madureira Shopping, Jeferson Rocha da Silva, 17 anos, e P.R.Q., 16, entraram no táxi de Antônio Eudes Paiva, 49, com destino ao Norte Shopping, em Del Castilho. Ao passar pela Rua José Bonifácio, no Cachambi, Jeferson anunciou o assalto, encostando uma pistola na barriga de Antônio.
“Entreguei o que tinha no bolso, R$ 31, e eles saíram andando. Estávamos a 30 metros da cabine do shopping e avisei aos policiais, que os perseguiram e prenderam os dois dentro de um ônibus, já na Avenida Dom Hélder Câmara. Percebi que eles falavam sobre o traficante Beira-Mar. Desconfiei, mas não podia mandá-los descer, para poupar minha vida. Eles não têm nada a perder”, contou o taxista.
Os menores foram levados para a 23ª DP (Méier) e encaminhados à 25ª DP, que funciona como central de flagrantes. O cabo ficou com os dois presos no pátio da delegacia, enquanto o soldado Paulo Roberto Leite pedia que abrissem a porta dos fundos da unidade, onde fica a carceragem. Jeferson conseguiu se soltar ainda dentro da viatura e atacou o cabo Rodrigo.
O adolescente conseguiu puxar a pistola calibre ponto 40 e deu o primeiro tiro. Ferido, o PM lutou com o bandido e pegou a arma de volta, mas os dois já estavam no chão. Segundo o delegado Cláudio Vieira, os disparos foram feitos durante a briga. Os tiros atingiram uma viatura e o Mercedes Classe A do comissário de polícia Cláudio Menezes, que chegava para trabalhar.
“Havia uma reunião com todo o efetivo da delegacia, quando ouvimos os tiros. O bandido conseguiu se soltar das algemas e atirou contra o PM. Corremos para ajudá-lo. Nosso policial sacou a arma e rendeu o outro preso, que também estava no pátio”, contou o delegado.
ALGEMAS ROMPIDAS
A arma usada no assalto ao taxista, uma pistola 9 milímetros de numeração raspada, e a pistola do cabo foram apreendidas para confronto balístico, mas todas as cápsulas eram da arma do PM.
As três algemas plásticas usadas para prender Jeferson foram encontradas dentro da viatura, sujas de sangue. Os peritos constataram que havia marcas em seu pulso, o que indica que ele se machucou enquanto tentava tirar as algemas.
CUNHADOS E AMIGOS DE INFÂNCIA
O cabo Rodrigo e o soldado Leite eram cunhados. O cabo era casado há três anos com a irmã de Leite, que na mesma época se tornou seu colega de farda. Rodrigo já estava na corporação há dez anos e sempre trabalhou no 3º BPM. Os dois moravam em Irajá, eram amigos de infância e cresceram juntos.
Muito abalado com o assassinato do amigo, com lágrimas nos olhos, o soldado só conseguiu prestar depoimento no início da tarde. Rodrigo será enterrado hoje, no Mausoléu da PM, no Cemitério de Sulacap.
Os tiros assustaram quem passava pela rua na hora. Um segurança do Metrô contou que chegou a imaginar que a delegacia estivesse sendo invadida por bandidos. “Vários policiais vieram para o pátio, gritando ‘atiraram no amigo!’. Corri para dentro de uma banca de jornal. Foram muitos tiros”, contou.
Carro de comissário foi atingido
O comissário Claudio Menezes, que teve o pneu do carro e o estofado do banco atingidos pelos disparos, disse que o policial e o bandido estavam atracados no chão. “Foi tudo à queima-roupa. O PM estava ferido de um lado e o bandido caiu do outro. Fiquei preocupado com o outro assaltante, que estava no pátio e poderia ter fugido na confusão”, lembrou.
As algemas descartáveis são usadas em todo o mundo e seu material é considerado resistente. No Rio, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) e a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), que esta semana ganhou 500, costumam receber o equipamento das polícias Civil e Militar.
A maioria dos policiais, inclusive da Polícia Federal, adquirem algemas plásticas por conta própria, já que são descartáveis, leves e baratas — custam cerca de R$ 4. Elas funcionam como lacre e só podem ser abertas se destruídas. O uso delas é avaliado pelo policial, em cada situação.
O cabo Rodrigo e o soldado Leite colocaram três algemas em cada um dos presos. Jeferson conseguiu arrebentar uma delas e retirou as outras duas, que foram encontradas ainda fechadas, dentro da viatura. A assessoria de imprensa da PM informou que o equipamento é confiável e que só vai se pronunciar depois dos resultados dos laudos.
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