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26/7/2008 20:54:00

Cidadão acima de qualquer suspeita

Bombeiro investigado pela Draco por participação em milícia é chefe de segurança do Tribunal de Contas do Município

Gustavo de Almeida


Rio - O sargento bombeiro Carlos Alexandre Silva Cavalcanti é considerado um “excelente funcionário” pelo próprio presidente do Tribunal de Contas do Município (TCM), Thiers Montebello. Muito dedicado, ele é o chefe de segurança da portaria e ainda coordena o trabalho de oito funcionários da brigada de incêndio. Sua matrícula de funcionário público cedido pelos bombeiros ao TCM é 20/901.403.

Longe da Rua Santa Luzia, onde fica o TCM, Carlos Alexandre se torna Alexandre Gaguinho, suposto homem de confiança de Francisco Cesar Silva Oliveira, o Chico Bala, policial militar lotado no 25º BPM (Cabo Frio) mas que atualmente participa de operações da 35ª DP (Campo Grande) — entre elas, a que prendeu o deputado estadual Natalino Guimarães (DEM), acusado de formar milícias na Zona Oeste ao lado de seu irmão, o vereador Jerominho (PMDB).

Carlos Alexandre é também citado no inquérito 020/2003, ainda em andamento, aberto pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado — Inquéritos Especiais (Draco-IE). A acusação é de formação de quadrilha (artigo 288 do Código Penal). O inquérito não impediu o bombeiro de ingressar no quadro funcional do TCM, ainda como cabo da corporação.

Gaguinho aparece, não como investigado, mas como co-autor de irregularidades, na sindicância 0341/2538, aberta pela PM para investigar as ações de Chico Bala na Zona Oeste. No relatório da sindicância, feito pela Seção de Inteligência do 2º Comando de Policiamento Área e entregue ao promotor Luiz Antonio Ayres, da comarca de Santa Cruz, consta o uso de viaturas da Polícia Civil para a prática de extorsões nos pontos finais de vans e Kombis piratas na Zona Oeste. O promotor encaminhou o caso à 1ª Vara Criminal de Santa Cruz na sexta-feira.

Vingança e morte entre os milicianos

A sindicância da PM revela que o grupo de Chico Bala e Gaguinho, ainda este ano, arrecadava cerca de R$ 740 por dia com extorsões ao transporte alternativo em um só ponto. Carlos Alexandre também esteve na operação que culminou com a prisão do deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM) e era visto andando com desenvoltura pela delegacia. Gaguinho tem faltado alguns dias ao trabalho no TCM, desde que o soldado da PM Júlio César Ferraz acusou o delegado Marcus Neves de usar três investigados por milícia em sua equipe.

O ex-PM Herbert Canijo da Silva, o Escangalhado, o sargento Francisco Oliveira, o Chico Bala, e o bombeiro Carlos Alexandre Silva Cavalcante foram investigados pela Draco quando trabalhavam ao lado do vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), e do deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM), todos acusados de comandar a ‘Liga da Justiça’. A ruptura do grupo ficou clara quando a mulher e o enteado de Chico Bala foram mortos ano passado em São Pedro da Aldeia.

O soldado PM Ferraz, que acusa o grupo de Chico Bala e Gaguinho de ter atentado contra sua vida, argumentou que em 2003 apreendeu uma arma irregular com Gaguinho. Segundo o policial, como vingança, o bombeiro teria atacado sua casa, na Rua Santo Saturnino.

Chico Bala já argumentou, no entanto, que está trabalhando com a equipe da 35º DP para “ajudar a sociedade a combater a milícia”. O delegado Marcus Neves não foi encontrado para falar sobre Gaguinho, mas já se pronunciou antes, bem como o chefe de Polícia Especializada, Allan Turnowski, sobre a presença dos PMs. Ele está autorizado a atuar como informante.

‘GAGUINHO’ INSTALOU TODO O SISTEMA ANTI-INCÊNDIO DE PRÉDIO DO TCM

Antes de trabalhar na segurança, Carlos ainda foi secretário de gabinete, cargo que ocupou até fevereiro do ano passado, quando foi nomeado para a portaria. Funcionário dos mais participativos, ainda é membro da Federação das Entidades de Servidores dos Tribunais de Contas do Brasil — aparece até na lista de aniversariantes de fevereiro de um dos informativos da entidade.

O presidente do TCM, Thiers Montebello, se diz surpreso e afirma que ignorava este outro lado de Carlos. “Eu exijo disciplina, rigor, hierarquia, correção, mas não tomo conta da vida dos meus funcionários”, diz Montebello. “O tenho em boa conta. Foi ele quem desenvolveu o sistema contra incêndios do prédio, que é excelente. Se fez algo errado, tem que pagar, mas digo que é um bom funcionário”, acrescenta o presidente.
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