Rio - A invasão de um grupo armado à Favela do Barbante, em Campo Grande, terça-feira à noite, deixou sete mortos e dois feridos. Mas, ao contrário do que a polícia acreditava, o ataque não partiu de traficantes do Comando Vermelho que queriam retomar dos milicianos o controle da comunidade de onde foram expulsos há dois anos. Segundo o delegado da 35ª DP (Campo Grande), Marcus Neves, a ação foi comandada pelo atual líder da ‘Liga da Justiça’, o ex-soldado PM Luciano Guinancio Guimarães, filho do vereador Jerônimo Guimarães.
O delegado afirmou que não houve confronto e que os invasores chegaram atirando indiscriminadamente. “Luciano fez tudo isso para tentar impressionar a comunidade e fazer crer que, sem a milícia na favela, ela vira um alvo fácil para os traficantes entrarem para barbarizar os moradores”.
Neves acrescentou que os mortos não tinham envolvimento com crimes. “Foi uma barbaridade que fizeram com os moradores. Todos os que morreram eram inocentes, trabalhadores. Eles perderam o controle da situação e agora estão desesperados, cometendo uma série de arbitrariedades”, revelou.
O delegado vai encaminhar relatórios à Secretaria de Segurança e à Polícia Federal, informando que outro objetivo da ação foi fortalecer a candidatura a vereadora da filha de Jerominho, Carminha Jerominho. “Eles montaram um plano mirabolante para intidimidar a população e tentar impor a candidatura que apóiam. Estão jogando as últimas fichas para emplacar a Carminha, mas duvido que consigam”, afirmou Neves.
A apuração do delegado aponta que 17 homens divididos em cinco carros promoveram a invasão. Dez foram identificados, entre eles, dois sargentos e um cabo. Todos terão a prisão pedida. O grupo usava calças camufladas e toucas ninja, atirava a esmo e gritava: “O Comando Vermelho voltou”. Depois de ordenar o fechamento do comércio e o toque de recolher, começaram as execuções. Há informações de que outros sete corpos estariam no Caminho do Furado, perto de Santa Cruz.
A primeira vítima da chacina foi o comerciante Ariovaldo da Silva Nunes, 37 anos, dono de um mercado e outras lojas na favela. Ari, como era chamado, foi arrancado do estabelecimento, arrastado e executado com vários tiros. Francisco Resende de Oliveira, 49, andava pelo local quando foi alvejado. Outros dois mortos foram identificados como Girão e Robô.
Morador torturado e morto
De madrugada, outro homem, de 59 anos, foi torturado e assassinado. Pela manhã, foram achados os corpos do motorista de van Bruno Sérgio Manhães Aires Batista, 37, e do auxiliar de serviços gerais da Caixa Econômica, Dário Leoneza, 56.
O motorista foi morto dentro do veículo, na Avenida Beira Rio. O corpo foi reconhecido pela mãe, Vera Manhães. “Meu filho, saiu de casa para trabalhar e encontrou a morte”, gritava.
Dário foi identificado pelos filhos. Morador de Paciência, ele foi de manhã na casa da namorada pegar o celular que ganhou no Dia dos Pais, quando foi morto com um tiro na cabeça. “Ele estava no lugar errado, na hora errada. Meu pai trabalhava na Caixa Econômica há 36 anos e iria se aposentar ano que vem. Já havia dado entrada na documentação”, disse o filho. O comerciante Ariovaldo foi enterrado ontem no Cemitério de Santa Cruz.
O comandante do Regimento de Polícia Montada (RPMont), tenente-coronel Weber Collier, disse que reforçou o policiamento.
INVESTIDA DE QUADRILHA EXPULSA
Outros policiais que investigam a atuação de milícias na Zona Oeste receberam informações de outra versão para o crime. O ataque teria partido de traficantes do Comando Vermelho, da Favela de Antares, em Santa Cruz. A invasão seria a mando de bandido identificado como Veneno, que fora expulso do Barbante quando a milícia ocupou o lugar.
O bando também teria se envolvido em confronto ocorrido domingo no Barbante, quando o tráfico tentou tomar a favela. Há informações de que já há uma metralhadora ponto 30 na favela.