Thiago Prado e João Antonio Barros
Rio - Limpeza na lavanderia. A cúpula das milícias que dominam as áreas carentes do Rio foi indiciada pela Polícia Federal (PF) por lavagem de dinheiro e extorsão. Iniciado a partir do levantamento de O DIA sobre os bens de líderes dos paramilitares de Rio das Pedras, Gardênia Azul, Campo Grande e Bangu, o processo revela detalhes da movimentação financeira de policiais e bombeiros envolvidos.
E traz uma descoberta: os 11 investigados por ligação com as milícias e as duas mulheres listadas no relatório da PF movimentaram em suas contas bancárias quase R$ 14 milhões nos últimos cinco anos — somado, o patrimônio chega a R$ 18 milhões. Um deles, embora sargento reformado da PM, acumula R$ 6,1 milhões entre apartamento, casas, carros de luxo e outros investimentos.
A cifra movimentada na compra de bens só é pequena na prestação de contas ao Leão. Em alguns casos, eles somam 10 vezes o valor declarado à Receita e mostram o poder financeiro da quadrilha com a cobrança de propinas e taxas nas comunidades. O relatório evidencia como funcionários públicos ficaram milionários com a exploração de transporte ilegal, TV a cabo pirata (gatonet), venda de gás e segurança clandestina. E conclui que os 13 indiciados não têm renda para justificar o patrimônio e a movimentação bancária.
No relatório da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da PF estão dois oficiais da PM, três vereadores e um deputado estadual. Dois deles, o capitão reformado Epaminondas de Queiroz Medeiros Júnior e o major Dilo Pereira Soares Júnior, foram acusados de usar as mulheres como laranjas para “ocultar o patrimônio conseguido com a extorsão dos moradores e lavando o dinheiro adquirindo imóveis”.
APÓLICES MILIONÁRIAS
Como O DIA mostrou em julho, Queiroz Júnior e a companheira são proprietários de imóveis na Barra, entre eles um apartamento de 240 m² no luxuoso condomínio Golden Green, na Barra. Já o major Dilo Júnior e a mulher moram em um apartamento com 4 quartos e 199 m², no Recreio. O casal ainda comprou, no início do ano, outro imóvel na Barra avaliado em R$ 2,3 milhões.
O patrimônio do sargento Dalmir Pereira Barbosa também chama a atenção. Além dos carros de luxo, ele possui apólices de seguro que somam R$ 5 milhões e, há dois anos, pagou R$ 300 mil, em dinheiro vivo, por uma cobertura na Barra.
Jerominho e Natalino na lista
O vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, (PMDB), e o deputado estadual Natalino José Guimarães (ex-DEM), líderes da milícia ‘Liga da Justiça’, também foram indiciados por apresentar um patrimônio incompatível com o salário pago pelo estado e movimentar “altas somas em dinheiro sem a cobertura legal”.
Novato na política, o vereador eleito Cristiano Girão (PMN), sargento bombeiros, foi pego pela PF porque movimentou R$ 2,2 milhões em suas cinco contas bancárias entre 2003 e 2007, enquanto o rendimento declarado à Receita foi de apenas R$ 155 mil no período.
No relatório, a PF sepulta um mito: “O argumento de que a milícia é melhor do que o tráfico é apenas um verniz para que as comunidades sejam subjulgadas e produzam lucros incalculáveis aos milicianos”.