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11/08/2008 01:14:00

De portas bem fechadas

Emergências de três hospitais interromperam socorro no fim de semana devido à ausência de médicos. Profissionais se queixam de má remuneração, e secretaria responsabiliza faltosos

Flávia Salme e Carol Medeiros

Rio - O atendimento precário na Saúde do Rio ficou mais comprometido no fim de semana: a falta de médicos levou à interrupção do trabalho em três importantes emergências na Região Metropolitana e de um setor de pronto-atendimento na capital.

Em três unidades estaduais — Rocha Faria, em Campo Grande, Pedro II, em Santa Cruz, e Saracuruna, em Caxias —, pacientes ficaram sem socorro. O problema se agravou diante da insatisfação de servidores e prestadores de serviço, que reclamam de baixos salários. “No Rocha Faria a gente só conta com a ajuda de Deus para se tratar. Médico, não tem”, resignou-se Sebastião Silva, ao buscar atendimento para a irmã, Ana Maria Silva, sábado. Passando mal, ela contou apenas com uma corrente de orações.

Ontem, somente um dos quatro clínicos que deveriam estar no plantão foi trabalhar. Funcionários da unidade afirmaram que os profissionais pediram demissão. “Ninguém agüenta trabalhar por esse salário. É mentira quando a secretaria diz que os plantonistas faltaram”, acusou um dos responsáveis pelo plantão.

A Secretaria Estadual de Saúde reconheceu a carência de médicos e assegurou que houve faltosos e que pode puni-los, inclusive com demissão. O órgão não confirmou pedidos de demissão e afirmou que o problema foi causado pela ausência de três cooperativados. A presidente da Associação de Funcionários do Rocha Faria, porém, sustenta a saída.
Clara Fonseca afirmou que o motivo foi o corte de R$ 500 de gratificação a plantonistas de fim de semana: “Por decisão da secretaria, os médicos que recebiam R$ 1.700 passaram a R$ 1.200. Assim, ninguém faz plantão na Zona Oeste”.

No Pedro II, a situação não foi diferente. “Não tem médico, os cooperativados foram embora. Encaminhamos casos graves para o Hospital de Saracuruna”, explicou um funcionário. O auxiliar administrativo Leandro Gomes, 25 anos, voltou para casa depois de ser barrado na unidade: “Torci o pé ontem e não consegui ser atendido”. Na unidade, quatro pediatras cooperativados faltaram e apenas o chefe de plantão estava. Dos seis clínicos, dois faltaram.

O Hospital de Saracuruna também recusou doentes que não estavam em estado gravíssimo. “O médico está operando, não tem previsão de atendimento”, disse o pedreiro Manoel de Aguiar, 58, que buscou ortopedista com suspeita de fratura no pé.

VIOLÊNCIA ASSUSTA NA PENHA E PROVOCA DEMISSÕES NO HGV

No Hospital Getúlio Vargas (HGV), na Penha, a violência assusta e a falta de médicos é mais grave entre os ortopedistas, segundo a própria Secretaria Estadual de Saúde. Profissionais pediram demissão depois que o médico Eduardo Cabral, 28 anos, ficou ferido por estilhaços de balas na perna e no braço, quinta-feira, depois de perseguição policial que terminou em tiroteio.

O médico estava de plantão e foi atingido no momento em que saiu para tentar retirar seu carro do lugar. Alguns projéteis também atingiram paredes da unidade.

“No hospital, há déficit de ortopedistas porque houve alguns pedidos de demissão depois do conflito na porta da unidade. O quadro de neurocirurgiões e anestesistas está completo”, afirmou, em nota, a secretaria.

No Rocha Faria, a segurança pode ficar comprometida esta semana. Profissionais que trabalham na guarda patrimonial da unidade prometem cruzar os braços por falta de pagamento. Eles reclamam que estão há dois meses sem receber. A secretaria culpa a empresa prestadora do serviço pelo problema. Os seguranças, porém, garantem que a firma está há seis meses sem receber repasses do órgão estadual.

SOUZA AGUIAR: APENAS CASOS MUITO GRAVES REDE MUNICIPAL

O Serviço de Pronto-Atendimento do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, também fechou as portas ontem e determinou a pacientes que voltassem para casa devido à falta de médicos. “Só estamos atendendo casos de vida ou morte desde sábado”, avisou a recepcionista.

O pedreiro Elias Alves, 46 anos, cansou de esperar e voltou para casa, mesmo sem diagnóstico para o seu problema. “Dei um jeito na coluna e fui encaminhado para cá. Não conseguia levantar. Eles bateram uma chapa, mas ninguém analisou o resultado. Esperei três horas, mas a dor é muito grande, vou para casa", contou.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, o serviço de Pronto-Atendimento da unidade foi interrompido porque os quatro médicos de plantão tiveram de reforçar o atendimento nas salas de emergência, que ficaram superlotadas.

A secretaria admitiu, porém, que sábado o serviço foi suspenso por duas horas porque profissionais faltaram ao plantão. De acordo com o órgão, o problema foi resolvido com o remanejamento de profissionais de outros setores.

Em junho, o Conselho Regional de Medicina (Cremerj) denunciou superlotação em 98% das emergências no Rio. De acordo com o levantamento, 77% dos médicos afirmaram que as equipes estão incompletas. A maior carência é de cirurgiões, clínicos, cardiologistas e ortopedistas. Entre os motivos do afastamento dos médicos da rede, 35% alegam baixos salários; 24%, sobrecarga de trabalho; 20, superlotação nas salas de emergência.

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