Vania Cunha, Daniela Dariano e Christina Nascimento
Rio - Numa ação ousada, com execução típica de um pistoleiro profissional, foi assassinado, na manhã de ontem, com um tiro na nuca, o delegado titular da 20ª DP (Vila Isabel), Alcides Iantorno, 66 anos. O crime aconteceu às 8h15, quando o policial entrava, desarmado, no supermercado Zona Sul da Avenida das Américas, no Recreio dos Bandeirantes. O atirador chegou, caminhou cerca de quatro metros e, com pistola calibre 380 quase encostada na cabeça de Iantorno, fez o disparo. Antes de sair, comemorou: deu quatro tiros para o alto. O episódio foi considerado pela Polícia Civil como um recado e uma afronta à instituição.
O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, descartou roubo e disse que a hipótese mais provável é de que o crime tenha sido cometido por milicianos. Essa é a linha de investigação mais forte. Ano passado, Iantorno estava à frente da 22ª DP (Penha). Sua equipe prendeu cinco PMs acusados de integrar milícia na Favela Kelson’s, na Penha. Foi apreendida uma lista com nomes de comerciantes que pagavam propina aos criminosos. A polícia também trabalha com a hipótese de Iantorno ter sido executado em retaliação ao fechamento de um bingo em Vila Isabel.
O assassinato do delegado foi testemunhado por funcionários e clientes e filmado por quatro câmeras do supermercado. Pelas imagens, a polícia sabe que o pistoleiro tinha entre 26 e 30 anos, vestia calça jeans, camisa pólo vermelha, usava boné verde e estava com mochila atravessada no peito. Ele abaixou a cabeça, dificultando a identificação.
Na maior parte do tempo, o assassino aparece de perfil no equipamento de segurança, o que leva a crer que o executor conhecia o sistema de monitoramento. O delegado Sérgio Caldas, chefe do Departamento de Polícia da Capital, deu ênfase à frieza do assassino: “O executor é alguém que tem contato com esse tipo de situação de estresse”. A filmagem revela ainda que, ao ser baleado, o delegado encolheu os ombros e tentou olhar para trás, supostamente tentando ver o rosto do assassino. As imagens estão sendo analisadas pela perícia.
“É um tiro contra a instituição. Soou como recado, mas não adianta matar ‘polícia’. Vamos montar força-tarefa e chegar aos executores”, garantiu Ricardo Martins, subchefe da Polícia Civil.
Ainda de acordo com a polícia, o assassino e um comparsa seguiram Iantorno num Palio prata, que ficou parado em frente ao mercado. O pistoleiro desceu do veículo quando o delegado chegou — de bermuda e chinelos — e o seguiu. Após o disparo, o bandido entrou no automóvel, que saiu em alta velocidade no sentido Zona Sul, virando à direita na Avenida Glaucio Gil. O Palio foi flagrado por câmeras da CET-Rio próximas ao local e também pode ter sido filmado em outros pontos. Policiais refizeram o trajeto dos assassinos.
Uma testemunha anotou a placa do carro, que é de Itaboraí. Há suspeitas de que a placa seja clonada. Ontem à noite, veículo semelhante foi apreendido para perícia. Os donos prestaram depoimento e foram liberados.
“A polícia se sente pessoalmente atingida. A instituição tem que se unir e penalizar com rigor. Não vamos medir esforços”, declarou o titular da Delegacia de Homicídios, Roberto Cardoso, responsável pelo caso. Amigos e parentes negaram que Iantorno sofresse ameaças.
CRONOLOGIA
Às 7h50, policiais do 31º BPM foram avisados de que 15 homens fortemente armados passavam pela Estrada dos Bandeirantes. Uma hipótese levantada é de que tivessem a intenção de desviar a atenção do crime, que ocorreria 25 minutos depois na Avenida das Américas.
Às 8h15, o delegado Alcides Iantorno foi executado a sangue frio na entrada do supermercado, que freqüentava nos fins de semana pela manhã. Ele foi atingido na nuca e morreu na hora.
Por volta das 11h, o corpo de Iantorno foi levado para o IML em uma blazer da 20ª DP (Vila Isabel), que entrou pela lateral do mercado, enquanto o rabecão, que chegou duas horas após o crime, estava estacionado em frente ao estabelecimento, desviando a atenção dos curiosos.
O supermercado, que foi fechado e isolado, assim como a floricultura ao lado, foi reaberto às 13h40.
Filho e irmão muito abalados
Filho da vítima, o policial Alcides Iantorno, da DAS, estava muito abalado e não comentou o crime. O outro filho do delegado é médico e mora em Manaus (AM). Ele chegaria ontem à noite para o enterro, hoje, às 10h, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap.
Mais novo dos quatro irmãos de Alcides, Milton Iantorno disse que o delegado era pacífico. “Ele não andava armado. Quem não anda armado é porque pensa que não tem inimigos.”