João Antonio Barros e Thiago Prado
Rio - As garagens dos investigados por ligação com as milícias no Rio se assemelham a um desses salões de automóveis, onde fabricantes apresentam as últimas novidades do mercado. Eles desfilam de Toyota Hilux, Nissan Frontier, Dodge Ram. Carro nacional é raridade. O gosto da turma é mesmo pelas máquinas importadas, de preferência modelos zero quilômetro e blindados. A ostentação e o exagero com automóveis e motocicletas são marcas registradas desse grupo nas comunidades carentes que são suspeitos de comandar.
No quesito esbanjar, ninguém se compara ao sargento do Corpo de Bombeiros Cristiano Girão Matias, investigado pela Secretaria de Segurança por comandar a milícia na Gardênia Azul, em Jacarepaguá. Além do CrossFox que deu de presente de aniversário este ano à mulher, no valor de R$ 50 mil, o militar mantém cinco carros e uma moto licenciados em seu nome.
Somados, os veículos valem quase R$ 300 mil. O destaque vai para os três Toyotas que tem — um deles o Hilux modelo 2007, avaliado em R$ 136 mil no mercado. É nele que Girão viaja para o sítio em Silva Jardim. A frota do bombeiro ainda inclui um Mitsubishi, um Polo e uma moto Yamaha.
Os irmãos Dalmir e Dalcemir Pereira Barbosa — investigados por envolvimento com a milícia de Rio das Pedras, em Jacarepaguá — também foram seduzidos pelo luxo. E têm, juntos, nove veículos, que totalizam quase R$ 300 mil.
Cada um dos irmãos tem um Toyota Hilux — modelo campeão de preferência entre os investigados. O sargento reformado Dalmir ainda acumula um Fiat Siena e um Astra. Já Dalcemir tem lista mais extensa de automóveis: possui um Passat turbo alemão, um Ford Taurus, um Mazda e dois microônibus — Fiat Ducato e Peugeot Boxer, marcados como alugados no Detran.
O major Dilo Pereira Soares, também investigado pela influência em Rio das Pedras, é mais econômico na quantidade. No seu nome, ele tem registrada um Toyota Hilux 2007 de cor prata, avaliado em R$ 141 mil. Sua atual companheira também circula com um belo carro: um Mitsubishi Airtrek, de cerca de R$ 80 mil.
Investigado por ligação com o comando da milícia de Rio das Pedras, o capitão Epaminondas de Queiroz Medeiros Júnior também aprecia rodar com estilo. Pelas multas recebidas, constata-se que o oficial dirige um Honda, um Ford EcoSport e um modelo Chrysler, todos arrendados de financeiras. No nome do filho do capitão, de apenas 23 anos, está um Dodge Ram 2006, avaliado em R$ 112 mil.
LEASING PARA OCULTAR BENS
Para não ter o carro em seu nome, alguns dos investigados adquirem veículos em sistema de ‘leasing’ — o arrendamento com opção de compra que substitui o financiamento tradicional. É o caso do deputado estadual Natalino Guimarães, que — além do Toyota Corolla e de um Peugeot importado em seu nome —, recebeu multa usando uma Toyota Hilux modelo 2008 arrendada de uma financeira este ano.
O bombeiro Flávio Fiocchi, suspeito de envolvimento com a milícia do Catiri, em Bangu, tem um EcoSport e alugou um Nissan Frontier e uma moto Yamaha nos últimos meses. Os três veículos juntos valem mais de R$ 100 mil.
O empresário e ex-PM Geiso Pereira Turques é mais um a usar o sistema de leasing. Ele tem arrendado um Vectra Sedan Elegance cotado em quase R$ 50 mil.
PM NÃO COLABORA
O deputado Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias na Alerj, que investiga a atuação de grupos paramilitares no estado, disse ontem que “só o Comando Geral da PM não tem demonstrado boa vontade”. “Não consigo nem agendar uma reunião”, afirmou.
O comentário do deputado foi feito após encontro com o procurador-geral de Justiça do estado, Marfan Vieira, no Ministério Público, onde ficou decidido que o MP vai encaminhar à CPI todas as informações sigilosas e os processos sobre milícias. Marfan também colocou à disposição da CPI os promotores de Santa Cruz e de Campo Grande — áreas dominadas por grupos de milícias.
Além dos promotores, Freixo não descartou convidar para depor na CPI o deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM), denunciado pelo MP por formação de quadrilha. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse a O DIA, domingo, não ter dúvidas de que Natalino e o irmão, o vereador e policial civil Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, sejam chefes de milícia.
Freixo terá reunião, esta semana, com a Receita Federal. O objetivo é buscar detalhes do patrimônio dos suspeitos de ligações com milícias, como O DIA publica desde domingo. Segundo o deputado, a CPI também vai acompanhar a investigação da Polícia Federal.
O vice-presidente da CPI, deputado Paulo Ramos (PDT), e o relator, Gilberto Palmares (PT), além do promotor Antônio José e subprocurador-geral de Justiça de Direitos Humanos, Leonardo Chaves, participaram da reunião no MP.
DEPOIMENTOS
Na quinta-feira, integrantes da CPI das Milícias na Alerj vão se reunir para discutir os próximos passos da investigação. Um dos assuntos que serão colocados em pauta é a convocação de policiais, bombeiros e políticos que estão sendo investigados pela Corregedoria Geral Unificada e pela Subsecretaria de Inteligência. Para que os suspeitos sejam interrogados, é necessário o voto de quatro dos onze integrantes da comissão.