João Antônio Barros e Thiago Prado
Rio - Nas declarações de bens entregues ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), os homens de ouro da milícia que vão se candidatar a vereador parecem até ter vida modesta. Levantamento feito por O DIA mostra que há discrepância entre o patrimônio apresentado na Justiça pelos suspeitos de integrar grupos paramilitares e as escrituras dos seus imóveis em cartórios do Rio e Interior. E não é a primeira vez que isso ocorre: na eleição passada, quando os investigados tentaram vaga na Assembléia Legislativa (Alerj), os dados também foram repassados de forma subavaliada.
Sargento do Corpo de Bombeiros, Cristiano Girão (PMN) — investigado por integrar a milícia de Gardênia Azul — declara um Toyota Hilux de R$ 176 mil e cotas de duas empresas como seus bens. No entanto, os cartórios e o sistema do Detran acusam que o militar também tem uma fazenda em Silva Jardim, Interior do estado, avaliada por corretores locais em R$ 300 mil, e mais quatro carros e uma moto, que somados chegam a quase R$ 120 mil.
Girão ainda mora em apartamento na Avenida Sernambetiba, Barra da Tijuca, que não está no seu nome. Em 2006, quando foi candidato a deputado estadual pelo PHS, o bombeiro repassou o imóvel — avaliado em R$ 500 mil pela Prefeitura — por apenas R$ 15 mil para Solange Ferreira Vieira, sua sócia minoritária em duas lojas em Gardênia Azul.
Na época, Girão já tinha a fazenda no Interior, mas declarou ao TRE possuir só R$ 33.280 em bens. Naquele ano, o bombeiro ainda encaminhou uma prestação de contas ao tribunal em que afirma não ter gasto um centavo na campanha.
No caso do capitão reformado PM Epaminondas de Queiroz Medeiros Júnior (DEM) — suspeito de chefiar a milícia de Rio das Pedras, em Jacarepaguá —, se for verdadeira a prestação de contas feita ao TRE, o oficial teve um salto patrimonial espetacular em dois anos. Nas eleições de 2006, quando foi candidato a deputado estadual pelo PDT, Queiroz declarou ter R$ 16.965,02 em bens. Na época, o policial omitiu da Justiça Eleitoral seu apartamento no Recreio dos Bandeirantes com a ex-mulher Maria Tereza, comprado em 25 de abril de 2004 e avaliado, hoje, em R$ 450 mil.
SALTO PATRIMONIAL
Este ano, o oficial resolveu declarar o imóvel e mais dois carros (um Honda Fit 2007 e EcoSport 2006), acumulando R$ 541 mil de patrimônio, (3.100% acima do apresentado na corrida eleitoral passada). A atual companheira, Glaucia, mantém em seu próprio nome um apartamento no condomínio Golden Green, na Barra, mas, nesse caso, Queiroz não precisa declarar o bem.
O arqui-rival em Rio das Pedras, Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho (DEM) — também investigado por integrar milícia — declara patrimônio mais modesto. Ele afirma ter uma casa no valor de R$ 55 mil na comunidade, loja de R$ 15 mil e um Santana 2006 no valor de R$ 24.970.
TRÊS VEÍCULOS PELO PREÇO DE UM
A declaração de bens do candidato Luiz André Deco (PR) apresenta algumas curiosidades e uma clara subvalorização dos automóveis em nome do vereador. Ele afirma ao TRE que possui dois carros e um caminhão, todos avaliados em R$ 78.218,42. O preço total declarado é inferior só ao Mercedes Benz 710, ano 2007, que vale no mercado R$ 80 mil. O outro exemplo é a picape Saveiro 2007/2008. Nas lojas revendedoras da marca Volkswagem, o veículo não sai por menos de R$ 26 mil (com direito a promoções arrasadoras). Mas o vereador Deco avalia o carro em apenas R$ 8.723,40.
Outro carro declarado ao TRE é o Bora, modelo 2006/2007, um carro top de linha no mercado. Luiz André cravou junto ao TRE que o automóvel vale apenas R$ 20.234,34. No mercado, o preço é estipulado em cerca de R$ 50 mil e não precisa nem o carro estar superconservado.
Candidato da mesma região da Praça Seca, Luiz Monteiro Doen declara um lote no valor R$ 706,24. Com esse dinheiro, não se compra nem as madeiras e o portão que cercam o imóvel. Também chama a atenção a avaliação do candidato para uma casa em Vila Vaqueire: R$ 5 mil. Nem em favelas é possível encontrar residência por esse preço.
O político diz ainda que é proprietário de 22 quitinetes em Jacarepaguá, que, juntos, estão orçados em R$ 154 mil (R$ 7 mil cada). Este valor é mais ou menos quanto se ganha em dois anos de aluguel na região. Na declaração sobre seus carros, ele também foi econômico: sua Toyota Hilux custa somente R$ 54.890,32, embora já tenha desembolsado R$ 50 mil em cotas de um consórcio na empresa Rodobens.