7 de fevereiro de 2007
Dois ladrões de carro mataram o menino João Hélio Fernandes, de 6 anos, que viajava no banco de trás de um Corsa prata, dirigido por sua mãe, Rosa Cristina Fernandes, em Cascadura, subúrbio do Rio. A criança ficou presa ao cinto de segurança quando a mãe, ao ser rendida pelos bandidos, tentava tirá-la do carro. No momento do assalto, além de João Hélio, estavam no carro a irmã dele, de 13 anos, e uma amiga da família. As mulheres conseguiram sair do veículo. Os bandidos saíram em disparada e o menino foi arrastado pendurado ao carro por 7 quilômetros. Durante o trajeto, de 15 minutos, os ladrões percorreram cerca de 10 ruas arrastando a criança, da rua João Vicente, em Osvaldo Cruz, até a rua Caiari, em Cascadura.
O crime ocorreu por volta das 21h. Muitos moradores que acompanharam a cena de barbárie correram atrás do carro, desesperados, numa tentativa sem sucesso de parar o carro e salvar o menino. Pelo menos três motoristas também tentaram alcançar os bandidos, piscando farol alto, aos gritos pela janela.
No início da madrugada, o comandante do 9º BPM, tenente-coronel Batalha, ordenou uma operação de caça aos bandidos. O comandante, que foi ao local, ficou chocado com o crime: "Uma barbaridade. Em 27 anos de polícia nunca vi nada parecido". O registro foi feito na 28ª DP (Campinho).
O corpo do menino, com o crânio esfacelado, foi encontrado junto ao carro abandonado pelos bandidos na Rua Caiari. O Corsa foi deixado estacionado e fechado pelos bandidos, que foram vistos por moradores, caminhando tranqüilamente em direção à Praça Três Lagoas.
Policiais militares do 9º batalhão (Rocha Miranda) do Rio, que estavam de folga, voltaram ao trabalho para ajudar na captura dos bandidos. Segundo o relações-públicas da PM, tenente-coronel Rogério Seabra, o clima era de comoção na corporação.
8 de fevereiro de 2007
O enterro do menino, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, foi marcado por muita emoção. Em silêncio, os pais acompanharam o cortejo. Aline, irmã de João Hélio desabou: "Eu quero meu bebê de volta! Vou abrir aquele caixão e tirá-lo de lá! Eu quero meu irmão de volta! Eu quero ouvir a vozinha dele de novo! Eu quero ir com ele! Eu vou ficar com ele até o fim porque ele está vivo! Eu vou matar aqueles dois! Levaram o meu irmão!", repetia, pedindo desculpas por não ter conseguido tirá-lo do carro.
O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, e o comandante da Polícia Militar, Ubiratan Angelo, prestaram solidariedade à família. O secretário classificou o crime como banalização da violência. "Sou pai e posso imaginar a dimensão da dor desta família. Estou revoltado com esta atitude animalesca", afirmou, lembrando que está fechando alguns batalhões para aumentar o policiamento nas ruas.
Na mesma tarde, foram presos três suspeitos do assalto. Eles foram encontrados por agentes do 9º BPM (Rocha Miranda) na localidade da Serrinha, no Morro São José, em Madureira, após denúncia encaminhada ao Serviço de Inteligência, e encaminhados à 30ªDP (Marechal Hermes), onde prestaram depoimento.
Segundo a polícia, dois deles, entre eles um menor, confessaram o crime em depoimento informal. Dois foram identificados como Diego Nascimento da Silva, 18 anos, e Tiago Abreu Matos, 19 anos. O terceiro tem 16 anos e não pode ter o nome revelado por ser menor de idade. No início da tarde, a polícia havia detido o pai de Diego para que ele prestasse alguns esclarecimentos. Segundo o homem, que não teve a identidade revelada, o filho chegou em casa, em Cascadura, Zona Norte, na noite desta quarta-feira, muito nervoso, trocou de roupa, saiu novamente e não voltou mais. Diego já tem passagem pela polícia por assalto.
Horrorizado com a barbárie, o pai de Diego Nascimento da Silva, de 18 anos, ajudou a polícia a prender o próprio filho, acusado de ter participado do assalto que terminou com a morte do menino João Hélio. A PM chegou à casa dele através de informações passadas para o Disque-Denúncia. Na residência, não encontrou Diego, apenas seu pai, Kueginaldo Marinho da Silva, 35, que, ao saber que o filho era procurado pelo crime, entregou seu celular. Foi através das últimas chamadas do telefone que os policiais descobriram o paradeiro de Diego, capturado junto com seu comparsa na ação, o menor E., de 16, no Morro São José da Pedra, ao lado do Morro da Serrinha, em Madureira.
No local onde a mãe de João Hélio foi abordada, esquina da Rua João Vicente com Av. Henrique de Melo, o policiamento foi reforçado. Na escola onde o menino estudava, tristeza e revolta dominaram alunos, professores e funcionários. Policiais militares que prenderam dois dos criminosos responsáveis pela barbárie também se emocionaram ao recordar a cena do crime. O governador Sérgio Cabral Filho defendeu a autonomia para os estados legislarem em questões envolvendo temas como segurança e a discussão da redução da maioridade penal.
9 de fevereiro de 2007
A morte brutal de João Hélio levantou uma importante discussão quanto à utilização do cinto de segurança. Os pais começaram a se questionar se num caso como o do menino teriam tempo para tirar a criança do carro. Apesar de lamentar a morte do menino, o presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Marcos Musafir, reforçou a recomendação para o uso do cinto. "A mãe estava correta e nós, ortopedistas, nos solidarizamos com a família. O que aconteceu foi um caso raro que não tinha ouvido falar em 20 anos de estudo", declarou o médico.
Segundo Musafir, colisões podem causar lesões fatais de crânio, tórax e abdômen e deixar seqüelas. O trauma de trânsito é a principal causa de morte de crianças de 3 a 12 anos. O presidente do Sindicato das Auto-Escolas do Estado, João Pinto Ribeiro, também defende o cinto e educação de trânsito para as crianças, que poderiam ser orientadas de como se soltar.
Além da proteção contra lesões em caso de batida, o uso do cinto de segurança é obrigatório nos bancos dianteiro e traseiro. O motorista que transportar crianças sem ele pode pagar multa de R$ 314,91 e receber sete pontos na carteira. A Guarda Municipal do Rio aplicou no ano passado 27.907 multas pela falta do cinto tanto na frente quanto atrás. O prefeito Cesar Maia defende a punição: "Um ato de barbarismo não pode levar a outro que ceifaria centenas de vidas pelo não uso do cinto".
A polícia ainda procura dois suspeitos de terem participado da morte do menino João Hélio Fernandes, de seis anos, que foi arrastado por várias ruas da Zona Norte, na noite desta quarta-feira. Após o depoimento de Diego Nascimento da Silva, de 18 anos, que negou estar ao volante do carro, a polícia fez uma operação no Morro da Congonha, em Vaz Lobo, atrás do irmão do menor E., detido ontem, mas não conseguiu localizá-lo.
11 de fevereiro de 2007
Policiais da 30ª DP (Marechal Hermes) prenderam Carlos Eduardo Toledo Lima, de 23 anos, o quinto suspeito de ter participado da morte do menino João Hélio, de 6 anos. A negociação para que Carlos se entregasse foi feita pelo seu pai, que é evangélico. Carlos, que já tem cinco passagens pela polícia, se entregou na praça de Marechal Hermes. Ele estava carregando uma Bíblia e negou qualquer participação no crime. Carlos foi levado para a 30ª DP, para prestar depoimentos.
Rosa Cristina Fernandes, mãe do menino João Hélio, desabafou hoje. Ela afirmou que, quando viu seu filho sendo levado pelo veículo, percebeu que não poderia salvá-lo. "Quando vi que ele foi arrastado, percebi que não poderia corrigir aquilo. Não poderia livrá-lo da morte", disse, emocionada, em entrevista para o Fantástico, da TV Globo. "Entreguei tudo. Só quis meu filho. Eu queria meu filho", lamentou.
Rosa Cristina relembrou o dia do crime e contou que quem dirigiu o carro era o criminoso mais alto. "A pessoa que saltou do lado esquerdo (do carro da frente), me rendeu e assumiu a direção", lembrou. Rosa avisou para o assaltante que seu filho estava preso ao cinto de segurança, mas ele fechou a porta e arrancou o carro, afirmou. "Eu sabia que a situação era difícil, comecei a rezar por um milagre", disse. "Surgiu uma revolta, porque eu vejo que não são todas as pessoas que têm uma alma boa, amor no coração. Há pessoas duras, que não têm coração", completou.
A mãe e o pai do menino, Elson Lopes Vieites, mostraram preocupação com a filha, que presenciou a morte do irmão. "Ela passou por um ato bárbaro. Não sei como pode ficar a cabeça dela com esse tipo de cena", disse Rosa. A adolescente escreveu uma carta, agradecendo a todos que têm apoiado sua família. "Tenho 14 anos e estou péssima. Minha família está sem chão. Se essa não é a hora de mudança, quando será? O Brasil está em fúria. Ao pai de Diego (suspeito preso) eu agradeço com todo meu coração, porque ele sim é uma pessoa de bem. Obrigado, Brasil, por todo apoio".
A família de João Hélio Fernandes defendeu a redução da maioridade penal. Um dos suspeitos do crime é um jovem de 16 anos. "Se ele ficar solto na rua, vai fazer de novo. E ainda vai rir", disse a mãe do garoto. Segundo ela, o motivo mais importante para o casal dar a entrevista era pedir aos governantes que "tivessem alma, que olhassem o João como filho, não como mais um". Na opinião de Rosa, é preciso rever a lei penal. "O Rio de Janeiro tem que ter uma legislação específica. Os menores, quando cometem um crime bárbaro, têm que ser tratados como adultos. Senão, daqui três anos, podem sair e matar outro João".
"Só queríamos que a morte dele não ficasse em vão. Que tudo que vem acontecendo marcasse uma mudança no País. Coisas como essa não podem voltar mais a acontecer. Pessoas não podem sofrer como a gente está sofrendo", finalizou o pai do menino, Elson Lopes Vieites.
30 de janeiro de 2008
A juíza da 1ª Vara Criminal de Madureira, Marcela Caram, condenou quatro acusados de envolvimento com o assassinato do menino João Hélio por latrocínio - roubo seguido de morte. O grupo, no entanto, foi absolvido pelo crime de formação de quadrilha.
Os réus Carlos Eduardo Toledo Lima, Carlos Roberto da Silva, Diego Nascimento da Silva e Tiago de Abreu Matos receberam penas de 45 anos, 39 anos, 44 anos e 3 meses, 39 anos, respectivamente.
Segundo foi apurado, Carlos Eduardo dirigia o veículo, Diego estava na carona e um menor de idade estava no banco de trás. De acordo com o processo, Tiago e Carlos Roberto, apesar de teriam sido responsáveis por deixar os demais de táxi no local em que a família foi abordada, nada fizeram para impedir o arrasto ou atender aos incessantes pedidos de socorro dos familiares de João Hélio.
Em março do ano passado, o menor de idade acusado de participar do crime recebeu da Justiça a medida sócio-educativa. Ele está internado em regime fechado. O prazo de internação não foi determinado na sentença.