Rio - Apesar de a Secretaria de Segurança Pública (SSP) ter anunciado na semana passada uma redução no número de crimes cometidos contra a vida no estado do Rio — particularmente homicídios dolosos e autos de resistência —, para alguns especialistas em segurança pública essa diminuição pode ocultar distorções nos dados sobre violência.
Pesquisadores mostram que, desde 1991, cresce o número de desaparecimentos registrados nas delegacias e que esses casos podem estar maquiando crimes de execuções, assassinatos e de auto de resistência. Considerando que o número de homicídios não inclui os encontros de cadáveres e ossadas e autos de resistência, os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram uma redução de 17,9% de homicídios em agosto deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado.
No mesmo mês, porém, houve aumento de 20,5% de desaparecimentos. Em 1991, eram 2.617 os desaparecidos por ano no estado. Em 2007, foram 5 mil. Segundo o professor Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, os erros nos números acontecem por vários motivos.
“O mais simples é a falta de correção das estatísticas com a resolução dos crimes. Para o ISP, o que será usado como dado é a informação do primeiro registro, mesmo que depois seja comprovado que o desaparecido foi assassinado ou vítima de outro crime. O governo disse há alguns anos que havia caído o número de roubos a transeuntes. Na verdade eles tinham criado a nomenclatura de roubos a celulares e que passou a acolher parte dos números dos transeuntes”, disse Cano.
A socióloga Julita Lemgruber, da Universidade Cândido Mendes, defende a criação de uma única categoria de morte por violência intencional. Nela estariam incluídos latrocínios, homicídios e todos os outros casos de morte violenta. “Isso seria determinante para avaliar se a violência está diminuindo. O caso dos desaparecidos é de grande preocupação. É evidente que há muitos crimes de homicídios e autos de resistência que são tratados como desaparecimentos e que deixam de retratar a realidade da violência”, disse Julita.
A Secretaria de Segurança Pública informou em nota oficial enviada ao jornal O DIA , que “em nenhum lugar do mundo, a priori, os desaparecidos são considerados mortos. Em geral, sabe-se que as famílias registram o desaparecimento, mas não têm o hábito de registrar o reaparecimento. Quem faz essa relação deveria ter certeza e prova na hora de acusar e não ficar usando expressões do tipo “pode ser que”. Ainda de acordo com a Secretaria, em agosto, caíram homicídios (-17,9%) e autos de resistência (-76,4%). Estes dois delitos são considerados estratégicos pelo Estado, freqüetemente criticado por organismos internacionais.