Rio - O Aterro de Jardim Gramacho, em Caxias, está com os dias contados. Mas não é força de expressão. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente e a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) anunciaram nesta sexta-feira que um novo acidente ambiental aconteceu no início do mês, e o aterro controlado só aguentará receber resíduos até junho. Um estudo elaborado por técnicos da Feema havia creditado a vida útil de 170 dias a partir de outubro de 2007.
Até que a tragédia prevista não aconteça, a alternativa é aumentar o aporte de lixo recebido no Aterro de Gericinó, em Bangu. Isso porque o Aterro de Paciência, em pauta para ser aprovado há seis anos, ainda precisa de licenciamento. Mesmo que a audiência do próximo dia 3 de abril aprove o aterro, técnicos da Feema garantem que ele precisaria de pelo menos oito meses para entrar em operação.
O Aterro de Gramacho foi implementado em 1978, e recebe diariamente 7.700 toneladas de lixo, destes 6.500 do mjunicípio do Rio de Janeiro. A montanha de lixo fica sobre uma superfície gelatinosa composta pelo chorume, material líquido espesso que é fruto da decomposição da matéria orgânica despejada.
Com o acidente detectado esse líquido pode ser despejado tanto na nascente do Rio Sarapuí como na Baía de Guanabara, e matar todas as formas de vida que dependem do oxigênio para se manter, como peixes.
O impacto sobre o Rio Sarapuí seria ainda mais desastroso. A desembocadura do rio seria interrompida e Caxias poderia sofrer com inundações.
"Todo mundo sabia que ele não era uma solução definitiva", lembra o Secretário de Meio Ambiente Carlos Minc. Segundo ele mais de 50% da área do aterro já foi afetada e está interditada, do total de 1,5 milhão de Km2.
"Quem resolve aonde vai fazer outro aterro é o município. Estamos tentando ajudar com dinheiro do Fundo Estadual de Conservação do Meio Ambiente", explicou o secretário.
Ele afirmou, juntamente com o Presidente da Feema Alex Grael, que os municípios de Nilópolis, Mesquita e São João de Meriti não teriam espaço para despejar os resíduos com o fim de Gramacho. "Eles estão sem saída, até porque Gericinó também está esgotado", diz Minc.
Catadores em apuros
Com o fim do Aterro de Gramacho os mais afetados serão os mais de quatro mil catadores que sobrevivem dos restos de resíduos encontrados no local.
A Secretaria Estadual de Meio Ambiente tenta negociar dois caminhos para os catadores. Para cada milhão de reais em recursos do Fecam a Fundação Nacional de Saúde entraria com R$ 2 milhões. Uma outra ação parte da empresa que explora a liberação de gás metano no aterro. Ela investiria 1.2 milhão por 14 anos para uma espécie de seguro-desemprego dos catadores. No final daria cerca de 300 reais para cada um. Minc diz que vai pedir o aumento dessa quantia.
"Infelizmente o município não tem um plano B. Houve problemas com a Câmara, com a população para a implementação do aterro em Paciência, e com os catadores, que ficarão sem emprego", lamenta o secretário.
Medidas
Com o colapso do Aterro de Gramacho a Comlurb passará a elaborar relatórios quinzenais sobre as condições do solo. Um pedido da Feema para a Comissão Estadual de Controle Ambiental (CECA) e para a própria Comlurb tentará ampliar a áera do Aterro de Gericinó.
Para o presidente da Feema, só um milagre explica que nada tenha acontecido de mais grave até agora. "A tentativa de equilíbrio não é mais possível", explica.
Alternativas para o próprio tratamento do lixo no estado foram descartadas. A incineração, na qual os resíduos são queimados em altas temperaturas, é cara. A coleta seletiva, segundo Carlos Minc, é uma medida de médio prazo, já que o retorno imediato não compensa.
"Temos 80 municípios ainda com o chamado lixão, com urubus, porcos, cavalo, e crianças se acotovelando com esses animais para catar alguma coisa. Temos primeiro que passar do século 19 para o 20, e implementar os aterros sanitários. Depois tentar entrar no século 21 com medidas mais modernas."
Natureza sofrerá as conseqüências
"Um desastre ambiental sem precendentes”. É assim que o biólogo Mário Moscatelli resume o que poderá acontecer se o chorume — resíduo gerado pela decomposição de lixo — do Aterro de Gramacho vazar e entrar em contato com o manguezal e a Baía de Guanabara.
Responsável pelo projeto que revitalizou o mangue de Gramacho, Moscatelli conta que, a natureza, será a grande prejudicada. “O chorume é um veneno. Como o mangue é um ecossistema que abriga diversas espécies, os animais que se encontram por lá, como aves migratórias, frango d’água, marrecos, gambás, capivara, além de diversas espécies de caranguejos, irão desaparecer”, avisa o biólogo.
“É uma situação realmente lamentável, porque foram 10 anos de dedicação para ressussitar uma área de 1,3 milhão de metros quadrados de manguezal”, complementa.
Moscatelli diz que o destino do lixo sempre foi um problema, mas alerta quanto a necessidade de uma solução imediata. "A curto prazo, precisa-se urgente de um novo aterro para receber o lixo.”, diz.
Colaborou Gislandia Governo