Rio - Mil e setecentos homens das Forças Armadas entrarão no combate à dengue no Rio. Os militares montarão três hospitais de campanha que funcionarão dia e noite: 1.200 médicos, enfermeiros e técnicos atuarão nas unidades a partir de segunda-feira. Outros 500 militares vão trabalhar na eliminação de focos do mosquito. A epidemia, que já é a mais letal do estado, provocou a morte de 54 pessoas desde janeiro.
“Estamos com um nível de letalidade insuportável. É inaceitável para qualquer autoridade sanitária esse comportamento da epidemia. Nosso problema é que são crianças que morreram e não precisavam ter morrido. Nosso esforço é para evitar que mais crianças morram. Por enquanto, essa é a (epidemia) mais letal”, disse o Secretário Nacional de Atenção à Saúde, José Noronha, após reunião do gabinete de crise.
O hospital de campanha do Exército será em Deodoro. O da Marinha, em Nova Iguaçu. Já a unidade da Aeronáutica funcionará na Barra da Tijuca e será a única em que os pacientes poderão ir diretamente, sem precisar de encaminhamento médico, devido à proximidade com Jacarepaguá, bairro em que a situação está pior.
“A Aeronáutica vai ter uma unidade de triagem no terminal Alvorada, onde médicos selecionarão pacientes e levarão os que precisarem de hidratação para o hospital de campanha da Barra”, explica o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes. “A população com sintomas de dengue pode procurar diretamente a triagem no Terminal Alvorada”. Juntos, os hospitais têm 130 poltronas. A previsão é que as unidades funcionem até 31 de maio. “Até lá a epidemia deverá ter se reduzido a níveis adequados”, diz Noronha.
PIOR QUE EM 2002
Desde o início do ano, 43.523 casos de dengue foram notificados e 54 pessoas morreram. Ou seja, a cada 805 pessoas que tiveram a doença, uma morreu. Em 2002, ano da que era até agora a pior epidemia de dengue do Rio, foram registrados 288.245 casos da doença e 91 óbitos — uma morte a cada 3.167 casos.
Devido ao alto número de notificações (ontem foram 1.656 casos na cidade), o estado pretende colocar ônibus para transportar pacientes dos hospitais para as tendas. Além disso, cerca de 500 médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem do estado que estão cedidos aos poderes Legislativo e Judiciário serão convocados para atuar nas emergências. O decreto foi publicado ontem no Diário Oficial.
Ontem, o prefeito Cesar Maia, que não admite epidemia, estava na Bahia para festa de aniversário do Democratas. “Pedi a nosso Senhor do Bonfim que nos ajude, que leve o mosquito em direção ao oceano e nos proteja. Isso é uma energia muito forte que nós temos na Bahia”, disse.
Vários focos em terreno do governo
Vários focos do mosquito da dengue foram encontrados ontem por 70 agentes de saúde e bombeiros na comunidade Vila Arco-Íris, em Curicica, Jacarepaguá. No local, à Rua Sampaio Correia, placas indicam estação de tratamento da Cedae, que estaria desativada.
Os agentes levaram uma hora e meia na inspeção. Eles encontraram caixas d’água mal tampadas, água parada no chão, em manilhas, galões e tanques. Um funcionário se prontificou a cumprir as determinações dos agentes, que também espalharam larvicidas. Hoje, técnicos voltarão lá para conferir a situação.
A Cedae informou que o local foi repassado à Prefeitura do Rio através de convênio firmado há um ano. Procurada, a Rio Águas, do município, informou que não tem responsabilidade sobre o local. Já a Secretaria Municipal do Habitat, que teria herdado as estações da Cedae em comunidades carentes, não soube confirmar se é ou não responsável, mas disse que fará vistoria.
Recursos que deixaram de ser investidos
Dos recursos transferidos à Prefeitura do Rio pelo Ministério da Saúde em 2006, destinados a programas de Vigilância em Saúde, 23% não foram usados, segundo relatório do Tribunal de Contas do Município. Os programas incluem o combate à dengue. A União transferiu R$ 18,12 milhões. Cerca de R$ 5,5 milhões deixaram de ser usados, diz o relatório. Parte da verba foi gasta em contratos com aluguel de ambulâncias e na limpeza de hospitais. Em 2007 foram orçados R$ 18 milhões e pagos R$ 9,2 milhões.
Já segundo o Contas Abertas, pelo menos R$ 47 milhões deixaram de ser gastou em 2007 no estado e município em programas relacionados à dengue. O estado deixou de investir R$ 39 milhões previstos no Orçamento de 2007. Já o município, deixou de investir R$ 8 milhões. O município contesta. O estado afirma que vem aumentando investimentos e que não há limite para ações em emergências de saúde.