Rio - Pilotos de aeronaves civis se anteciparam à determinação do Estado-Maior da Aeronáutica e já estão trafegando em percursos alternativos, para passar longe das áreas de risco, como a chamada Rota da Penha, considerada de extremo perigo por seguradoras. A Aeronáutica informou que, a partir do dia 28, novos procedimentos de vôos, como alterações em atitudes e trajetos, entrarão em vigor em função das possibilidades de tiros atingirem helicópteros, monomotores e bimotores.
A medida foi aplaudida pelas seguradoras, que já pensam em triplicar o valor das apólices de helicópteros no Rio ou até recusar clientes, caso o risco permaneça. Segundo levantamento feito pela Correcta Seguros, especializada no mercado aeronáutico, entre janeiro e maio, 10 helicópteros foram atingidos por tiros no espaço aéreo do Rio. Relatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrou seis ataques graves a helicópteros civis — a maioria de passeios turísticos — enquanto sobrevoavam favelas da cidade.
“Informalmente, os pilotos já estão adotando outras rotas como meio de tentar fugir de ataques de bandidos, principalmente nos complexos de favelas próximos à Penha (Alemão e Vila Cruzeiro), que estão em guerra. Tem sido cada vez mais comum aeronaves pousarem no Aeroporto de Jacarepaguá com perfurações de tiros. Não podemos esperar que uma desgraça aconteça para tomarmos as providências”, disse o presidente da Associação dos Controladores do Tráfego Aéreo, Jorge Nunes de Oliveira.
Para Gustavo Mello, sócio da Correcta Seguros, se o risco para aeronaves persistir, poderá acontecer no Rio o que já houve no Equador e na Colômbia, onde seguradores internacionais não aceitam garantias em determinados territórios, as chamadas “zonas excluídas”. Essas área são locais de guerras e de conflitos provocados pela disputa no narcotráfico.
Neste sábado, no Rio, há 202 helicópteros, conforme dados da Anac. Normalmente, um contrato de seguro varia entre 2% e 3% do valor total da aeronave. “As seguradores vão começar a recusar clientes. Ou para não terem prejuízos, os valores das apólices ficarão três vezes mais caros. As seguradoras já oferecem ‘cobertura de guerra’, ou seja, se uma aeronave for alvejada enquanto sobrevoa um morro do Rio e não tiver o serviço, a seguradora não vai pagar o prejuízo”, afirmou Gustavo Mello.
A blindagem, medida adotada por motoristas que trafegam em vias expressas da cidade, não seria eficiente para helicópteros, na opinião de especialistas. Além do seguro ficar dez vezes mais caro, a quantidade de combustível necessária também seria maior.
Como O DIA mostrou nesta sexta, há pelo menos 11 áreas de risco no espaço aéreo do Rio.
Ajuda de fora para a segurança do Pan
A Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) informou ontem que, além do FBI — Polícia Federal Americana —, agentes de outros países também farão levantamentos sobre a segurança no Rio antes do início dos Jogos Pan-Americanos, no mês que vem.
De acordo com a Senasp, a medida é praxe em todo grande evento esportivo internacional. Foi dessa forma, por exemplo, que o Brasil agiu na Copa do Mundo da Alemanha, ano passado.
Quinta-feira, o prefeito Cesar Maia havia anunciado que agentes do FBI estão na cidade realizando levantamento aerofotogramétrico — fotografias aéreas —, para mapear os pontos críticos de violência e auxiliar no planejamento de ações de segurança do Pan. O levantamento é acompanhado por funcionário da coordenação de segurança dos jogos, subordinado à Senasp.
A assessoria de imprensa do Consulado dos Estados Unidos no Rio informou nesta sexta, através de e-mail, que o FBI tem “colaborado com as autoridades locais na área de segurança e tem o interesse comum em garantir que os Jogos Pan-Americanos transcorram de forma segura para todas as delegações”.
Mudança provocada por tiros
Apesar de rotas comerciais também sobrevoarem áreas de risco, a determinação da Aeronáutica de alterar os corredores só será aplicada a aeronaves como os táxis aéreos e os helicópteros particulares.
Na madrugada de terça-feira, o apresentador Jô Soares comentou em seu programa que, na sexta-feira anterior, o vôo em que estava havia atrasado 30 minutos porque o piloto não sobrevoou o Leme, temendo ser alvejado por tiros durante confronto entre traficantes e policiais no Morro do Chapéu Mangueira. Quinta-feira, O DIA noticiou que piloto da Varig avistou balas traçantes durante o conflito no Leme e avisou a torre de comando.
De acordo com a Anac, em outubro, um helicópteros com capacidade para 12 pessoas foi atingido por tiros ao passar pela Vila Cruzeiro, na Penha. No dia 26 de dezembro, dois disparos de fuzil perfuraram o assoalho de modelo Esquilo. Um acertou o painel e varou o pára-brisa e o outro, o rotor da aeronave.