Rio - Chefe da equipe substituta do Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, a médica Yolanda Maria Cyranka foi detida ontem ao descumprir ordem judicial que exigia transferência de paciente para UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). O mandado, expedido pela juíza Simone Cavalieri, do Juizado Especial Criminal, e recebido pela médica no início da manhã, exigia que Rosevam Galileu dos Santos, 39 anos, fosse encaminhado à UTI do hospital em quatro horas, o que não aconteceu.
Diabético e aposentado por invalidez pelo INSS, Rosevam apresentava insuficiências renal, cardíaca e respiratória e chegou a sofrer parada cardíaca. Novo mandado foi entregue ao Miguel Couto às 10h. Desta vez, pedia que o paciente fosse transferido para o hospital particular Copa D’Or, às custas da prefeitura. Novamente, a médica contestou a ordem, alegando que já havia removido o paciente para a unidade coronariana de cuidados intensivos, embora fora do prazo. No entanto, a família não aceitou a internação e passou a exigir a ida para a unidade privada.
Segundo Rosemary Damiana, 41 anos, irmã de Rosevam, mesmo diante do oficial de Justiça, que foi ao Miguel Couto verificar se a ordem havia sido cumprida, Yolanda se negou a liberá-lo para o Copa D’Or. “Ela me disse que a prefeitura não iria pagar pela vida dele”, disse. Como o oficial tinha mandado de prisão caso a exigência fosse desrespeitada, Yolanda foi detida e levada para a 14ª DP (Leblon).
Rosevam foi levado para o Copa D’Or à noite. Internado na Emergência do Miguel Couto desde o dia 5, ele começou a piorar quinta-feira. “Ele precisava fazer exames, mas não havia médicos. Me disseram que outras pessoas tinham prioridade, devido à escassez no atendimento, disse Rosemary, que não pensa em processar a prefeitura.
No final da noite, o secretário municipal de Saúde, Jacob Kligeman, esteve na 14ª DP para prestar solidariedade à médica. Em nota, a secretaria divulgou que cumpriu todas as decisões judiciais.
Mais queixa contra o hospital
Segundo a defensora pública Aline Gama, Yolanda só seria liberada de madrugada, quando fosse verificada a remoção do paciente. Ela responderá ao processo em liberdade. “Quem descumpre ordem judicial está sujeito a pena entre 15 dias e 6 meses de detenção ou prestação de serviços”, explica Aline. Ela acrescentou que casos como esse não são comuns na Justiça. “Queixas contra plano de saúde e falta de atendimento são freqüentes, mas médico que se recusa a transferir paciente é novidade”.
A 14ª DP recebeu outra queixa contra o Miguel Couto ontem. Mulher que não se identificou foi lá porque sua irmã, Maria de Fátima Aragão, 50, internada na Emergência com suspeita de meningite, não podia ser levada para outro hospital.