Bartolomeu Brito e Vania Cunha
Rio - Em mais uma demonstração de ousadia e afronta ao poder público, traficantes do Morro do Caracol, no Complexo da Penha, reagiram a tiros à presença do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Ubiratan Angelo, na favela ontem de manhã. Ele foi ao local para reunião com diretores de escolas da região que estão fechadas há 40 dias devido aos violentos confrontos. Na chegada e na saída, Ubiratan e sua comitiva foram alvo de disparos. Ninguém ficou ferido. Enquanto ocorria o encontro, houve tiroteio na vizinha Favela da Chatuba, onde um PM foi baleado.
O comandante negou ter saído às pressas. “Não havia motivo para qualquer soldado ou comandante correr. Seria indigno e incapaz de estar à frente da corporação se corresse. Ficamos tranqüilos ao lado dos policiais, que, durante reunião, se confrontaram com traficantes”, justificou o coronel.
A reunião foi realizada no Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade, na subida do morro. Ubiratan chegou lá por volta das 7h30, depois de se encontrar com o coronel Marcus Jardim, comandante do 16º BPM (Olaria). Ele fez parte do percurso a pé e, embora o policiamento estivesse reforçado, traficantes atiraram do alto da favela.
Sob a proteção de homens armados com fuzis, o comandante e o secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia, entraram no centro cultural e foram para a reunião. Na saída, um novo ataque. O comandante entrou rapidamente no veículo, que saiu em alta velocidade.
Houve pânico e correria entre participantes da reunião. Temendo balas perdidas, professoras se jogaram no chão e se abrigaram atrás de carros. Com apoio de blindado, PMS fizeram incursões, mas ninguém foi preso.
CRÍTICAS
O presidente da Associação dos Moradores do Parque Proletário da Penha responsabilizou o secretário Marcelo Garcia pelos tiros. “Estava marcada uma reunião no Ciep Gregório Bezerra, com os diretores, professores e mães de alunos. De repente, o secretário convidou o comandante e não chamou os líderes comunitários. De manhã, dois presidentes foram impedidos de participar. O erro foi brutal”, criticou.
Durante a reunião, policiais do 16º BPM e bandidos trocaram tiros na Chatuba. O soldado Luís Cláudio de Souza Corso, 32 anos, foi baleado nas pernas por disparo de fuzil. Ele foi operado no Hospital Getúlio Vargas, Penha, onde colocou pinos nas pernas.
À tarde e à noite, houve mais duas reuniões com secretários, comando da PM e diretores de escolas para resolver a questão da volta de três mil alunos às aulas no Ciep Gregório Bezerra.
Pais reclamam de solução do governo
Os pais dos alunos não concordaram com a decisão de juntar três mil estudantes no Ciep Gregório Bezerra, na Penha. Representante do Conselho Escola-Comunidade e moradora da Vila Cruzeiro, Adriene de Lima Soares, mãe de dois meninos, protestou:
“Queríamos segurança para que os nossos filhos voltassem às escolas de origem. Essa proposta foi imposta. Ninguém perguntou se queríamos isso mesmo, apenas comunicaram”.
A dona-de-casa Eliane Maria dos Santos, que tem dois filhos matriculados no Ciep, também reclamou. “Não tem como fazer esse projeto. A escola vai ficar lotada. Como vão estudar direito com as salas tão cheias?”, indagou Eliane.
Os pais também questionam o fato de os estudantes terem apenas duas horas de aula por dia. “Esse período não vai repor o tempo perdido por causa da guerra”, afirmou uma das mães.