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12/6/2007 01:23:00

Um químico trabalha para bandos rivais

Facções inimigas utilizam os serviços de um profissional para refinar cocaína nas favelas

Leslie Leitão e Maria Mazzei

Rio - Duas favelas dominadas por facções inimigas estão trilhando o mesmo caminho para oferecer droga mais poderosa aos seus consumidores. Segundo investigações da Polícia Civil, o perigoso elo estaria sendo costurado dentro de Bangu 3 por Cristiano de Sá Silva, o Abelha. Vizinho de cela de Ocimar Nunes Robert, o Barbosinha, chefe do Morro do Turano, controlado pelo Comando Vermelho (CV), ele é irmão de Saulo de Sá Silva, principal fornecedor das bocas-de-fumo da Rocinha, sob o domínio da Amigos dos Amigos do Lulu (ADALL).

Indícios dessa relação estão no cruzamento de dados obtidos por escutas telefônicas autorizadas pela Justiça. “Sabemos que tanto a Rocinha quanto o Turano estão utilizando os serviços de um químico. Temos a convicção de que é a mesma pessoa”, afirma o inspetor de uma delegacia especializada.

Antes de o químico entrar em ação, há um ano, Saulo precisava de um contato para comprar a pasta-base de cocaína, que tem grau de pureza de quase 100%. E conseguiu. Assim, passou a utilizar como principal rota a fronteira entre Bolívia e Rondônia, a mesma usada por seu irmão Abelha e Barbosinha, preso em Presidente Médici, Rondônia, em 2003.

PERMISSÃO DE CHEFÃO

Trazendo ao Rio cocaína mais pura, Saulo triplicou os lucros da Rocinha. Ano passado, teria conseguido permissão do chefão da favela, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, para negociar com outros bandidos. “Não vou deixar de ganhar dinheiro por causa de uma letra”, costuma dizer. Segundo investigações da 15ª DP (Gávea) e da Polícia Federal, foi Saulo quem contratou o químico para refinar a droga em laboratório ainda desconhecido.

A preocupação da polícia aumentou com a descoberta da atuação do químico também no Turano, conforme mostram grampos a que O DIA teve acesso. Num diálogo, bandido não-identificado pede ao gerente conhecido como Gordão o envio de carga de pó. “O químico vai desenrolar uma parada aqui amanhã cedo”, diz o gerente.

Em outra conversa, o gerente do Turano mostra-se empolgado com a mistura: “O cara tava comigo aqui hoje, o químico, tá entendendo? Ele vai virar (transformar a pasta-base em cocaína em pó) uma paradinha pra mim maneirona. Vai virar um bagulho pra mim tipo aquele da Colômbia”.

A polícia tenta descobrir quem é o químico que faz o contato entre os irmãos Saulo e Abelha, que nasceram e foram criados no Rio Comprido. Desde domingo, O DIA vem revelando a facilidade com que Barbosinha controla o tráfico do Turano de dentro de Bangu 3 e como as visitas entram com drogas e telefones celulares.

Laboratórios clandestinos

O Rio vem refinando cocaína há três anos, segundo a Polícia Federal (PF). Só este ano, foram apreendidos 31 quilos de pasta-base, avaliados em R$ 48 mil. Para a PF, essas apreensões são um sinal da existência de laboratórios dentro das favelas.

Apesar de aparentemente asfixiado pela PM desde o início de maio, o Complexo do Alemão continua como o principal destino de drogas do Comando Vermelho, seguido pelos morros da Mangueira e do Turano. A Rocinha — dominada pela ADALL — e o Morro do Estado, em Niterói — controlado pela ADA —, também são pontos que abastecem o tráfico. Embora em lados opostos, as duas facções buscam matéria-prima nas mesmas fontes: compram pasta-base de traficantes de São Paulo ou importam da Bolívia, Peru, Colômbia e Paraguai.

“As rotas de entrada no Brasil já são conhecidas, mas para fugir das ações da polícia, são usados os ‘formiguinhas’. Em vez de grandes carregamentos, trazem cargas menores para evitar grandes prejuízos”, explicou o delegado Vítor Cesar Carvalho, da Divisão de Repressão Entorpecentes da PF.

Em março, em Conceição de Macabu, a PF estourou uma refinaria de cocaína que produzia 60 quilos da droga por mês e apreendeu 20 quilos de pasta-base.

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