Rio - Para ser considerado um motorista comportado é necessário bem mais do que respeitar as regras de trânsito. Recomenda-se manter a humildade ao volante, mesmo em uma Ferrari, e não avançar o sinal com alguém no banco de trás, o famoso amasso.
Divulgados ontem pelo Vaticano, os 10 mandamentos do trânsito estão nas “Diretrizes para o Cuidado Pastoral da Estrada”, documento de 36 páginas com aspectos morais da condução.
O cardeal Renato Martino, presidente do Conselho Pontifício para os Emigrantes e Itinerantes, preparou o texto, contribuição da Igreja ao fenômeno da mobilidade humana.
O documento ressalta que muitas pessoas ao volante são prepotentes e desenvolvem o instinto do domínio. O carro se transforma em objeto de ostentação e desperta inveja. Em 2005, um Golf que pertenceu ao Papa Bento XVI foi vendido em leilão pelo equivalente a R$ 595 mil. O dono do veículo alardeou que o carro pertencera ao Papa e proporcionaria uma viagem celestial.
O Vaticano recrimina a ira ao volante e gestos rudes na direção. O texto recomenda respeito ao pedestre e cuidado com o veículo, além de orações no trânsito.
O quinto mandamento é para manter o motorista com os pés no chão: não transformar o veículo em lugar de pecado. Melhor manter as duas mãos no volante. O padre Alex Siqueira, 32, da Paróquia da Nossa Senhora do Loreto do Galeão, na Ilha, defende o documento. “O carro pode despertar o que há de ruim nas pessoas. As recomendações sobre não transformar o carro num lugar de pecado mostram a preocupação com a família. Quantos maridos não traem suas mulheres no carro?”, questiona ele, dono de um Renault Mégane.
O Vaticano observa que o trânsito matou 35 milhões e feriu 1,5 bilhão de pessoas no século XX. Em 2000, 1,26 milhão perderam a vida. O documento adverte sobre uso de celulares e direção sob efeitos do álcool e das drogas. O Vaticano, cercado por um dos piores trânsitos do mundo, o de Roma, tem só mil carros, a velocidade máxima é de 30 km/h e o último acidente, leve, ocorreu há um ano e meio.
Na apresentação do documento, o conselho também condenou a violência sexual contra a mulher, apontou a prostituição como forma de escravidão e pregou a punição dos clientes na Justiça.
‘AMASSOS’ EM RITMO DE AVENTURA
Quem já usou um carro — seu ou do próximo — como ‘lugar de pecado’ não cansa de dar testemunhos sobre as mais variadas situações na Internet. No site de relacionamentos Orkut, diversas comunidades, como as ‘Eu Namoro no Carro’ e ‘Sexo no Carro Andando’, têm tópicos de discussão que detalham a ‘prática sobre rodas’, com perguntas do tipo ‘Você já foi surpreendido: durante ou depois?’ e ‘Qual é o tipo mais apropriado para namorar?’.
Já outros sites trazem desde uma espécie de ‘Kama Sutra automotivo’, com ilustrações de posições sexuais, até dicas para quem não está lá muito habituado a fazer saliência em automóveis. Algumas das sugestões são ‘estacionar em local reservado, relativamente escuro e longe de curiosos’ e ‘evitar movimentos bruscos que resultem em esbarrão nos seios ou pancada nos testículos’.
Até hoje, o ator Hugh Grant é lembrado pelo flagrante que levou da polícia de Los Angeles quando a prostituta Divine Brown praticava sexo oral nele dentro do carro em 1995.
O sambista Dudu Nobre é um dos que não resistiram à tentação de viver uma aventura amorosa dentro do carro. “Não é o local mais apropriado, mas já dei meu jeito”, ri.
A julgar pela música ‘Maria Gasolina’, Latino também já teve ‘o óleo trocado’ dentro de seu imponente Rolls-Royce. “Dentro do carro, banco inclinado, rola um DVD, vidro fechado, mão na buzina, a gente manda ver”, diz a letra.
Na direção do exibicionismo
Ostentar um carro do ano, de preferência um Porsche ou uma Ferraria, é o sonho de 10 entre 10 jogadores de futebol. Calcula-se que o atacante Romário, do Vasco, tenha desembolsado a ‘ninharia’ de R$ 1,6 milhão pela sua Ferrari, um modelo F-430, que pode chegar de zero a 100 km em menos de 4 segundos e atingir uma velocidade máxima de 340 km/h. Para muitos jogadores, mais do que um simples meio de transporte, carros de última geração são sinônimo de status. O pecado da ostentação, aliás, é cometido sem culpa por dezenas de clientes da Jaguar. Supervisora-geral da marca no Rio, Maria do Céu Franco de Souza admite que todo usuário do carro tem um pouco de exibicionista. “Nossos clientes não gostam de se expor, mas, se chegam em um modelo Jaguar, logo impõem respeito. Isso faz bem ao ego das pessoas”, avalia ela.
ATIVISTAS ELOGIAM DOCUMENTO
Os ‘Dez Mandamentos do Motorista’ mereceu elogios de alguns defensores de um trânsito mais humanizado nas rodovias brasileiras. O especialista em prevenção a acidentes e segurança no trânsito Fernando Pedrosa é um dos que elogiaram as propostas do Vaticano.
“Vejo que a Igreja, que já se preocupa com o lado espiritual das pessoas, também se preocupa com o terreno”, afirma Pedrosa. Para ele, se o motorista seguir pelo menos os três primeiros, já será o suficiente para um trânsito mais seguro e civilizado: "Os três primeiros são simplesmente perfeitos. Neles, já vejo a solução do problema: não matarás, não fazer da estrada um instrumento de morte e ser prudente”.
O engenheiro Fernando Diniz, engajado em campanhas de trânsito desde que perdeu o filho em um acidente, em 2003, também aprovou o ‘decálogo’. Mas fez ressalvas quanto ao oitavo mandamento: “Não se trata simplesmente de pedir perdão. Antes de qualquer coisa, o agressor também deve ser punido por seus atos. Se não, o responsável não tem a dimensão do que provocou. Posso até perdoar, mas nunca mais vou ter o meu filho de volta”, justifica.