Flávia Duarte, Maria Mazzei e Paula Sarapu
Rio - Imóveis de luxo em condomínios da Barra e arredores são os preferidos dos policiais presos na Operação Furacão 2, que investiga a máfia do jogo ilegal no Rio. Segundo consta em relatório da Polícia Federal (PF), o inspetor Miguel Laíno tem mansão avaliada em R$ 700 mil por corretora de imóveis da região. Detido, Laíno era lotado no gabinete do presidente da Assembléia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), até abril, quando foi demitido, após a primeira Operação Furacão da PF.
Ontem, o delegado-chefe da Polícia Federal em Macaé, Eduardo Machado Fonte, foi preso, acusado de receber propina da máfia. O relatório mostra que os pagamentos variavam por mês de R$ 2 mil a R$ 30 mil.
Lotado na Seção de Pessoal em Situações Diversas, Laíno recebe salário mensal de R$ 2.200 brutos (R$ 1.900 com descontos), como inspetor de 4ª classe. Mas a casa de dois andares, com cerca de 500 metros quadrados, no Recreio dos Bandeirantes, tem câmeras de segurança na entrada, além de piscina, churrasqueira e freezer de exposição no quintal. Segundo funcionária da mansão, o imóvel estaria sendo usado atualmente apenas pela mulher e os dois filhos do policial.
APARTAMENTO DÚPLEX
Os outros policiais donos de imóveis na região da Barra, a mais cara da Zona Oeste, são o inspetores da Polícia Civil Luiz Carlos Rodrigues de Lima, Luiz Henrique Rossetti Loureiro e Ronaldo Gonçalves Montalvão, além do agente federal Antônio Oton Paulo Amaral, que também alugou sua casa de Búzios para Júlio Cesar Guimarães, sobrinho do bicheiro Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, presos pela Furacão 1.
Levantamento de imobiliária indica que os os apartamentos de Luiz Carlos e Luiz Henrique, nos condomínios Barra Bali e Special Bali, custam em torno de R$ 200 mil.
Ambos têm dois quartos e condomínio de R$ 560. Luiz Henrique tinha a vista da Praia do Recreio. Luiz Carlos, no entanto, comprou apartamento dúplex. Na garagem, os dois guardavam carros populares.
Já o inspetor Ronaldo Montalvão morava no condomínio Via Cancun, às margens do Canal de Marapendi. Seu apartamento está avaliado em R$ 320 mil. O condomínio custa R$ 590.
Dos 20 policiais civis denunciados, cinco têm imóveis na Zona Sul. O delegado José Januário de Freitas possui apartamento em andar alto de edifício na Praia do Flamengo.
Ainda foragido, o inspetor Paulo Roberto Moreira da Silva, o Paulo Boca, chegou a alugar por dois anos, pagando R$ 1.500, apartamento de três quartos em Copacabana. Segundo a PF, ele também tem mansão em Camboinhas.
COM PROPINA DE R$ 5 MIL
O delegado federal de Macaé, Eduardo Fonte, é acusado no relatório da PF de receber cerca de R$ 5 mil de contraventores por mês. Entre os pagadores está o policial civil Marcos Bretas, o Marcão. O intermediário da propina era o delegado federal aposentado Luiz Paulo de Mattos, detido em abril. Eduardo estava lotado há quase dois anos na delegacia onde foi preso.
Segundo a PF, a propina era paga a determinados servidores públicos para informar sobre ações de repressão aos caça-níqueis.
Em escuta telefônica do dia 10 de fevereiro, Luiz Paulo deixa recado na caixa postal de Eduardo dizendo que terão que “antecipar o chope que combinaram” devido à viagem que ele e a esposa, a delegada federal Susie Pinheiro Dias de Mattos, também presa, fariam para Guarapari, no Espírito Santo.
Três dias depois, Eduardo vai à reunião em seu Crossfox preto LQX 1480, no apartamento de Luiz Paulo, na Barra. Fotos do relatório mostram que Marcão chegou ao local num Astra preto, carregando um pacote.
Quatro já eram investigados pela Polícia Civil
Entre os 20 policiais civis presos na Operação Furacão 2, da Polícia Federal, pelo menos quatro, inspetores, já eram investigados pela Corregedoria da instituição — três deles por ligações com caça-níqueis e jogo do bicho. Miguel Laíno, ex-funcionário do gabinete de Jorge Picciani, responde a sindicância desde 2004 por envolvimento com a máfia das máquinas caça-níqueis.
Foragido, Paulo Roberto de C. Moreira da Silva, o Paulo Boca, é alvo de dois inquéritos por envolvimento com jogo do bicho. Fernando Rodriguez Santos, o Salsicha, é investigado por receber propina da contravenção. Maurício Alves de Araújo responde a sindicância por transgressão disciplinar e um inquérito. Porém, a Corregedoria não informou o motivo.
O inspetor Jorge da Silva Caldas, Jorge Ganso, foi investigado em 1993 por enriquecimento ilícito. Na época, comprou apartamento que ocupa um andar na Rua Barão da Torre, Ipanema, por US$ 120 mil (R$ 240 mil). A sindicância foi arquivada.